logo AzMina
Flaviana Alves
10 de junho de 2021

Dia dos Namorados e a solidão da mulher preta

O preterimento da mulher preta nos empurra para a solidão amorosa. Que o amor se torne livre de padrões, racismos e preconceitos.
Solidão da mulher preta

Andar de mãos dadas. Por inúmeras vezes essa cena esteve no meu imaginário, mas não com tanta frequência nas minhas histórias de amor. Hoje percebo o quanto isso está diretamente relacionado ao preterimento da mulher preta nas relações amorosas.

Quis falar sobre esse tema em pleno mês dos namorados porque acredito que essa data evidencia o quanto somos empurradas para a solidão no mundo dos afetos e isso acontece de inúmeras maneiras.

Quando adolescentes, nosso cabelo é motivo de chacota. Nossos traços – nariz largo e lábios carnudos – são motivo de bullying. Uma piada pronta. Quem vai querer paquerar a menina tida como feia? Durante todo o meu período na escola, meninas brancas – de cabelos longos, nariz fino e olhos claros – eram as cobiçadas pelos rapazes.

Obviamente, há muito do machismo aqui também. Essa dinâmica escolar é, muitas vezes, o ponto de partida para assédios e para a objetificação do corpo feminino.

Mas é em meio a tudo isso também que as relações se forjam e a nossa autoestima se consolida. Ou é destroçada. O mais contraditório disso tudo é que na mesma proporção em que somos desdenhadas, somos também animalizadas.

Leia também: Tudo no sigilo. Pra pegar mulher gorda, só se for escondido

É difícil de explicar, mas é algo que bagunça a nossa cabeça e as nossas emoções. Ser um corpo com curvas, peitos e bunda. A negona fogosa, a pretinha gostosa, a mulata que habita o imaginário masculino, tão falocêntrico. Aquela que frequentemente é convidada a ser a outra. A amante, a mulher que não é boa o bastante para andar de mãos dadas, mas ideal para atiçar o desejo e suprir as fantasias sexuais.

Onde fica o afeto em meio a tudo isso? Onde fica o respeito, o companheirismo, a construção de relacionamentos saudáveis e o preenchimento das nossas demandas de amor?

Porque merecemos amar e ser amadas. A demanda é essa via de mão dupla. É sobre reciprocidade. Porque andar de mãos dadas é um gesto a dois.

A nossa solidão é também silenciosa e às vezes somos colocadas no lugar de força inabalável. Uma armadilha ardilosa. Eu não sou forte, sou vulnerável. Eu quero amar e ser amada.

É muito bom poder dizer isso em voz alta. Tenho certeza absoluta que essa dor não é só minha. Que outras mulheres negras, ao ler essas palavras, vão se ver nessas memórias de dor, nesses romances carregados de traumas e nesses relacionamentos repletos de migalhas.

Leia também: “Onde encontro uma garota para sexo?”: o assédio sexual nas nossas histórias de viagens

“Você tem que aprender a levantar-se da mesa quando o amor não estiver mais sendo servido”. Não por acaso Nina Simone nos deixou essa frase.

Existe um longo caminho até a derrubada da nossa solidão. A mudança nos padrões de beleza já é um passo importante nessa direção, porque uma vez que assumo o lugar do belo, assumo também um lugar de desejável em plena luz do dia.

Além disso, há também a reeducação dos homens negros, que historicamente foram instruídos a despojar brancas para, desta maneira, subir de categoria nas relações sociais.

Somado a tudo isso, o autocuidado pode ser também uma boa ferramenta. Por meio da terapia me dei conta da infinidade de histórias que vivi atravessadas pelo racismo por parte dos meus parceiros.

Está tudo embrenhado. Então recapitulando:

  • Derrubada dos padrões de beleza eurocêntricos;
  • Resgate da nossa identidade e estética negra;
  • Autocuidado para atravessar essas experiências dolorosas;
  • Diálogos entre nós para que possamos derrubar a solidão e construir pontes.

Se somos ilhadas e menosprezadas pela sociedade, que o diálogo e o afeto entre nós seja a ponte que vai se sobrepor à nossa solidão. Feliz Dia dos Namorados! Que este dia deixe de ser sinônimo de dores silenciosas e torne-se uma data que celebra de fato o amor livre de padrões, racismos e preconceitos.

P.S.: A título de exercício de constatação, busque por “casais dia dos namorados” no Google Imagens e me conte depois qual é a cor dos casais que ilustram e representam essa data.

Jornalista maranhense e escritora antirracista, feminista e itinerante, Flay Alves acredita no impacto transformador da literatura produzida por mulheres pretas, nordestinas e periféricas e por isso hoje realiza oficinas e mentorias de escrita criativa e carreira literária, tendo em vista romper com a homogeneidade do mercado editorial brasileiro. É também autora do livro-reportagem Donas de Si, que conta a história de cinco mulheres migrantes que tiveram suas trajetórias marcadas pela violência de gênero.
* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Quem está na cola do machismo mesmo?

Desde 2015, AzMina está do lado das mulheres e da luta pelos nossos direitos. E, ao nosso lado, nós tivemos muitas leitoras e leitores, que financiam o nosso trabalho e acreditam que jornalismo feminista deve chegar a todos. Graças aos nossos apoiadores, impactamos a vida de milhares de mulheres e produzimos cada vez mais conteúdos e projetos. Nossas reportagens, vídeos, podcasts, campanhas de conscientização e projetos como o PenhaS e o Elas no Congresso são totalmente gratuitos.

Se você valoriza tudo isso, considere fazer uma doação. Junte-se às mais de 500 pessoas que tornam o nosso trabalho possível. A maior parte dos nossos apoiadores contribui com R$ 20 mensais e cada real é importante.

O jornalismo feminista independente é muito essencial à Democracia sempre. Mas no Brasil de 2021, não podemos descuidar nem um dia. Para isso, AzMina depende de você.

APOIE A CONTINUIDADE DESSE TRABALHO HOJE!