logo AzMina

Quem vai rezar pela Amazônia quando o céu do sudeste voltar a clarear?

por Rebecca Souza
2 de outubro de 2019
Muito se falou sobre a Amazônia por conta das queimadas, mas pouco se conhece do Norte do país e das lutas que são travadas na região
Moradoras da comunidade ribeirinha de Santa Maria, no Rio Negro (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Enquanto escrevo, a Área de Proteção Ambiental (APA) de Alter do Chão, em Santarém (Pará), pega fogo.

Talvez você que me lê não saiba disso. É sintomático, ninguém sabe nada sobre o Norte do país. Na verdade, as únicas duas palavras que passam pela cabeça das pessoas quando falamos sobre o Norte é floresta e índio.

Vi toda a “indignação” das pessoas quanto à Amazônia, porém, como muitos ativistas daqui, me pergunto: essa indignação é real ou só ocorre pelo fato de que ameaçou vocês?

O Norte vem sendo explorado há séculos, desde o ciclo da borracha até a construção das grandes usinas hidrelétricas, passando pelas patentes feitas por grandes corporações de produtos nossos.

Você já parou para se perguntar por qual motivo a Castanha do Pará passou a ser Castanha do Brasil?

Adivinhe, não foi por nenhum gesto patriótico, e sim porque a Castanha do Pará foi patenteada, assim como o cupuaçu, o jambu (a verdura), o jambo (a fruta) e muitos outros produtos.

Leia mais: Não, ministra, o problema no Marajó não é a falta de calcinhas

Sabe aquele sabonete maravilhoso ou qualquer outro cosmético que leva andiroba? A matéria prima é retirada por comunidades tradicionais da Amazônia*, em regime praticamente de subsistência, pois muitas vezes eles ganham por quilos coletados. E não estamos falando aqui de um ou dois quilos. 

O importante não é fazer yoga pela Amazônia, ou desenhar uma girafa acreditando que ela é um animal típico daqui – aliás, se você não consegue reconhecer animais de um dos maiores ecossistema do seu próprio país, estamos realmente com um problema. Na verdade, as pessoas não conseguem nem distinguir a Amazônia Legal (criada em 1953), do estado da Amazônia e da floresta Amazônica. 

Sabe qual o primeiro espanto das pessoas quando digo que sou do Norte? O fato de não ter um “rosto do Norte”. Apesar de meu pai ser natural do Pará, ele descende de negros barbadianos, que tiveram uma grande história aqui no estado (aliás, esse é outro fato que ninguém sabe sobre o Norte).

Logo depois sempre me perguntam em tom de risos se tem jacaré e cobra na rua por aqui. Eu moro em Belém, que é uma metrópole tão cosmopolita quando qualquer outra capital, assim como Manaus e as outras capitais do Norte. Lógico que nossos interiores têm alguns locais mais ao meio da floresta e com contato direto com a fauna. Mas em São Paulo e no Rio de Janeiro todos os interiores são modernos?

Leia mais: As meninas que renovaram minha crença no ativismo

Tinha uma pessoa que toda vez me corrigia quando eu falava sobre roda do ano (um termo tanto da bruxaria tradicional quanto da wicca). Eu dizia que iria comemorar um rito de inverno, e ela, que mora em São Paulo, insistia em dizer que aquilo era errado, pois era verão. Ela somente se convenceu quando mostrei que aqui as estações do ano, embora não bem definidas, são o contrário da onde ela morava. Assim, em julho estamos no auge da estação do sol, e em outubro começa o inverno amazônico. Ela me respondeu: “que loucura, nem o tempo de vocês é igual ao do Brasil”.

Outra vez tive que escutar que era “nojenta” a forma como tomávamos açaí aqui. Entenda, o açaí aqui é um alimento, comemos com farinha, peixe frito, camarão, carne, etc. Para muitas famílias de baixa renda, principalmente os ribeirinhos**, é o substituto do arroz e feijão, e garante a alimentação e a sobrevivência de muitas crianças. 

O açaí que é tomado nos centros urbanos das outras regiões não é o açaí, e sim uma polpa. Aqui também fazemos doce com a polpa, e dizer que isso é nojento é dizer que nossa cultura é incivilizada e errada. E o nome disso sempre vai ser colonização. 

Durante muito tempo vendemos a colonização como o europeu chegando aqui e mudando o nosso modo de vida. Porém, quando você repete aquela velha piada do “Acre existe” você também não está sendo um colonizador, ao achar que o modo de vida do seu Estado valida algo?

Leia mais: Mais um assassinato de quem defende os direitos humanos

Quando começou a “onda amazônica” nas redes sociais o que mais se via eram pessoas criando fundos de luta pela Amazônia, e afirmando que “precisamos lutar pela Amazônia”. Mas sabe, Chico Mendes, Cacique Raoni, Movimento contra Belo Monte, Eco 92 e até o cantor Sting pulando com indígenas é luta pela Amazônia. 

E a gente vem fazendo isso há séculos, sozinhos.

Por sinal, a região norte é a região aonde mais se mata ativistas de direitos humanos, uma das minhas primeiras colunas foi sobre esse fato. Eu mesma fui ameaçada durante três anos. Ninguém questiona quem nos matou. Aqui se mata por grilagem de terra, por garimpo, por queimada, por lutar por direitos. Não é que sejamos contra o #saveamazonia ou o #rezepelaAmazonia, é que depois que o céu do sudeste clarear, quem vai rezar por nós?

*Comunidades tradicionais: grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social e religiosa.

**Ribeirinhos: habitantes tradicionais das margens dos rios. Estes vivem com as condições oferecidas pela própria natureza, adaptando-se aos períodos das chuvas.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

Apoie o jornalismo em defesa da mulher