logo AzMina
Flaviana Alves
6 de fevereiro de 2020

“Onde encontro uma garota para sexo?”: o assédio sexual nas nossas histórias de viagens

Sempre que estou dormindo num quarto misto dou uma boa observada no comportamento dos hóspedes do sexo masculino. E isso é um absurdo em pleno 2020
 (Crédito: Dariane Luz/Banco de imagens Preta)

Sentada na mesa da cozinha, enquanto assistia a série As Telefonistas, essa com certeza era a última pergunta que eu esperava de alguém. Levantei os olhos, e pedi que o homem à minha frente repetisse sua indagação.

Sem rodeios, ele disse em alto e bom som, no seu inglês carregado de um sotaque russo:

Do you know where I can find a girl for sex? (Você sabe onde encontro uma garota para sexo?) – claramente estava um pouco bêbado, mas, ainda assim, sabia muito bem o que estava falando.

Confesso: fiquei sem reação. Por alguns segundos, meu impulso foi fazer um escândalo. Respirei fundo e decidi ver até onde aquele papo machista iria chegar.

Não, não sei onde você poderia encontrar uma garota para sexo. Mas por que eu deveria saber? – questionei.

Meneou a cabeça, mas não titubeou, e disse com convicção:

Não, não me entenda mal. Não é que eu esteja dizendo que você faz isso. Mas é que… Eu já liguei para várias garotas. Já liguei para brasileiras, já liguei para ucranianas, e pensei que talvez você pudesse me ajudar com isto.

Quando eu ouvi a palavra “brasileira”, o pouco fio de paciência que me restava se foi. Encerrei a conversa falando que aquele não era o tipo de pergunta que se fazia a alguém. Recolhi minhas coisas, notebook, caderno e estojo, e fui para o quarto.

Leia mais: “I love Brazilian girls”: o estereótipo da brasileira mundo afora

Pasmem. Ele ainda me chamou de mal educada por eu encerrar a conversa. No dia seguinte relatei o caso à gerente do hostel, que era minha chefe, já que ali eu estava enquanto voluntária.

Veronika explicou então que esse rapaz era do mesmo país que o dela, a Ucrânia, e que frequentemente passava por esse tipo de situação. Giorgia, uma hóspede italiana que estava ali perto, juntou-se à nós comentando que ele também já havia a assediado e demos início, às três, ao muro de lamentações que é ser uma mulher neste mundo, especialmente quando se decide viajar.

Assédio sexual nas viagens

Este relato é o segundo de uma série de colunas em que conto várias frases absurdas que já ouvi e que, infelizmente, demonstram o quanto o preconceito de gênero ainda é uma constante na vida de mulheres viajantes, nômades e migrantes.

No primeiro texto da série falo sobre o estereótipo da brasileira mundo afora. Neste segundo falo mais especificamente sobre a objetificação sexual de corpos femininos viajantes, especialmente quando fogem do eixo dos Estados Unidos e Europa Ocidental. Fora deste eixo eu incluo, por exemplo, as mulheres latino-americanas, as do Leste Europeu, as asiáticas e as africanas.

Em decorrência dessa objetificação, o assédio sexual é uma constante nas nossas histórias de viagens. Trago duas outras situações que vivi, e infelizmente presumo que você vai se identificar com algumas delas.

Assédio no ônibus

Na época eu tinha uns 21 anos. Era julho de 2014, ainda no começo da vida universitária. Estava indo de Goiânia (GO) para Rio Branco (AC) para participar de um curso de extensão em jornalismo científico. Ao longo de três dias de viagem, tive que lidar com o assédio do passageiro ao meu lado.

Ele era um bombeiro, estava voltando de Brasília, onde tinha trabalhado na Copa do Mundo. A princípio parecia uma pessoa simpática. Falava com muito afeto que estava com saudades da esposa e da família. Mas bastou cair a noite para aparecerem mãos bobas e tentativas de aproximação corporal comigo.

Leia mais: Qual a diferença entre assédio e paquera?

Resumo da história: enquanto ele não desceu do ônibus, o que aconteceu quando chegamos em Porto Velho (RO), não consegui dormir em paz. Tinha medo de adormecer e acordar tendo sido violentada.

Esta semana, ao ler Maya Angelou narrando a situação de abuso sexual pela qual passou quando tinha sete anos de idade, finalmente percebi que muitas de nós nos culpamos, inclusive, por ficar sem reação diante de situações assim. Ao mesmo tempo que sabemos que aquela situação é abusiva, não temos ideia de como sair da situação, do que fazer, de como agir.

Esses assédios acontecem não só no ônibus, obviamente. São recorrentes também no avião, no trem e em outros meios de transporte.

Assédio nas baladas

Bem provavelmente toda mulher que já tenha feito uma viagem numa pegada mais baladeira já passou por alguma situação chata. Isso aconteceu inúmeras vezes durante meu intercâmbio em Coimbra, cidade portuguesa conhecida como o point dos universitários.

As festas por lá eram incríveis, bebidas baratas e playlists dançantes. Eu perdi a conta de quantas vezes, ao dançar, sentia aproximações descabidas, olhares me sexualizando, como se um simples rebolado fosse indício de que ‘sim, ela quer sexo’.

É como se nós mulheres não tivéssemos o direito de externalizar nossa sensualidade sem ser reduzidas a um mero objeto pronto para dar prazer.

Assédio nos hostels

Por fim, cito os hostels como um dos lugares em que frequentemente ocorrem situações de assédio, seja por parte de outros hóspedes ou, muitas vezes, dos próprios funcionários. Foi o que me ocorreu no relato que abre este texto.

Por isso, sempre que estou dormindo num quarto misto dou uma boa observada no comportamento e nas falas dos outros hóspedes do sexo masculino. Sim, é um absurdo que em pleno 2020 esse tipo de preocupação ainda seja necessária. Mas infelizmente ainda é.

Jornalista maranhense e escritora antirracista, feminista e itinerante, Flay Alves acredita no impacto transformador da literatura produzida por mulheres pretas, nordestinas e periféricas e por isso hoje realiza oficinas e mentorias de escrita criativa e carreira literária, tendo em vista romper com a homogeneidade do mercado editorial brasileiro. É também autora do livro-reportagem Donas de Si, que conta a história de cinco mulheres migrantes que tiveram suas trajetórias marcadas pela violência de gênero.
* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Ei, você quer que o jornalismo feminista exista?

AzMina coloca tecnologia, dados e jornalismo a serviço do feminismo. Se você acredita nesse trabalho e quer que ele continue, apoie hoje o jornalismo independente que fazemos.

EU APOIO AZMINA