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Caneta desromantizadora de mensagens de Dia das Mães

O que eram para ser homenagens acabam por romantizar a sobrecarga das mães na criação dos filhos e desconsideram as diversas formas possíveis de maternar
por Equipe AzMina
8 de maio de 2020

“Tempo de mãe é diferente, se multiplica. Mesmo sem tempo para nada, elas fazem tudo”. Esse texto é da campanha de Dia das Mães para a TV de uma grande empresa. Mas o que deveria ser uma homenagem reforça uma realidade bastante opressora: se elas não têm tempo para nada é porque a criação dos filhos e as tarefas da casa estão todas nas suas costas. Mas mesmo assim ela dá conta! Olha que bom pro patriarcado.  

Fizemos um experimento e demos um Google em “frases para o Dia das Mães”. E o resultado é um festival de frases que romantizam a jornada dupla ou tripla de trabalho, que tratam a maternidade como algo santificado, heroico, instintivo, que desconsidera as experiências de cada mulher e as diversas formas possíveis de maternar.

Bom, então ativamos nossa caneta desromantizadora para “corrigir” essas frases e os sensos comuns que estamos tão acostumadas a ouvir – e muitas vezes reproduzir – sobre maternidade.

O que chamamos de amor materno é apenas um sentimento humano como outro qualquer e, como tal, incerto, frágil e imperfeito, lembra Tayná Leite, colunista d’AzMina e autora do livro Gestar, parir e amar: não é só começar. “Sempre que naturalizamos algo como instintivo ou normativo estamos excluindo, rejeitando e negando a existência de outras possibilidades de ser e sentir”, diz.

Tachar o amor de mãe como perfeito é a versão materna do “fada sensata sem defeitos”. É como se, ao ser tornar mãe, a mulher magicamente se transformasse em um ser que nunca erra. Então precisamos contar pras pessoas: mãe é um ser humano e, como todo ser humano, erra. Pensa no peso que se coloca nos ombros das mães ao se esperar que elas nunca tomem uma decisão errada ou equivocada. Uma visão bastante desumanizadora das mães. 

Leia mais: Dia das Mães feminista: o que ler e quem seguir para refletir sobre maternidade

Quantos homens você já ouviu falar “eu nasci para ser pai”? Se a sua conta for um total de zero, bateu com o nosso resultado aqui. Essa frase traz a ideia da maternidade como algo compulsório, ou seja, que uma mulher é incompleta se ela não for mãe.

“À mulher é dado o papel de reprodutora, então ela é um meio, não um fim em si mesma. Um exemplo disso é como à gestante é dada toda a atenção e cuidado, mas basta ela parir para que ninguém olhe para ela ao visitar o bebê”, diz Tayná. 

Você já deve ter visto o vídeo “O Trabalho Mais Difícil do Mundo”, desenvolvido por uma agência que sempre circula no Dia das Mães e arranca umas lágrimas. A campanha mostra candidatos a uma vaga de emprego reagindo à descrição de uma vaga com requisitos desumanos. A intenção pode ser valorizar essa função do cuidado hoje delegada às mulheres, mas acaba por romantizá-la.  

Primeiro, porque ser mãe não é um trabalho. Trabalho são todas as atividades atreladas aos cuidados dos filhos, que não são de responsabilidade apenas da mãe. Segundo, porque o custo de produzir e criar pessoas deveria ser dividido pela família, Estado e mercado de trabalho – este último exclui as mães ao demiti-las no retorno da licença maternidade e as empurra para o mercado informal (em que mulheres são a maioria), sem direito à licença. 

Leia mais: Vamos parar de falar do “trabalho mais difícil do mundo”?

De novo, uma visão desumanizadora de mulheres que poder ser muito diferentes entre si e que, portanto, vão maternar de formas diferentes. A psicóloga Camila Ramos explica que essa ideia pronta de maternidade não leva em conta questões culturais, raciais, de sexualidade e singularidades, além de classe social e econômica.

“Como se a mãe que vive numa comunidade e precisa voltar a trabalhar o quanto antes, para ter o que comer, tivesse as mesmas oportunidades de uma mãe que tem licença maternidade. Como se o maternar da mulher negra não fosse marcado pela racialização. Como se o maternar de uma mãe solo ou de duas mães numa família homoafetiva não fossem atravessados por questões e desafios muito próprios”, exemplifica a psicóloga no perfil do Instagram Um colo para mãe.

Da mesma série que considera a maternidade como um instinto, essa frase carrega a ideia de que ser mãe é um dever religioso da mulher. Um sacrifício ao qual ela deve se submeter para alcançar o paraíso. Bom, como não sabemos o que acontece após a morte, temos certeza que as mães ficariam felizes de dividir as tarefas e poder curtir o paraíso aqui mesmo – que muitas vezes é apenas curtir um banho longo. 

Pode rir da rima (porque a gente riu). Passamos uma vida sendo bombardedas pela ideia de que ser mãe é algo natural. Às meninas dão bonecas e aos meninos foguetes, o que mostra às crianças desde cedo que determinados lugares e funções são destinadas a determinados gêneros. Mas são, na verdade, construções sociais, históricas e culturais, frutos dos interesses de cada época. 

Quer um exemplo? Na Idade Média, a família europeia não tinha qualquer tipo de relação afetiva entre o casal e entre este e seus filhos. Os casamentos eram arranjados (tinham o objetivo de manutenção dos bens familiares) e a maternidade não tinha valor (os bebês eram alimentados por amas-de-leite e permaneciam sob os cuidados de terceiros até os oito anos,  partir de quando já eram considerados adultos). 

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