
A concepção do amor romântico acaba por tolerar alguns graus de violência e controle. Sem isso, muitos acreditam que é monotonia. Não gostaríamos, mas essa ainda é a lógica que dita o inconsciente coletivo, entranhada, transmitida de forma naturalizada, silenciosa (ou barulhenta, vide red pills). Os feminicídios de grande repercussão, cada vez mais brutais, diga-se de passagem, parecem ser os únicos eventos capazes de nos mover do cochilo coletivo, ninados pelos gritos de dor.
Ficamos ali, entre a realidade material e imaterial, até que nos acordem no susto com notícias de uma mulher arrastada por um carro numa grande avenida, uma mulher que recebeu mais de 60 socos em um elevador, uma mulher que morreu sufocada pela fumaça de um incêndio, impedida de receber socorro, enquanto o ex-companheiro vigiava a barbárie. Fora tais assombros, seguimos sonolentos, deitados no colchão de infinitas violências toleráveis, convivíveis, passíveis de relativização.
Relembro uma cena recente da novela que ocupa o horário nobre da TV Globo que me parece bem representativa: moribundo após descobrir que Viviane (Gabriela Loran) é uma mulher trans, Leonardo (Pedro Novaes) a reencontra e a confronta de forma violenta, palavras duras, dedo em riste. A cena, no entanto, acaba em beijo. Pronto! A violência dos segundos anteriores estava justificada. “Absolute cinema” carimbaram nas redes sociais.
Não podemos tolerar violência como fetiche
Lamento dizer, mas se realmente estivermos determinados em acabar com a violência contra mulheres e meninas, não podemos mais tolerar cenas como aquela. Numa sociedade de respeito não se tolera a violência como tempero da paixão, como fetiche coletivo. E aqui talvez esteja a resposta para a nossa inércia social e um sinal da profundidade das mudanças que precisamos fazer.
Estamos mesmo querendo acabar com a violência ou só queremos deixar de acordar assustados? Estaríamos preparados para deixar de cantar a plenos pulmões que “por trás de um ditador tem sempre um grande amor” (Reinventar – Belo)? Acabar com a violência contra mulheres e meninas, claro, implica acabar com o feminicídio, e é inacreditável constatar que ainda estamos num nível tão básico do cuidado.
No Brasil, perdemos pelo menos quatro mulheres diariamente para o ódio, para a misoginia, para o sexismo; isso sem considerar as ocorrências não notificadas.
Particularmente, acredito que todo assassinato de mulheres e meninas, independente do contexto, é, na base, um feminicídio. Há um tom a mais de brutalidade em qualquer tragédia cujas vítimas são pessoas do sexo feminino, e não importa o gênero do autor. A base social do ódio às mulheres se revela no modo como os corpos são violados. Uma visível manifestação da opressão de gênero.
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É preciso um novo modelo de sociedade
Precisamos de decisão e postura revolucionárias, como diz bell hooks. E esse ímpeto não pode continuar sendo o diferencial de algumas iniciativas ou organizações. Não construiremos e não viveremos o fim da violência contra mulheres e meninas enquanto quisermos manter o modelo atual de vida em sociedade. Precisamos avançar para um novo modelo, pautado na paz, na justiça, na ética, no amor.
É pela vida das mulheres, sim, mas é mais que isso. É por uma humanidade saudável. Nós mulheres não somos acessórios descartáveis da vida coletiva, e há infinitas pesquisas e estudos que comprovam a nossa importância para a economia, para a educação, para as artes, para o desenvolvimento social etc. Somos o oxigênio da vida coletiva. Literal e metaforicamente, geramos e gestamos a vida.
Mesmo quando, infelizmente, os “donos do poder” chegam aos seus escritórios, jantares, reuniões, espaços de lazer ou de decisão, geralmente, mulheres passaram antes por estes espaços. Limparam, cuidaram, prepararam o terreno. Algo básico, mas que costuma sempre passar despercebido. Não há vida sem nós.
Só queremos a dignidade de viver sem medo, de decidir nossas próprias trajetórias. Queremos acertar, errar, ter esperança, esperançar.
Queremos viver.
Parem de nos matar!
