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Quantos estereótipos você já reforçou hoje?

por Rebecca Souza
5 de setembro de 2018
Imagine mulheres ciganas, islâmicas, negras, indígenas e orientais: com certeza todas as imagens reforçam estereótipos que colonizadores construíram
Crédito: Pixabay

Feche os olhos e imagine mulheres ciganas, negras, indígenas, islâmicas, indianas, do leste europeu e orientais. Poderia apostar que mesmo sendo uma pessoa que tenta ao máximo desconstruir opressões, com certeza todas as mulheres que foram imaginadas reforçam estereótipos que séculos de processos colonizadores construíram.

Com certeza a cigana foi imaginada com uma saia rodada, cabelos longos e talvez baralhos na mão. A negra como uma mulher sensual que sabe sambar ou como a preta velha que cozinha bem. A indígena como uma mescla de uma indígena brasileira com uma norte-americana. A islâmica como uma mulher submissa com um véu. A indiana com acessórios no nariz e com um bindi na testa.

Talvez a do leste europeu tenha sido difícil: uma mulher loira de pele rosada, ou uma senhora severa com cabelos trançados. Por último, a oriental como uma gueixa, ou, se for uma leitora ou leitor mais jovem, uma mistura de cosplay com ídolo K-pop.

A colonização criou estereótipos para colonizados ou minorias justamente para desumanizar, os transformar “nos outros”. Nessa coluna vou expor cinco passos desse processo.

1 – A ideia de um povo homogêneo

Sempre conto em minhas colunas, por ser uma mulher romani sou constantemente abordada com perguntas se leio mãos, se moro em um acampamento ou por qual motivo não uso “roupas de cigano”.

É como se a identidade “cigana” fosse única, sem sujeitos que têm  peculiaridades.

Quem nunca teve um amigo oriental chamado de japa? Ou se encantou com um índio sem saber que temos mais de 150 troncos étnicos no Brasil, cada um com sua própria cultura? Quem consegue imaginar uma mulher que professe o islamismo sem estar coberta dos pés à cabeça?

Isso é a identidade homogênea, e ela é o primeiro pilar do sujeito estereótipo.

2 – Nós civilizados, eles selvagens

Uma grande amiga que é indígena xavante me diz ter nojo da “mulher selvagem” tão falada em grupos de sagrado feminino, sempre representada como uma indígena (e quase sempre cherokee ou de uma das etnias norte-americanas).

Como delimitamos o “selvagem” do “civilizado”?

Se hoje temos uma imagem do islamismo como uma religião do atraso, esquecemos que foi também uma das religiões construtoras de muitos avanços na área da ciência e artes em geral. E a Índia? Conhecemos ela mesmo? Ou nos limitamos ao combo yoga + deuses + namastê?
E o leste europeu? Com a Copa na Rússia, sempre víamos todos os costumes deles colocados como “exóticos”. Mas não serão também exóticos aos olhos deles alguns costumes nossos?

Quantas vezes nós mesmos, defensores de direitos humanos, bradamos contra o sistema do Estado Islâmico, sem lembrar que temos uma bancada conservadora que avança no Congresso. Quantas feministas batem na submissão da mulher islâmica, sem lembrar que somos um país que mata mulheres com requintes de crueldade e que ocupa o quarto lugar entre os países com o maior índice de casamento infantil?

Insisto: qual o delimitador de civilidade?

3 – Propaganda

Com a ocupação da Argélia pela França no começo do século passado eram comuns cartazes que diziam para mulheres islâmicas “tirarem o véu e revelarem sua beleza”. Em filmes como Rambo, James Bond e outros do tipo, os vilões são sempre russos, vietnamitas e, mais recentemente, árabes. Olha a massa homogênea aqui de novo.

A “Helga”, como é nomeado o estereótipo da mulher alemã/russa/europeia do leste, é um caso bem peculiar, que começou com as propagandas nazistas da Segunda Guerra sobre a mulher ariana perfeita. Com a demonização de tudo ligado a esses povos, ela virou uma mulher sem nenhum traço de feminilidade, quase sempre com músculos e de uma sexualidade dúbia, com leves traços lésbicos masculinizados.

Aqui temos o link com a lesbofobia: as mulheres de locais “normais” são heterossexuais, monogâmicas e sexualmente controladas. Um exemplo bem recente de “Helga” seria a vilã Mother Russia do segundo filme da franquia Kick-Ass.

E essa propaganda independe do tempo. Observe como as óperas retratavam Carmen, Madame Buttlefly e as Valkirias. Ou como as princesas da Disney de identidade étnica sempre parecem de certa forma longe do “ideal” que vemos nas princesas brancas.

4 – Objetificação sexual 

Nas minhas colunas sempre bato na objetificação da mulher cigana.

Atualmente, um grande exemplo dessa objetificação étnica seriam os mangás, animes e a cultura K-pop. Eles também trazem uma face mais perversa: um culto à juventude que lembra pedofilia, inclusive com relatos de tratamentos abusivos a ídolos K-pop, que aumentam cada vez mais.

É sempre cobrado que elas pareçam pequenas e delicadas bonecas, o que remete muito ao culto das gueixas no Japão. Em situações extremas surgem acusações de que elas são obrigadas a tomar remédio para não menstruar e são pesadas todos os dias.

No Brasil, eu poderia citar as novelas de Gloria Perez. Jade, Dara, Maya e muitas outras têm algo em comum: são mulheres de identidade étnica que passam a ter um final feliz quando se submeteram à cultura e a um amor que não é por um homem do seu povo.

Esse pode ser um gancho para um dos piores crimes da humanidade: o estupro como limpeza étnica, aonde mulheres de várias etnias são submetidas à violência sexual para que nasçam crianças “normais”.

5 – A salvação é branca

Já citei esse exemplo e volto a ele. Quantas vezes despejamos poder “salvar” mulheres islâmicas, sem primeiro tentar resolver nossas pendências de gênero?

A figura do branco salvador é antiga. Uma vez li uma crítica muito boa de uma feminista negra espanhola a respeito do filme Histórias Cruzadas (The Help). Apesar de ser vendido como um filme “feminista e de sororidade”, nunca paramos pra pensar que para a personagem branca é dada a viagem a Nova York e o sucesso como escritora. Já para as negras, um emprego que continua sendo um subemprego. Além do perigo constante de continuarem na cidade racista que um dia poderia descobrir o envolvimento delas com o livro.

Outro exemplo está em Pocahontas. John Smith conseguiu ser vendido como um “príncipe Disney”. O corajoso rapaz que luta pela aldeia de sua amada, como se os indígenas não tivessem poder para tal. Contudo, o verdadeiro John era mais um colonizador que não teve compaixão dos nativos do lugar.

Por fim, o que quero dizer com essa coluna é: nos escute! Temos uma produção muito maior do que o colonialismo acredita.

Nó falamos por nós mesmos, basta você se permitir escutar nossa voz. Deixo aqui alguns exemplos:

Mezquita de Mujeres
Site escrito por Vanessa Rivera, feminista islâmica e doutora em gênero.

Perigo Amarelo
Pagina mantida por jovens descendentes de diferente nacionalidades, que fala sobre o estereótipo oriental no Brasil

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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