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Flaviana Alves
25 de agosto de 2021

Sim, a literatura é machista e racista

O machismo e racismo presentes no mercado literário impedem mulheres plurais de se verem como escritoras. Mas não precisa ser assim
literatura machista e racista
Imagem: Unsplash

Às vezes me pergunto o que mulheres pretas que vieram antes de nós projetaram para as gerações atuais. Quais eram os seus sonhos? Enquanto elas lutavam por um mundo menos racista e machista, onde encontravam refúgio e força para não sucumbirem?

Quando eu imagino as meninas que virão, sempre penso em três palavras que gostaria de deixar para elas: Afeto. Cura. Liberdade. E quando tento descobrir o que me fez uma mulher esperançosa, a literatura e a escrita sempre são as primeiras coisas que me vêm à mente.

Lembro como se fosse hoje do dia que li Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou. Foi a primeira obra de uma escritora negra que acessei. Quando fechei a última página tive certeza: eu, uma mulher preta, também poderia ser escritora.

A partir dali organizei a publicação independente de Donas Si, livro-reportagem que conta a história de mulheres migrantes vítimas de violência de gênero e, desde então, venho realizando oficinas, mentorias, workshops e palestras de escrita criativa, sempre a partir da perspectiva da diversidade.

“O racismo me impediu de exercer a escrita”, essa foi uma das falas que já ouvi nas rodas de prática que conduzo. Inseguranças, bloqueios, síndrome da impostora e travas profundas surgem como reflexo de uma literatura que é machista, é racista, é xenofóbica, é homofóbica, é capacitista. Porque não nos vemos devidamente representadas no ofício da escrita e nas narrativas construídas.

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Homens brancos têm suas obras celebradas e valorizadas. O eixo Rio-São Paulo parece ser o centro de grandes mentes, único lugar possível para o surgimento de novos talentos literários. Até mesmo o movimento de mulheres que escrevem é majoritariamente branco.  Fico me perguntando qual é a sensação.

Qual será a sensação de ser uma menina negra que se vê nos livros? Que vai numa livraria e esbarra em inúmeros títulos cuja foto e assinatura de capa é um rosto feminino e preto? Como deve ser ouvir, desde cedo, histórias cujas protagonistas têm cabelos crespos, são nordestinas ou periféricas, são lésbicas ou trans, indígenas ou tem alguma deficiência?

Não sei porque não foi essa a infância que vivi. Eu tinha cerca de 25 anos quando li, pela primeira vez, uma autora preta. Mas desejo e sonho profundamente que esta seja a realidade das meninas do futuro.

Fazer da literatura um espaço mais diverso é reconstruir imaginários e curar memórias de dor por meio da palavra. É promover a pluralidade de vozes, narrativas, enredos e escolhas temáticas. É educar gerações futuras para se tornarem mais inclusivas, igualitárias e plurais.

É a partir desse cenário que surge a CriAtivas, uma plataforma de educação, networking e geração de empregos para escritoras plurais, que incluem pretas, nordestinas, nortistas, periféricas, lésbicas, trans, dentre outras intersecções.

O projeto, idealizado por mim, é desdobramento de um ano e meio de diálogos, partilhas, mapeamentos e muita escuta de mulheres que fogem de eixos homogêneos. Após passar por uma seleção via edital, nossa iniciativa foi uma das contempladas pela Fundação Tide Setubal, dentre 268 projetos inscritos.

Agora estamos em fase de captação de recursos e o nosso financiamento coletivo está aberto até o dia 29 de agosto. A cada R$ 1 doado na campanha, outros R$ 2 são aportados pelo Fundo Matchfunding Enfrente.

A verba arrecadada será utilizada para a criação e o desenvolvimento da plataforma e, após o lançamento, daremos início a um intenso processo de mapeamento, cadastro e conexão de mulheres em sua diversidade que escrevem.

Vejo a CriAtivas como um movimento de ocupação da literatura. Porque a diversidade enriquece e endossa a magia da escrita. Para realizar a sua colaboração e fazer parte deste movimento, clique neste link. Até o dia 29 de agosto é possível fazer doações. Lembre-se de também divulgar o link oficial da campanha nas redes sociais e nos grupos de mulheres dos quais faz parte.

Afeto. Cura. Liberdade. Que a pluralidade de mulheres que escrevem faça dessas três palavras o legado que deixaremos para gerações futuras.

Jornalista maranhense e escritora antirracista, feminista e itinerante, Flay Alves acredita no impacto transformador da literatura produzida por mulheres pretas, nordestinas e periféricas e por isso hoje realiza oficinas e mentorias de escrita criativa e carreira literária, tendo em vista romper com a homogeneidade do mercado editorial brasileiro. É também autora do livro-reportagem Donas de Si, que conta a história de cinco mulheres migrantes que tiveram suas trajetórias marcadas pela violência de gênero.
* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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