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“Quando a gente está com raiva, as produções saem muito potentes”, diz diretora de Espero Tua (Re)volta

por Luisa Toller
19 de dezembro de 2019
Documentário conta as histórias dos estudantes que ocuparam escolas em São Paulo em 2015
Imagem de divulgação do documentário Espero Tua (Re)volta
Imagem de divulgação do documentário Espero Tua (Re)volta

Entre tantas manifestações que o Brasil vê nas ruas desde 2013, uma chamou a atenção pelas táticas e organização: a dos estudantes secundaristas que ocuparam diversas escolas em São Paulo em 2015. Uma reorganização imposta pelo governo de Geraldo Alckmin fecharia escolas e milhares de salas de aula em todo o estado. Para impedir que isso acontecesse, os estudantes foram para as ruas e ocuparam escolas.

É essa história que a documentarista Eliza Capai conta no filme Espero Tua (Re)volta (veja o trailer aqui), que ganhou uma série de prêmios nacionais e internacionais. E ela escolheu contar pela voz de três estudantes que protagonizaram essa história: Marcela Jesus, Lucas “Koka” Penteado e Nayara Souza.  

A narração do filme pelos três jovens que participaram das ocupações é algo muito marcante e traz reflexões importantes sobre lugar de fala e aproximação dos adolescentes pela informalidade da linguagem. Conversei com Eliza sobre isso e sobre o desafios do contexto político cultural que temos vivido. Leia os principais trechos da entrevista:

Como você escolheu as três vozes de estudantes que conduzem a narração da história?

Eliza: Desde o começo, quando eu tive contato com a primeira ocupação, ao entrar com uma câmera [em maio de 2016] na ocupação da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), ficou muito claro que a questão da representatividade era uma das temáticas daquele movimento estudantil. Eles decidiram ali que quem sairia para fazer o jogral para a imprensa seria uma menina negra. Desde ali ficou uma sementinha plantada de quem deveria contar essa história.

Ali eu entendi que a própria disputa da narrativa era um ponto central naquele movimento. A luta antirracista era um dos pontos centrais. O debate sobre feminismo, com recorte para feminismo negro, a discussão entre centro e periferia, a luta LGBTQI+ eram outros temas. 

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Esses temas estavam explícitos nas falas dos estudantes?

Eliza: Essa geração, muito diferente da minha, traz as próprias questões para os corpos. Então as lutas políticas são colocadas também como estéticas corporais. As feministas não estão só falando “meu corpo minhas regras”, mas colocando roupas que deixam claro isso. A história da Marcela Jesus, uma das narradoras, passa pelas meninas que alisaram os cabelos desde criança e dentro das ocupações entendem aquilo como uma opressão da sociedade e rasparam os cabelos para assumir os blacks. A estética e a política nesses corpos dão as mãos como um corpo só. 

Daí a idéia desses 3 narradores que trazem nos próprios corpos essas questões principais dessas diferentes lutas estudantis. Era uma forma de dar coerência para essa história ser contada. 

Fiquei pensando no quão importante seria esse filme ser exibido nas escolas. Como ele foi distribuído e como ter acesso a ele?

Eliza: Esse é um documentário que se propõe a ser “fura-bolha”. Ele vai ao ar na GloboNews [GloboNews e Globo Filmes são coprodutores do filme] e no Canal Futura. Inclusive isso foi um tema de discussão, já que os estudantes são #ForaGlobo, mas concordaram com a exibição para chegar em outros lugares, então usamos a hashtag #OcupaTudo.

É a primeira vez que eu e a [produtora] Mariana Genescá fazemos um longa pela Ancine com fundos públicos, então o filme chegou nos cinemas em sete capitais, mas é uma distribuição feita sem recursos, ainda mais nesse contexto que a gente está, por essa censura.

Em paralelo com essa vida comercial do filme de cinema e de TV, ele também está na plataforma da Taturana, que distribui o filme e libera a exibição de forma gratuita por quem quiser organizar uma sessão aberta. Tentamos pensar na distribuição sabendo da dificuldade de estudantes frequentarem os cinemas, mesmo que a sessão seja gratuita. A distribuição vem para tentar inverter essa lógica de quem pode consumir cultura. 

Também sonhamos que esse filme chegue na Polícia. Na estreia do Rio de Janeiro tivemos o Beto, que é do Papo de Responsa, e trabalha junto à Polícia Civil e ele pensou em como organizar [exibições] para policiais militares. 

Você falou da censura à Ancine. Você acha que há formas de driblar e superar esse momento político que estamos vivendo?

Eliza: Eu enxergo a cultura como uma forma da gente se entender como indivíduo e se entender como sociedade, e boa parte das pessoas que estão gerindo o país são pessoas que não foram tocadas por isso, o que acho uma grande perversão. Como realizadora, acho que no curto prazo vai ser difícil pagar nossas contas, vai ser difícil sobreviver fazendo o que a gente acredita. Mas ao mesmo tempo não tenho medo, é o meu primeiro filme com recursos. Vão sair coisas daí.

Quando a gente está com raiva, quando a gente tem esse turbilhão interno que o setor cultural está, as produções saem muito potentes, é um jeito de questionarmos o que estamos vivendo.

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Gostei muito da forma que você costurou o tema das ocupações com as manifestações de 2013, políticas de encarceramento, luta contra a opressão de minorias, conhecimento de história e a militarização da polícia. Como foi para você fazer este documentário? Já tem ideias para trabalhos futuros? 

Eliza: Esse filme foi muito terapêutico para tentar entender a história recente. Comecei a fazer achando que ia ser um filme de esperança, que ia ter um final feliz por essa juventude que é uma geração que nasce numa democracia, que começa entender o Brasil discutindo políticas afirmativas – mesmo longe de resolver questões de violências abismais do racismo, classismo, violência urbana, machismo. Uma geração que começa a se entender como parte disso e como bons jovens têm uma urgência nisso tudo. Quando comecei o filme, achei que essas lutas iriam se aprofundar e que a gente estaria no caminho para uma sociedade mais igualitária. Aqueles sonhos que a gente tava sonhando há pouco tempo e hoje parecem tão distantes.

Esse filme acompanha exatamente o caos político que a gente viveu e desemboca nesse nosso momento de perversidade política. Era pra ter acabado em setembro do ano passado, mas era como se o filme não tivesse acabado, tinha alguma coisa que não dava muito certo. Rolou aquela manifestação do #EleNão, que eu fui gravar algumas imagens de cobertura extra, vivi aquela grandiosidade e entendi que o filme não tinha terminado. Esse arco narrativo que se iniciou em junho de 2013 não tinha se encerrado em 2017.

Infelizmente com a vitória do presidente Jair Bolsonaro e o depoimento que ele dá no dia, de que ele acabaria com todas as formas de ativismo no Brasil, eu descobri que o filme tinha sua inteligência própria e que estava aguardando esse fim. Foi um momento de aprendizado. Fazer arte é esse privilégio de entender o que a gente está vivendo.

O próximo filme é um projeto antigo já aprovado na Ancine, foi publicado, e eu espero que o governo honre o seu compromisso. Vai ser uma coisa mais existencial, meio como uma continuação do Tão Longe é Aqui, de entender onde está o amor nessa onda de tanto ódio. Ele ainda está se desenhando, não tenho a menor idéia do que vai sair, e sou feliz por isso. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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