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Flaviana Alves
21 de abril de 2020

Mulheres viajantes enfrentam machismo e xenofobia na espera para voltar para casa

A situação é delicada especialmente para mulheres que viajam sozinhas e e para aqueles que viajam sem grande reserva financeira
mulheres viajantes e coronavírus
(Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília)

Com o avanço do coronavírus pelo mundo, países de todos os continentes fecharam suas fronteiras para conter a disseminação da doença e adotam medidas restritivas de viagens, tais como a suspensão de voos e cancelamentos de reservas. Diante disso, inúmeros brasileiros estão com dificuldades de regressar para casa. 

Em março a baiana Gabriela Valverde, do perfil Viajando com Gabi, postou na sua rede social um alerta aos demais viajantes para que se atentassem às orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda cancelamento de viagens marcadas até junho.

Nos comentários do post, viajantes relatam como estava a situação no país onde se encontravam e quais medidas estavam tomando. Alguns anteciparam o retorno e conseguiram chegar no país de origem com tranquilidade. Outros decidiram ficar onde estavam e buscam no momento opções de abrigo acessíveis. Muitos temem ficar sem hospedagem e dinheiro.

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Somando-se ao cenário atual, que é de preocupação e muita desinformação, já começam a surgir também incidentes de xenofobia por temor ao coronavírus e machismo nos aeroportos, ao tentar remarcar ou mudar destino dos voos.

A situação é delicada especialmente para mulheres que viajam sozinhas e não têm nenhuma rede de apoio por perto e também para aqueles que viajam sem grande reserva financeira para se manter no local onde estão.

Machismo e xenofobia

A carioca Melissa Ferreira, do blog Mel Just Go, estava viajando sozinha pela África há um ano e meio quando se viu obrigada a regressar para o Brasil por conta da pandemia.

Ela estava indo de Jinja (Uganda) para Joanesburgo quando a África do Sul fechou suas fronteiras. Por sorte, conseguiu trocar o destino do voo e embarcou direto para São Paulo (SP), onde está na casa de sua família.

Melissa relata que em Entebbe (Uganda) teve uma discussão com a representante da Ethiopian Airlines, pois não estava conseguindo fazer check-in, já que seu voo havia sido cancelado, mas até então ninguém da companhia aérea sabia disso.

A viajante atribui esse incidente a uma questão cultural, pois diz que no país não estão acostumados a verem mulheres viajando, se posicionando, questionando e reivindicando seus direitos.

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“Tenho certeza que se eu fosse um homem, teria conseguido resolver o problema em dez minutos. Mas como eu era uma mulher, criou-se esse problema”, afirma.

Melissa conta também que estrangeiros, de modo geral, estavam sendo associados ao vírus. “No supermercado, ao passar por outras pessoas, muitos me chamavam de coronavírus”, conta.

O mesmo tem ocorrido com um grupo de brasileiros retidos na Costa do Marfim, impedidos de deixar o local por causa da pandemia. Eles relatam que, por serem estrangeiros, viraram alvo de desconfiança e têm recebido olhares de reprovação dos locais.

Itamaraty acelera repatriações

Cerca de 12 mil brasileiros retidos em outros países devido a pandemia já foram repatriados com o auxílio de uma força-tarefa dos ministérios do Turismo, das Relações Exteriores e da Defesa, além da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e da Embratur.

Se você é brasileira(o), está no exterior, foi afetada(o) pela crise da covid-19 e precisa de assistência, preencha este formulário informando ao Ministério das Relações Exteriores sua situação ou ligue para os seguintes números de telefone.

Rede de apoio para viajantes precisando de ajuda

A escritora nômade Leticia Mello criou no seu Instagram a rede de apoio Viajantes precisando de ajuda, para conectar pessoas que tem um lugar para alugar/disponibilizar com viajantes que estão sem ter como voltar nesse momento.

Leticia também chama atenção para o fato de que, viajantes que tenham passado por países infectados, devem seguir ainda mais rigorosamente as medidas de isolamento social para, deste modo, não colocar em risco a vida de outras pessoas.

Jornalista maranhense e escritora antirracista, feminista e itinerante, Flay Alves acredita no impacto transformador da literatura produzida por mulheres pretas, nordestinas e periféricas e por isso hoje realiza oficinas e mentorias de escrita criativa e carreira literária, tendo em vista romper com a homogeneidade do mercado editorial brasileiro. É também autora do livro-reportagem Donas de Si, que conta a história de cinco mulheres migrantes que tiveram suas trajetórias marcadas pela violência de gênero.
* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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