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“I love Brazilian girls”: o estereótipo da brasileira mundo afora

Flaviana Alves
por Flaviana Alves
16 de outubro de 2019
Não importa para onde vamos, os preconceitos de gênero sempre nos acompanham.
i love brazilian girls
Camiseta “I Love Brazilian Girls”, à venda online em site dos Países Baixos. Foto: Reprodução

Já são quase 19 horas. Estou atrasada para o curso de inglês e morrendo de fome. Na pressa por não perder o metrô, caminho rapidamente até a lanchonete turca da esquina e peço um kebab, uma das minhas comidas favoritas, para levar na viagem.

O atendente entrega o pedido da cliente à minha frente e começa a preparar o meu. Me olha dos pés à cabeça. Respondo com um rosto sério, quase carrancudo. Conheço esse tipo de olhar. Na maioria das vezes é seguido por galanteios, piadas sem graça ou conversas com duplo sentido. E assim aconteceu.

Where are you from? (“De onde você é”, em inglês)Pergunta com certo tom de autoridade, como se eu tivesse a obrigação de responder. Fico em silêncio por alguns segundos, mas em nome da boa educação respondo.

Brazil.

Oh, Brazil? I looove Brazilian girls! (“Brasil? Eu amoooo garotas brasileiras”, em inglês).

Novamente, me analisa dos pés à cabeça, como se quisesse deixar claro em palavras e gestos o significado da frase. Olho para os lados e não respondo mais nada. Ele insiste na conversa, comenta que sou muito bonita, pergunta se moro ali perto e a quanto tempo vivo na cidade, e eu simplesmente peço para adicionar uma coca-cola. Pego o pacote e vou embora.

Nem posso contar quantas vezes já ouvi essa frase, nesse mesmo tom e com esse mesmo olhar. Só muda o idioma mesmo.

Brasileña? Me encanta!

Brasiliana? Mi piace molto!

Oh, I looove Brazilian girls!

Brasileira? Que fixe! Eu a-do-ro as brasileiras!

É curioso demais. Não importa o idioma, mas o interlocutor faz questão de deixar claro que não está se referindo ao povo brasileiro e seus costumes, e sim à mulher brasileira. É da mulher brasileira que ele gosta!

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Essa mulher que, ao fazer as malas e decidir viajar ou migrar para outro país, vai ter que lidar com situações assim cotidianamente. No metrô, no ponto de ônibus, numa balada, na sala de aula, na praia, na montanha, em qualquer lugar. Porque não importa para onde vamos, os preconceitos de gênero sempre nos acompanham.

Em Portugal e na Inglaterra, dois países onde vivi por cerca de seis meses em cada, percebo que a situação se agrava. Por quê? Ambos são conhecidos como destinos bastante procurados na rota da prostituição brasileira. O primeiro devido à facilidade da língua em comum, o segundo em função do alto valor da moeda local, a libra.

Antes de prosseguir, é necessário pontuar algo: toda nacionalidade carrega seus estereótipos. Frequentemente vejo, por exemplo, a mulher espanhola sendo taxada de caliente e passional, o que num passe de mágica se transforma em “dada demais” e “desequilibrada”. Em outras palavras, bem sabemos que o preconceito de gênero está presente no mundo inteiro. Posto isso, a meu ver é fundamental que, ao vivenciar tais situações, as partilhemos, para que possamos desconstruir e avançar na liberdade de gênero.

Estereótipo da mulher brasileira

Frases como essa dão indícios do estereótipo da mulher brasileira mundo afora. O lugar-comum é sempre este: a brasileira é promíscua, exótica e sensual. Se for negra então, o que é o meu caso, nem se fala.

Um dos pontos de origem desse imaginário é a colonização eurocentrista, ou seja, aquela velha e sangrenta história de portugueses e espanhóis chegando em caravelas e de nós, mulheres, sendo comercializadas e saqueadas.

Em outras palavras, objetivação pura.

Eu, um ser humano dotado de emoções e vontades próprias, viro um objeto à disposição da vontade de terceiros, e, como tal, não tenho direito sobre o meu corpo e sobre a minha vida. Novamente reforço: se tratando da mulher negra, a situação ganha proporções mais agressivas e vira hipersexualização.

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É por isso que esse olhar malicioso, que sempre acompanha a dita frase, carrega consigo um tom de autoridade, uma licença vitalícia para que o outro insinue, fale ou pratique coisas totalmente desrespeitosas e que geram um profundo desconforto em nós.

Outro aspecto que contribui diretamente para esse imaginário é a cultura patriarcal, ainda tão arraigada no nosso país, e o machismo nosso de cada dia.

Até “ontem” os homens ocupavam todas as posições de liderança no mundo e ditavam o modus operandi da sociedade. Porém esse cenário mudou. Cada vez mais as mulheres estão presentes em todos os espaços, inclusive enquanto mochileiras, nômades e migrantes.

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Ainda assim, é difícil para a sociedade olhar para a mulher como um ser que gosta de desbravar, que gosta de aventura, que quer explorar o mundo.

No entanto, pesquisas revelam que cada vez mais somos nós a migrar e viajar. Segundo dados do IBGE (Censo 2010), as mulheres representam 53,8% dos brasileiros residentes em outros países. Por isso acredito ser tão necessária essa discussão, para que tenhamos de fato liberdade de ir e vir.

De que modo isso limita nossa liberdade de ir e vir?

Percebo que muitas mulheres se sentem desencorajadas a viajar sozinhas, mesmos que isso seja um sonho para elas.

É que ser taxada de promíscua pelo simples fato de ser uma brasileira é algo não só desconfortável, como também pode nos colocar em perigo, já que são situações que costumam acontecer de maneira redutiva e totalmente descontextualizada. Em outras palavras, de modo abusivo.

Ou seja, além de tolher nossa liberdade em vários aspectos, a objetificação e sexualização de nossos corpos abre margem para situações de violência, como discriminação no trabalho e na vida social, assédio sexual, estupro e feminicídio.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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