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17 de abril de 2019

Qual é a face do mal no ocidente?

Sempre na história da humanidade, uma identidade étnica tornou-se o símbolo da selvageria e do terror

Um homem entra armado em um lugar. Tudo é filmado para ser transmitido ao vivo na rede social. Após gritar palavras de sua crença, atira repetidamente e sem alvo fixo. Mata 49 pessoas, é preso.

Como você  imagina esse homem? Barbudo, rosto com traços do Oriente  Médio, com certeza gritando palavras do Alcorão. Suas vítimas, brancas, com certeza estadunidenses ou europeias.

Contudo, no dia 15 de março desse ano, Brenton Tarrant, cidadão australiano loiro de pele clara, entrou armado em mesquitas na Nova Zelândia e atirou sistematicamente, vindo a matar 49 pessoas que professavam sua fé naquele momento.

Nós crescemos com uma ideia de qual seria a face do inimigo e hoje em dia ela é islâmica. Contudo, já foi chinesa, russa, judia, romani… Sempre, em algum momento da humanidade, uma identidade étnica tornou-se o símbolo da selvageria, do terror, dos que vieram para matar e destruir.

Não estou aqui justificando ataques terroristas feitos pelo Isis, pelo Estado Islâmico e outros. Eu era adolescente no 11 de setembro. Lembro que minha mãe mandou-me para casa de meu pai, não por ter medo do terrorismo, e sim por temer o que aquilo podia significar para quem tinha traços mais étnicos.

A guerra ao terror do Ocidente e a Guerra contra o Satanismo Ocidental do Oriente têm ramificações em um dos piores filhos do patriarcado, a masculinidade tóxica. Se por um lado criamos pequenos James Bonds, homens sempre dispostos a lutar contra o estrangeiro e, de quebra ,com mulheres sensuais caindo em suas camas, do outro temos minis Salazars* dispostos a expulsar os Cruzados de sua Terra Santa.

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Não é a toa que ambos os lados sempre estão se acusando de violência sexual, pois nesta matemática conquistar o território e violar o corpo de mulheres é a grande vitória, a grande demarcação de poder. A limpeza étnica também está muito ligada ao fetichismo que as mulheres “do outro lado” causam.

Outro produto são os Incels, Mascus e Sanctus, grupos que apesar de marcarem sempre que são  diferentes entre si partem da mesma premissa: homens brancos, que moram com os pais, estão desempregados ou têm o que consideram sub empregos e pregam com absoluta convicção que todas as mulheres são vadias, pois vivem fazendo sexo com qualquer um, menos com eles, que são  “homens honrados”.

Esses grupos estão diretamente ligados ao ataque de Realengo e mais recentemente ao de Suzano. E também são conhecidos por terem ameaçado de morte a feminista Dolores Arovinch, do blog “Escreva Lola”, e fazerem campanhas para “premiar ” quem jogasse ácido no rosto das criadoras da pagina “Feminismo sem demagogia”.

A confirmação de sua xenofobia é facilmente vista em seus  fóruns,  como o Dogola Chan, onde se retratam como Cruzados, e a frase “Deus Vult”* é  usada a todo e qualquer momento. Além disso é comum pedofilia (pois acreditam que mantendo relações com crianças, elas se tornariam suas mulheres perfeitas), e o grande consumo de pornografia com mulheres trans (que eles chamam de neo mulheres, e que ainda não estariam “sujas ” com esperma de outros).

E eles não são doentes! Diferente do que a imprensa diz quando coloca os terroristas ocidentais como mentalmente perturbados, ou tenta explicar com histórias tristes familiares ou de sofrimento por bullying. Eles estão doutrinados e muitas vezes pela própria imprensa, que nos cospe diariamente no rosto que devemos temer.

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Pois para nós é muito fácil dizer que o membro do Estado Islâmico mata por Alá, pelo fato de acreditar nas virgens do Paraíso e que o Alcorão convoca uma Jihad*. Mas não estamos dispostos a aceitar que desde criança estamos massacrando nossos meninos com a frustração de um ideal de masculinidade viril e conquistador. E que isso os leva a pensar que se você não conseguiu um emprego bom é pelo fato de que o estrangeiro o roubou.

A face do mal no Ocidente hoje em dia tem barba, usa turbante e reza para a Meca. Mas, infelizmente, somente olhamos para o monstro debaixo da cama, pelo simples fato que se olharmos o monstro que mora dentro do armário da nossa sociedade podemos dar de cara com um espelho. E descobrir que o monstro tem traços parecidos com aqueles que amamos.

*Salazar ou Saladino é um conhecido herói islâmico que lutou e expulsou os Cruzados de Jerusalém.

*Jihad, conceito defendido por grupos extremistas islâmicos, sobre uma guerra contra os “infieis” , todos aqueles que não professam a mesma fé.

*Deus Vult , “Deus Quer” em latim, frase falada pelo Papa Urbano II, ao declarar a Primeira  Cruzada no ano de  1095.

Rebecca Souza é feminista descolonial e mulher de etnia cigana que vive no norte do Brasil. É ativista de direitos humanos e foi eleita “Jovem Mulher Líder” pelas Nações Unidas. Foi do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres, é sacerdotisa de bruxaria tradicional e nas horas vagas se apresenta como dançarina de dança do ventre.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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