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4 de junho de 2018

Problematizando o filme ‘Eu não sou um homem fácil’

Filme francês até rende algumas risadas, mas tem problemas e clichês suficientes para não jogarmos tanto confete quanto ele tem recebido

É a primeira vez nesta coluna que escrevo para problematizar algo. Respiro fundo, crio coragem e peço a paciência de vocês.

Desde que me disse publicamente feminista e passei a escrever sobre o tema tenho recebido muitos textos, recomendações de exposições, filmes, livros e vivenciado boas discussões (e adorando isso).

Por isso, assim que ouvi de amigas “você precisa ver Eu não sou um homem fácil [Je ne suis pas un homme facile]” me prontifiquei a assistir – e confesso que com certa expectativa. O filme rendeu algumas risadas, mas também uma grande inquietação sobre o quanto as pessoas, críticas e blogs o tem celebrado. Achei demais.

Comecemos pela proposta: inversão da dominação de gêneros para gerar empatia pela luta feminista e conscientizar o público sobre o quanto o machismo está presente em nosso cotidiano.

*Alerta de spoiler*

Produção francesa da Netflix, escrito e dirigido por Éléonore Pourriat, a trama trata de um personagem clássico machista que objetifica e subestima as mulheres no trabalho e nas relações que de repente bate a cabeça e acorda em uma nova realidade em que o sexo feminino é o dominante.

A partir daí obviamente ele vive um choque experimentando o que vivem as mulheres diariamente: pressões estéticas, assédios, subestimações, relacionamentos abusivos e até “sororidade invertida” por ver seu pai e amigos sofrerem as mesmas opressões.

Vamos partir do princípio de que o humor construído nos detalhes da trama propõe uma conscientização do público espectador, e que isso ajuda a abrir o debate feminista para mais pessoas – o que já não acredito muito, porque quem deveria assistir não se dará o trabalho em clicar e se prontificar a assistir.

Então pulo para o que achei problemático o suficiente para não jogarmos tanto confete.

Em primeiro lugar, mesmo trocando os gêneros nos lugares opressor(a)/oprimida(o) mantém-se os estereótipos do que é ser feminina e masculino com muitos clichês: as relações com corpo, comida, estética, sexo, emotividade, dinheiro, família, tudo sempre partindo de uma referência elitista, branca e estável financeiramente.

Além disso, apesar do filme mostrar exemplos práticos de assédio e imposições estéticas que vivemos diariamente, é muito importante entendermos que o machismo é bem mais violento do que é mostrado.

Estupro, feminicídio, violência doméstica e o não direito ao próprio corpo são questões urgentes que os movimentos feministas escancaram e lutam contra. Senti falta destas questões e achei que a discussão ficou na superfície.

Talvez porque a inversão dos papéis com manutenção dos corpos limite e fique difícil falar sobre aborto, direitos reprodutivos e estupro como uma prática de dominação histórica.

Faltou também falar sobre a interseccionalidade. O machismo não afeta as mulheres da mesma maneira – nem no Brasil, nem na França.

O recorte de raça, classe, etnia, sexualidade e identificação de gênero precisa entrar nas discussões ou não vamos conseguir grandes transformações.

Dito isto, reforço que meu texto não propõe boicotes tampouco sugere que o filme não seja visto. Apenas lanço questões que podem servir de reflexão enquanto se assiste.

Na minha crítica, a bonequinha está sentada, olhando pra tela, sem aplaudir.

Luisa Toller é musicista, educadora, colunista da Revista Azmina e mãe militante. Tem formação pela Unicamp e um mestrado sobre música e gênero concluído em 2018 na Eca-USP. É tricampeã do concurso de marchinhas Nois Trupica Mais Não Cai com composições feministas que viralizaram com webhits. Já desenvolveu atividades pedagógicas sobre desconstrução de estereótipos de gênero na Graded School, participou de mesas e palestras na Caixa Cultural, semana Delas na faculdade arquitetura da Mackenzie SP, comunicação da Puc-SP, jornalismo na UNB, Instituto Ruth Cardoso e na editora SM Educação. Além disso integra os grupos Meia Dúzia de 3 ou 4, Vozeiral e Bolerinho.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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