
Após o lançamento da minissérie Dias perfeitos (2025) no Globoplay, inspirada na obra homônima do escritor carioca Raphael Montes, espectadores levantaram questões sobre a misoginia presente na literatura do autor. Com discussões infladas pelas redes sociais, a polêmica — infelizmente — não trazia nada de novo. Um dos pontos mais citados no debate destacava que a produção, assim como o livro, é marcada por um relacionamento em que a protagonista sofre com diversos episódios de abuso.
O incômodo, vocalizado em falas como as da pesquisadora Dayhara Martins, apontava que a violência, quando narrada por Raphael, recai quase sempre sobre corpos marginalizados, como os das mulheres, em uma narração em que machismo e recreação se misturam. Com ironia, o autor respondeu em suas redes sociais, afirmando que, dali em diante, só escreveria livros de autoajuda.
A repercussão desse caso expôs um fenômeno mais amplo, que ultrapassa a literatura e se estende à cultura de entretenimento contemporânea: o fascínio pela dor feminina. A chamada “cultura do true crime”, tão popular em podcasts e séries documentais, muitas vezes transforma o sofrimento em espetáculo, criando uma armadilha para as próprias mulheres, que integram o público majoritário dessas histórias.
Produções frequentemente vendidas como narrativas de investigação sustentam uma espécie de voyeurismo da violência: a atração de observar corpos femininos violados, mutilados e silenciados. Aqui, o crime é envolto em uma estética específica: o cabelo despenteado, o sangue emoldurado pela fotografia, o choro transformado em performance.
Falta espaço à subjetividade da vítima
Enquanto as histórias reais dessas mulheres são recortadas e recontadas sob o olhar masculino, raramente se dá espaço à subjetividade da vítima. Essa lógica, quando transportada à literatura, se repete: a mulher não fala, é falada. Por isso, o incômodo com as obras de Raphael pode não se resumir a uma produção ou livro em particular, mas a uma estrutura cultural que transforma a violência em entretenimento e o trauma em estética.
A partir daqui, tomo a liberdade de usar a primeira pessoa para pontuar que, enquanto acompanhava a discussão, cursava uma disciplina de Crítica Feminista. Nesses estudos, eu revisitava o ensaio clássico de Virginia Woolf, Um teto todo seu, publicado em — vejam só — 1929.
Nele, Virginia já chamava atenção para o fato de que personagens femininas criadas por homens quase sempre eram pensadas em função da vida amorosa. “Nada mais parece interessar os autores”, escreveu. A autora também defendia que as mulheres precisariam escrever sobre suas próprias vidas, sem tentar reproduzir os modelos literários masculinos, mas criando novas formas de narração.
É verdade que a variedade de representações femininas nas histórias escritas por homens se ampliou nestes quase 100 anos. Ainda assim, o caso Raphael revela que seguimos longe de personagens femininas construídas com complexidade, livres de estereótipos como a vítima, a louca ou a musa inalcançável.
Incorporando o Teste de Bechdel
No cinema e na TV, do cult ao mainstream, personagens imaginadas por homens permanecem no lugar da violência performática, da loucura ou se metamorfoseiam no “anjo do lar”, na definição de Virginia Woolf. Mais um exemplo está em Breaking Bad, onde não parece haver esforços do criador Vince Gilligan ou dos roteiristas para dar algum traço de carisma a Skyler, que é amplamente odiada pelo fandom da produção.
Para evitar esses “erros”, temos o que hoje é conhecido como Teste de Bechdel . Alison Bechdel é autora do ótimo Fun home (2006), novela gráfica que narra sua saga familiar e aborda temas como sexualidade e luto, e emprestou seu sobrenome a uma avaliação que verifica três pontos básicos. Eles estão na história em quadrinhos Dykes to Watch Out For, em uma tira de 1985 chamada A regra, onde uma personagem feminina diz que só assiste a filmes que preenchem os três requisitos:
- Ele deve ter pelo menos duas mulheres com nomes próprios;
- As personagens conversam uma com a outra;
- O diálogo se centra em algum tema que não é um homem.
Nessa seara, podemos citar filmes como os da francesa Julia Ducournau (Raw [2016], Titane [2021]) ou o recente Manas (2024), de Marianna Brennand Fortes. As obras demonstram que é possível criar personagens femininas que dialogam sobre medo, corpo, ambição e desejo, sem uma narrativa em que encarnem apenas a figura de vítima ou vivam em função da relação com um homem.
No formato séries, Killing Eve (2018), Unbelievable (2019) e I May Destroy You (2020) representam transformações interessantes ao formar um legado de produções em que mulheres multidimensionais assumem o centro da narrativa e encaram a violência sob suas próprias lentes.
As mulheres que escrevem as mulheres
Se, ao longo da História, os modelos masculinos de escrita foram legitimados como “universais”, não surpreende que muitas autoras tenham tentado imitá-los. Hoje já podemos olhar para trás e identificar uma linhagem de mulheres que escreveram e escreveram-se construindo personagens complexas e ampliando os horizontes da criação literária.
