
Quando conheci o Baque Mulher da minha região (SP) por meio do Instagram, não sabia bem do que se tratava, nem que era parte de um movimento muito maior, nascido em Pernambuco e presente em várias partes do país e do mundo. Lembro que me chamou a atenção o fato de ser formado por mulheres, em sua maioria negras, que realizavam encontros relacionados a alguma manifestação cultural negra na cidade onde cresci, Valinhos, e a vizinha Vinhedo, no interior de São Paulo.
A experiência de crescer nessa região me marcou muito enquanto menina e mulher negra. Nessas cidades e em muitas outras no estado de São Paulo, existe uma narrativa muito forte em relação ao passado da imigração italiana sustentada pela lógica da branquitude. Essa é uma memória muito valorizada e acaba por apagar outras vivências igualmente importantes que resistem nesse território.
Essa hierarquia de legados tem várias maneiras de se perpetuar em todo o Brasil e atinge de inúmeras formas as vivências das pessoas racializadas. Ela perpassa não somente a forma como a história é contada, mas as relações, o ambiente, o contexto político e econômico, os acessos, a estética e os afetos, a cultura e as religiosidades.
Por isso, ver uma manifestação composta e liderada por mulheres negras nesse território para mim era algo improvável. Ao me deparar com esse grupo, antes de tudo, senti que eu gostaria de tê-lo conhecido desde criança. Nessa época, eu vivia na capital paulista, mas em 2024 voltei para Valinhos e passei a participar dos encontros do Baque Mulher.
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Um lugar para trocar experiências e aprendizados coletivos
Minha intenção a princípio foi a de somar a um movimento que para mim era importante e a de conhecer pessoas que também pudessem compartilhar essa visão, trazendo experiências e aprendizados coletivos. Aprender a tocar um instrumento foi algo secundário, apesar de, aos poucos, eu começar a gostar bastante.
Ouvindo as experiências das mais velhas, fui entendendo um pouco mais sobre essa cultura e sobre a importância desse movimento, para além do que eu já reconhecia até então. Algumas delas já tinham vivenciado o Carnaval e o Maracatu em Recife, e aprendido com as nossas referências em outros momentos. Elas transmitiam esse conhecimento para nós: crianças, adolescentes, adultas, mães, mulheres LBTQIAPN+, de periferia, de terreiros, que por motivos diversos decidiram fazer parte dos encontros do grupo.
O Maracatu de Baque Virado, manifestação cultural afro-brasileira de resistência, que remete às antigas coroações dos reis e rainhas do Congo, possui uma tradição de mais de 300 anos na região de Pernambuco. Mas apenas em 2008, uma mulher assumiu o posto principal de liderança: Mestra Joana Cavalcante foi a primeira mulher a ser nomeada Mestra de uma Nação de Maracatu. Ela continua sendo a única a ocupar esse posto até os dias de hoje.
Tive a oportunidade de ouvi-la contar que quando chegou à frente da Nação Encanto do Pina (da comunidade do Bode, em Recife), não entendia bem o que era o racismo, o machismo e outras formas de opressão que sua comunidade vivenciava, em especial, as mulheres. Quando a Mestra Joana chegou a esse posto, muitas pessoas deixaram a Nação e não a respeitavam. Nesse processo, ela foi entendendo que esses problemas tinham nomes e que estavam muito presentes em seu cotidiano e na estrutura da sociedade em que vivemos.
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As mulheres garantiram a resistência, mas eram vistas como coadjuvantes
As mulheres do Maracatu, apesar de fundamentais para essa manifestação resistir até os dias de hoje, eram tratadas como coadjuvantes. A elas cabiam as tarefas de cuidado, das alas de dança, da confecção de roupas – sem autorização para tocar os instrumentos protagonistas como a alfaia, caixa e gonguê. Se quisessem fazer isso, teriam que esconder seus cabelos, não poderiam usar saias e deveriam conquistar esse lugar a muito custo.
Essa construção histórica de restrição das mulheres teve um marco decisivo de mudança quando Mestra Joana criou o Movimento de Empoderamento Feminino Baque Mulher, em 2008. A proposta era ter um espaço livre e seguro para mulheres exercerem a função que desejassem, incluindo a capacitação das meninas e mulheres para tocar qualquer um dos instrumentos.
O Movimento também busca promover trocas, com rodas de conversa sobre temas como o machismo, a violência doméstica, o racismo, e outros que estão muito presentes nas letras das loas (músicas) do Baque Mulher. Tudo anda em conjunto com o empoderamento proposto pela Mestra, baseado em fundamentos que também promovem o reencontro com a ancestralidade por meio da batida dos tambores e das histórias de quem faz o Baque resistir.
O Maracatu se configura como o próprio Candomblé na rua, e o Baque Mulher é regido por Oyá e Obá, orixás que nos ensinam sobre força, independência e luta por direitos.
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Baque Mulher e PenhaS se cruzam e se fortalecem
No mesmo ano em que comecei a participar dos encontros, entrei no Instituto AzMina para compor a equipe do PenhaS – programa de enfrentamento à violência de gênero. Minha trajetória profissional, já voltada aos direitos das mulheres, encontrou nesse trabalho e no Baque Mulher caminhos que se cruzam e se fortalecem.
Em 2025, tive a oportunidade de vivenciar o carnaval do Recife como integrante do desfile oficial do Baque Mulher e também como participante do cortejo da Nação Encanto do Pina. A filial de Vinhedo/Valinhos se organizou e mobilizou recursos para levar mais batuqueiras para Recife, para que vivêssemos o Maracatu em seu local de origem e trouxéssemos conhecimentos para compartilhar em nosso território.
Hoje, vejo que o Baque Mulher, e sua luta pelos direitos das mulheres, se desenvolve também como espaço de aquilombamento. Um lugar que reafirma nosso direito de existir, ocupar e criar, fazendo dos tambores ferramentas de resistência e de referência, formação política e construção de futuros possíveis.
*Artes: Giulia Santos
**Texto revisado com uso de IA
