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Flaviana Alves
5 de maio de 2021

Maternidade é uma escolha e não a finalidade maior da nossa existência

Sobre a romantização da maternidade e o modo como o racismo atravessa a vida de mulheres negras que são mães

No próximo dia 9 celebramos o Dia das Mães. Essa figura tão romantizada e, ao mesmo tempo, rechaçada pela sociedade. A maternidade, na maioria das vezes, nos é apresentada como uma extensão do nosso corpo e a finalidade maior da nossa existência. Beirando aos 30, me reconheço nesse lugar de pessoa que precisa começar a cogitar a respeito do assunto. Inconscientemente, tenho me feito a seguinte pergunta: serei ou não serei mãe?

Confesso ainda não me imaginar numa rotina de maternidade, mas converso com inúmeras outras mulheres que são escritoras, empreendedoras e criadoras de conteúdo – lugares pelos quais transito – e passaram ou vão passar por essa experiência.

Quase sempre elas relatam o peso de ter que dar conta de tudo. De ter que conduzir reuniões de negócios enquanto os filhos pedem por cuidados. De ter que produzir conteúdo enquanto embalam as crias no colo. Ou de ter que escrever um texto enquanto os pequenos correm pela casa.

As relações de trabalho foram desenhadas por uma sociedade patriarcal. Homens engravatados indo para o trabalho enquanto suas esposas preparavam o café da manhã e cuidavam dos afazeres domésticos. Ao final do dia, chegavam em casa com roupa lavada, comida pronta e faxina feita. Somado a isso, quando os filhos nasciam, os cuidados ficavam ao encargo da mãe.

Mesmo hoje, que mulheres ocupam 49,9% do mercado de trabalho, de acordo com dados do IBGE, e que estamos frente a uma pandemia que precarizou as relações trabalhistas com jornadas sem fim de home office, no imaginário social o que se espera de uma mãe é assumir a postura de cuidadora da família. Dos filhos, do marido, da casa.

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Escrever este texto me fez lembrar de um pedido mais do que especial feito por minha mãe. Quando lhe perguntei o que ela desejava ganhar como presente, sua resposta foi instântanea: no Dia das Mães pode me dar tudo, menos panelas, rs.

Fica a dica, rs. Na hora de escolher o presente, consulte a opinião dela primeiro.

Busque respeitar a existência dela enquanto sujeito, enquanto mulher que tem várias facetas. Se você é mãe e está lendo este texto, sinta-se convidada a falar da sua experiência real. Se você não é mãe, fica aqui o convite para que sejamos rede de apoio e cuidado em torno delas.

Mães negras: luto, vulnerabilidade, abandono e reconstrução de afetos

Mesmo ainda não tendo decidido se serei ou não mãe, de uma coisa tenho certeza: caso tenha filhos, nossa relação será atravessada pelo racismo. Terei que lhes explicar como é viver numa sociedade cuja estrutura segrega, violenta e mata todos os dias pessoas negras.

Para mães negras, a maior apreensão é não saber se poderão ver seus filhos crescer. Por quê? A violência do racismo coloca filhos e filhas pretos nas estatísticas de morte. De acordo com dados do Atlas da Violência 2020, jovens negros têm 2,7 mais chances de serem assassinados que os brancos.

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Mulheres negras são também a maioria nas estatísticas da maternidade solo e também as que mais estão em vulnerabilidade social e econômica. Somado a isso, um estudo recente mostra que no nosso país mulheres negras grávidas e puérperas têm um risco de morte por covid-19 quase duas vezes maior quando comparadas às mulheres brancas.

Esses dados alarmantes da violência, da pobreza e do abandono acabam por tornar a experiência de ser mãe ainda mais dolorosa e, muitas vezes, solitária.

Mas, vale comentar que, tendo em vista a diáspora que atravessou famílias negras e o modo cruel como fomos apartados dos nossos ancestrais e transformados em corpos sem identidade e sem árvore geneálogica, a maternidade, de certa forma, também é para inúmeras mulheres negras um lugar de reconstrução de afetos. Uma escolha por meio da qual buscam assegurar um futuro com famílias pretas que não estejam despedaçadas.

Fique Comigo, livro sobre relacionamentos e maternidade

maternidade escolha
Foto: Flay Alves

Aqui vai uma indicação de livro para ampliar o debate e reflexão a respeito do tema. Fique Comigo, obra da escritora nigeriana Ayobami Adebayo, conta a história de Yejidi, uma mulher que vê seu casamento ameaçado pelo fato de não poder dar filhos para o seu marido Akin. Na busca por salvar seu relacionamento, chega ao limite de si e nessa jornada nos mostra o quanto, muitas vezes, a sociedade incute em nós a crença de que nossa existência é validada e ganha sentido somente a partir da maternidade.

Além de trazer o panorama da situação política na Nigéria dos anos 1980, Fique Comigo traz à tona a fragilidade dos relacionamentos, a supervalorização da maternidade e a forma brutal como muitas vezes essa experiência é colocada no centro da nossa vida, nos tragando por completo. 

Vale a pena a leitura!

Jornalista maranhense e escritora antirracista, feminista e itinerante, Flay Alves acredita no impacto transformador da literatura produzida por mulheres pretas, nordestinas e periféricas e por isso hoje realiza oficinas e mentorias de escrita criativa e carreira literária, tendo em vista romper com a homogeneidade do mercado editorial brasileiro. É também autora do livro-reportagem Donas de Si, que conta a história de cinco mulheres migrantes que tiveram suas trajetórias marcadas pela violência de gênero.
* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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