
Quando o Brasil instituiu um marco nacional de luto e memória às vítimas de feminicídio – em janeiro deste ano com a aprovação da Lei 15.334/2026 -, ele não estava apenas adicionando uma data ao calendário. Ele está reconhecendo, oficialmente, que essas mortes não são “tragédias domésticas”, nem “fatalidades”. Feminicídio é um crime que atinge a democracia, porque expõe o quanto a vida das mulheres é tratada como descartável.
Eu falo disso como pesquisadora, mas também como irmã. Minha irmã caçula, Néia, foi vítima de feminicídio. Depois dessa perda, eu aprendi uma coisa que carrego todos os dias: o feminicídio pode matar diversas vezes. Mata quando interrompe a vida e volta a matar quando revitimiza a mulher pela culpabilização, pela exposição e pela inversão de papéis.
Não faltam casos nos quais o agressor é tratado como alguém “levado ao limite” e a vítima como responsável. Recentemente vimos isso em um episódio cruel de violência contra a mulher — que vai muito além do feminicídio: inconformado com a separação, um homem matou os próprios filhos para atingir a ex.
Exercer o direito à memória é recusar essas narrativas. É afirmar quem foram essas mulheres e impedir que suas histórias sejam sequestradas por justificativas para a violência.
Que a ausência não se transforme em rotina
Foi por isso que, em homenagem a Néia, criamos o Néias – Observatório de Feminicídios de Londrina, um espaço de advocacy feminista. O intuito não é transformar a dor em espetáculo, mas impedir que a sociedade trate a ausência como rotina.
Memória, no enfrentamento ao feminicídio, não é saudade, mas justiça. É a recusa de reduzir uma mulher ao modo como ela morreu. É insistir que houve vida, vínculo, trabalho, desejos, história. É evidenciar que cada caso carrega uma pergunta que deveria ecoar em toda a sociedade e, especialmente, entre os gestores públicos: Onde falhamos em proteger? Que sinais foram ignorados? Quais portas estavam fechadas?
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É por isso que uma política de memória não se esgota em cerimônia. Ela precisa tocar no que quase nunca é enfrentado: o modo como a sociedade escolhe lembrar. Nós dizemos que lamentamos as vítimas, mas o espaço público continua premiando, com nomes e homenagens, alguns perpetradores. E isso é eticamente inadmissível.
O Brasil não pode ter nome de feminicidas em ruas e edifícios
Ruas, praças, escolas, edifícios e placas são uma forma de pedagogia coletiva. Elas ensinam quem merece honra. Um país que institui luto às vítimas não pode manter nas suas cidades a celebração de feminicidas. Essa é uma contradição moral que precisa ser corrigida. Não se trata de apagar a história, mas de não consagrar a violência como legado.
O ponto é simples: honrar essas mulheres é recordar suas histórias e, ao mesmo tempo, revisar a memória pública de seus algozes. Quando um feminicida ganha um logradouro, a vítima perde de novo. E nós, como sociedade, assinamos uma autorização simbólica: a de que a violência masculina pode ser, no fim, absorvida e até homenageada.
A lei que cria o Dia Nacional de Luto e de Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio (17 de outubro) só será coerente com sua própria intenção se estimular ações concretas de política de memória. Há caminhos óbvios e viáveis, que não dependem de grandes reformas institucionais para começar.
Uma das estratégias é criar rotinas públicas de revisão de homenagens oficiais: mapear logradouros com nomes de feminicidas, abrir processos administrativos, substituir denominações, registrar publicamente as razões.
Outro caminho é financiar iniciativas permanentes de memória das vítimas, conduzidas pela sociedade civil, universidades e serviços públicos. Memória também exige trabalho: pesquisa, documentação, cuidado com famílias, preservação ética de histórias, produção de informação para a prevenção.
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Memorial registra e preserva história das vítimas
É nesse contexto que se insere o Memorial A falta que faz, mantido pelo Laboratório de Estudos sobre Feminicídios (Lesfem), da Universidade Estadual de Londrina. Ele existe para registrar e preservar a memória de mulheres vítimas de feminicídio consumado no Paraná, onde 122 casos foram registrados em 2025 (Lesfem/MFB).
O memorial é uma forma de justiça de memória, porque devolve nome, história e dignidade a vidas que a violência tentou reduzir ao silêncio.
E os dados mostram por que isso é urgente. O relatório anual do Lesfem aponta que, em 2025, os feminicídios consumados e tentados aumentaram 34% no Brasil em relação a 2024. Esse crescimento expressa aumento real das ocorrências e, também, redução da subnotificação. Ou seja: vemos mais porque acontece mais, e vemos melhor porque estamos registrando melhor.
Não há espaço para acomodação. Se a memória tem um papel, é este: transformar o inaceitável em inegociável. E isso exige que o marco nacional seja entendido como dever público permanente. Não para reduzir o luto a uma data, mas para sustentar, ano após ano, a exigência de proteção efetiva, rede preparada, responsabilização institucional e compromisso político com a vida das mulheres.
O Brasil tem, agora, um marco. A pergunta que fica é a que decide o futuro: Que país nós queremos ser quando lembramos? Um país que apenas lamenta ou um país que está mudando o que honra, o que tolera e o que faz diante do feminicídio?
*Publicação em parceria com o Néias – Observatório de Feminicídios de Londrina
**Texto revisado com uso de IA
