
Sou mãe de João Lucas, uma criança que nasceu em meio à epidemia de Zika (2015), no auge do medo e da incerteza, quando ninguém sabia ao certo o que esperar do amanhã. Meu filho não está mais aqui fisicamente, mas segue vivo naquilo que me atravessa todos os dias — e agora também nos objetos, fotos e lembranças que compõem a exposição [ainda]. Participar da curadoria foi mais do que um trabalho: foi um reencontro com a memória, com a saudade e com a certeza de que a história dele não terminou.
Entregar os objetos de João Lucas para a exposição foi um dos gestos mais difíceis e mais significativos da minha vida. Entre eles estão as botinhas ortopédicas e a manta que eu mesma bordei enquanto estava grávida. Essa mantinha acompanhou todos os caminhos do meu filho. Protegia do vento, do frio, das incertezas. Era quase uma extensão do meu abraço.
As botinhas, intactas, com o solado perfeito, dizem tanto sobre ele: João Lucas nunca pôde andar. E justamente por isso, aquele solado preservado carrega uma memória inteira. Quando escolhi doar esses objetos, chorei. Mas era uma dor que vinha junto com uma convicção: esses fragmentos contam a nossa história melhor do que qualquer palavra. E agora levam essa história para o mundo.
A fotografia que voltou dez anos depois



Entre tantas lembranças, existe uma foto que ganhou um significado inesperado. Em 2016 — um tempo que parece tão distante e tão perto — eu, meu marido e João Lucas tiramos uma foto na frente de um carro de boi estacionado quase em frente à nossa casa. Não havia motivo especial para escolher aquele cenário, mas escolhemos. Era um tempo em que tudo parecia um “quadro em branco”. A gente carregava uma criança nos braços sem saber o que nos aguardava.
Quase dez anos depois, durante os preparativos da exposição, a professora Debora Diniz — que nos acompanha desde que João Lucas tinha poucos meses — voltou à frente da nossa casa e encontrou ali o mesmo carro de boi. Quase como se o veículo esperasse por nós. Então decidimos refazer a imagem. Naquele instante, tudo se alinhou: a foto virou testemunho. Passado e presente se deram as mãos. Cada vez que eu vir um carro de boi, vou lembrar da nossa força, do improvável e do que permanece.
Espero que a exposição não apenas sensibilize os visitantes, mas também que as pessoas vejam a história de João Lucas como uma história de superação, não de derrota. Sim, foi difícil. Sim, doeu. Mas eu não considero que tenha sido uma perda. Meu filho me transformou. Deu a mim e ao meu esposo uma força que nós jamais imaginávamos ter.
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Existe força onde há dor
Foi por causa de João Lucas que aprendi a lutar pelos direitos dos meus filhos. Foi por causa dele que descobri um tipo de amor que não termina. Ele me fez ser quem eu sou. Meu desejo é que quem visitar a exposição perceba isso: que existe força mesmo onde houve dor. Que existe vida mesmo onde o tempo parece ter parado.
Nossa história também é feita de encontros. Debora entrou na nossa vida quando João Lucas ainda era um bebê. Chegou sem pedir licença, ficou, acompanhou nossa trajetória. Quinze dias antes da partida dele, ela esteve aqui, conversou, ouviu. Uma semana depois ele foi internado; outra semana se passou, e ele descansou nos braços do Pai. Nada disso foi coincidência. Existe propósito nos encontros que permanecem — e ela está na nossa história tanto quanto nós estamos na dela.
Histórias no plural
Saber que a história do meu filho estará acompanhada das histórias de tantas outras crianças é emocionante e, ao mesmo tempo, doloroso. Meu marido chegou a dizer: “Tamires, não sei se vamos aguentar.” Eu respondi: “Eu também não sei. Mas João Lucas está aqui.” E é verdade, ele está. Não apenas na lembrança, mas no gesto de dividir, de partilhar.
Porque quando compartilhamos nossa dor, nossa saudade e nosso amor, nós dividimos o peso e multiplicamos a memória. É isso que desejo: que quem entrar nessa exposição leve consigo um pouco do que vivemos nesses quase dez anos. Porque a história do meu filho não ficou no passado, ela permanece — [ainda].
Serviço
A exposição [ainda] integra o projeto internacional “After the End Research Project”, apoiado pela Wellcome Trust, e será aberta ao público no dia 3 de dezembro, às 18h, no Carambola Lab (Rua Sá e Albuquerque, 378, Jaraguá, Maceió – AL). A mostra reúne histórias, fotografias e objetos de memória de mulheres e famílias afetadas pela epidemia de Zika em Alagoas. A visitação segue nos dias 4 e 5 de dezembro, das 11h às 21h.
![Cartaz com fundo claro. No topo, título em preto: [ainda]. Abaixo, em negrito: Abertura oficial e, na linha seguinte, 3 de dezembro, 17 h. Na metade inferior, foto de um par de sandálias infantis ortopédicas azul-marinho, com velcros bege, apoiadas sobre uma superfície de madeira; foco nas sandálias e fundo desfocado. No rodapé, em branco: Carambola Lab. e o endereço R. Sá e Albuquerque, 378 – Jaraguá, Maceió – AL.](/wp-content/uploads/2025/12/Card-abertura-ainda-539x674.webp)
Tamires Costa Silva é professora e vive no Povoado Lagoa da Arara, zona rural de Monteirópolis, no sertão de Alagoas. É casada com Eduardo Galdino Filho e são pais de João Lucas (2016-2025), Maria Eduarda e Miguel.
Tamires faz parte do Comitê Mulheres e Memória, um coletivo formado por mulheres impactadas pela epidemia de Zika, que seleciona fotografias, objetos de memória e participa das decisões sobre como as histórias devem ser contadas.
