
Uma nova invasão militar dos EUA, alguma nova denúncia de corrupção e, no meio disso, mais um caso de feminicídio ou violência sexual. Mais um dia comum no noticiário de 2026, um ano que começou já tendo a violência como tônica e especificamente a de gênero como algo praticamente normalizado. Isso porque o fim de 2025 já tinha sido aterrorizante com notícias em série de violências. Mulheres são violadas e assassinadas com uma frequência perturbadora, mas a frequência é tanta que muitas vezes as pessoas nem se chocam mais.
É só quando surgem casos extremos que a indignação pública se levanta. Um estupro coletivo cometido por quatro jovens choca. Uma mulher arrastada pelo carro do seu namorado até a morte revolta. Um juiz suspeito de abusos que manda soltar homem acusado de estupro de vulnerável também. Ex-marido que mata os filhos para punir a mulher. E, para cada caso que choca, muitas outras mulheres foram violentadas sem provocar indignação.
Afinal, foram em média 4 feminicídios por dia em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (62,6% das vítimas eram mulheres negras), e um estupro a cada seis minutos, de acordo com dados do Ministério da Justiça (com meninas menores de 14 anos liderando as estatísticas de violência sexual). Números altíssimos, que tornam os maiores pesadelos de nossas vidas algo corriqueiro no nosso país. Mas isso não pode seguir assim.
E mais do que nos indignar e chocar, precisamos pensar sobre o que leva a esse aumento na violência contra as mulheres e meninas no Brasil, para construir estratégias eficazes de enfrentamento.
Estamos enxugando gelo?
AzMina tem 10 anos de história e é triste para nós pensar que, nesse período, a situação só piorou. É a velha sensação de enxugar gelo. Piorou não porque organizações feministas fazem pouco, mas porque a desigualdade social e as estruturas complexas que normalizam e estimulam a violência de gênero só crescem e se aprofundam.
Dois pontos mudaram muito desde que AzMina foi fundada, em 2015, e merecem atenção. Primeiro, o avanço global do conservadorismo e da extrema-direita, retomando um discurso sobre papéis tradicionais de gênero. Enquanto homens lançam mísseis em outros países, mulheres se tornam tradwives (do inglês traditional wife, ou esposa tradicional), servindo no lar.
O segundo ponto é a relevância das big techs, intrinsecamente conectadas a esse conservadorismo, no estímulo à violência de gênero. Não à toa, a maioria delas está nas mãos dos chamados “techbros”: homens, majoritariamente brancos e muito poderosos, aliados a governos como o de Trump, e que têm alimentado a misoginia nos algoritmos de suas plataformas.
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O algoritmo que nos odeia
As plataformas são parte essencial do dia a dia de quase toda pessoa hoje em dia. Acordamos e dormimos com Meta, OpenAi, X, Google e tantas outras nas palmas de nossas mãos, intermediando a maioria das nossas relações. Os algoritmos decidem muito sobre as informações que recebemos ou não e sobre com quem e como nos conectamos.
E essas tecnologias não só alimentam o ódio às mulheres e meninas, como facilitam as violações impostas a todas nós.
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Lá em 2015, quando AzMina surgiu, red pills (grupos masculinistas misóginos) eram subcomunidades ocultas na internet. Hoje, eles são influenciadores com muitos seguidores.
A misoginia não só é permitida pelas plataformas digitais, como é impulsionada por seus mecanismos nada transparentes de funcionamento. Destilar ódio contra mulheres dá alcance e visualização, torna violadores famosos, e para o capitalismo de dados, tudo bem que haja danos colaterais se a lucratividade do negócio segue em alta. Espalham sem culpa ou responsabilidade conteúdos que vão desde discursos misóginos até vídeos de violência explícita para milhares de homens e meninos.
Some a isso a falta de políticas públicas que abordem questões de gênero de maneira responsável e educativa desde cedo, e temos o ambiente ideal para que os números chocantes da violência contra a mulher continuem crescendo.
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Como fazer frente a isso?
Como fazer frente a isso? É uma pergunta complexa e cheia de camadas. Não existe um caminho único, é preciso muitas frentes de ação.
Nós, d’AzMina, temos encarado isso ao longo dos anos e vamos seguir. Em 2026, um dos nossos focos é o combate à violência de gênero em suas múltiplas formas e, para isso, vamos fazer frente ao conservadorismo que vai da política aos nossos celulares. Vamos investigar, monitorar e denunciar ainda mais as estruturas que alimentam a normalização da violência contra a mulher, levando em conta raça, território, classe e outros marcadores sociais.
Mas não só. Se eles estão construindo tecnologias sobre bases e lógicas misóginas, nós vamos fazer tecnologias feministas!
Vamos, não. Já fazemos. Desde 2019, com o PenhaS, nosso aplicativo gratuito que ajuda mulheres a romperem o ciclo da violência doméstica antes que o pior aconteça, e que já tem mais de 17 mil usuárias em todo o Brasil. Também com a QuitérIA, nossa Inteligência Artificial Feminista que fica de olho no Congresso Nacional, e tantos outros projetos.
Não temos o poder nem os recursos do techbros, mas temos compromisso com a vida das mulheres, meninas e pessoas LGBTQIAPN+. É por isso que vamos seguir fazendo nosso trabalho, desenvolvendo e aplicando comunicação e tecnologias feministas para enfrentar sem medo a violência contra a mulher. Nesse caminho, cada vida salva e cada direito garantido valem muito!