Entre jovens escritoras contemporâneas, há uma coragem renovada para abordar temas considerados tabus ou tratados de forma superficial pela “tradição”, como erotismo, aborto, parto, amamentação, menstruação ou TPM. A partir delas, vemos que questões relativas ao corpo, antes silenciadas, agora ganham espaço sem rodeios.
Um exemplo recente é Cadelas de aluguel (2025), da mexicana Dahlia de la Cerda, que cria narrativas curtas em que mulheres não são castas, mas vingativas, desejantes e humanas. O primeiro conto, centrado na tentativa de interrupção de uma gravidez, abre essa série em que a violência não é mobilizada como recreação, mas como parte de uma América Latina marcada por profundos abismos sociais.
Outras obras seguem a mesma trilha de insubmissão literária. A cachorra (2020), da colombiana Pilar Quintana, e O impulso (2021), da canadense Ashley Audrain, mergulham na maternidade a partir de perspectivas quase sombrias, desconstruindo o mito do instinto materno como algo natural e puro.
Na literatura brasileira contemporânea, os exemplos não são raros. De Conceição Evaristo com Insubmissas lágrimas de mulheres (2011), a Melhor não contar (2024), de Tatiana Salem Levy, as questões femininas, mesmo quando a violência está no centro, são abordadas com sensibilidade ao tratar das desigualdades entre os gêneros.
Poderíamos citar muitas outras, já que a lista é infinita quando pensamos na inventividade de autoras que dão corpo ao chamado de Hélène Cixous em O riso da Medusa (1975): “é preciso que a mulher se escreva”.
Reivindicando a representação
Por que, afinal, é tão importante se escrever? Em um mundo em que feminicídios, violências domésticas e sexuais continuam a crescer, a quem serve defender a neutralidade e isenção dos fazeres artísticos? Representar-se é reivindicar complexidade em um espaço da normatividade hétero e cissexual que historicamente reduziu as mulheres a papéis periféricos ou estereotipados.
É justamente por isso que ocorrências como a ausência de escritoras mulheres na categoria Romance do Prêmio Jabuti 2025 não são um mero detalhe. É um sintoma de como as instâncias de legitimação literária ainda refletem um cânone excludente, que perpetua a ideia de que narrativas masculinas têm valor universal.
O contraste é ainda mais gritante quando lembramos que as mulheres são, há anos, as principais leitoras no Brasil. Pesquisas recentes, como a conduzida pela Câmara Brasileira do Livro em 2024, apontam que elas representam mais de 60% do público leitor.
Enquanto isso, uma reportagem da Dazed foi amplamente repercutida no meio literário ao revelar que homens leem cada vez menos ficção, e quando o fazem, preferem autores homens. Essa divisão reforça um ciclo: homens escrevem para homens, são premiados por júris formados majoritariamente por homens e continuam sendo lidos, estudados e legitimados.
As mulheres, por sua vez, sustentam o mercado editorial (inclusive nas fases de elaboração dos livros), mas ainda lutam para ver suas experiências e inventividades narrativas reconhecidas como literatura. Quando elas escrevem e leem umas às outras, estão não só produzindo arte, mas também desestabilizando uma hierarquia simbólica que insiste em tratá-las como público e vozes secundárias.
Frente a esse cenário, escrever-se não é apenas um gesto literário, mas também uma maneira de imaginar realidades em que as discrepâncias sexistas e as violências de gênero não sejam tratadas como recreação, mas como os temas sensíveis que realmente são.
LIVROS DE MULHERES SOBRE MULHERES
Um teto todo seu (1929), de Virginia Woolf (trad. Vanessa Barbara): Ensaio clássico que reflete sobre as condições materiais e simbólicas que impedem as mulheres de escrever, defendendo que elas precisam de um espaço próprio para criar.
O riso da medusa (1975), de Hèlene Cixous (trad. Natália Guerellus e Raísa França Bastos): Um manifesto da escrita feminina que convoca as mulheres a escreverem a partir de seus corpos e experiências.
Insubmissas lágrimas de mulheres (2016), de Conceição Evaristo: Coletânea de contos protagonizados por mulheres negras cujas vivências revelam o entrelaçamento de gênero, raça e classe.
A cachorra (2020), de Pilar Quintana (trad. Livia Deorsola): Romance colombiano sobre os desejos e frustrações de uma mulher, rompendo com os ideais da maternidade.
O impulso (2021), de Ashley Audrain (trad. Lígia Azevedo): Thriller psicológico que explora a maternidade e a culpa, em que a protagonista encara o peso das expectativas sociais.
Melhor não contar (2024), de Tatiana Salem Levy: Uma narrativa íntima em que a autora revisita memórias, corpo e trauma, afirmando a escrita como espaço de liberdade das mulheres.
Cadelas de aluguel (2025), de Dahlia de la Cerda (trad. Marina Waquil): Livro de contos em que mulheres recusam o papel de vítimas e reivindicam o direito à raiva, ao desejo e à vingança.
*Ana Clara Pecis é historiadora formada pela UFRJ e mestranda em Estudos Literários na UFJF. Sua pesquisa se concentra na literatura contemporânea produzida por mulheres na Argentina e suas relações com o realismo mágico. Cercada de livros desde a infância, enxerga a literatura como um espaço de livre criação, onde imaginação e memória se entrelaçam. Em 2020, fundou o História Guardada.
