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Mamilos adesivados no Carnaval: transgressão ou censura?

por Helena Bertho
27 de fevereiro de 2019
Adesivos para mamilos estão com tudo no Carnaval, mas esconder o mamilo não seria uma forma de levar às ruas a censura das redes sociais?
Anitta aderiu aos adesivos em seu clipe Bola Rebola, lançado na semana passada. Foto: Reprodução

A moda não é nova, mas esse ano está em todo canto do Carnaval: os adesivos para mamilos (ou pasties, em inglês). De glitter, de lantejoula, com ou sem pompom, artesanalmente feito pelas amigas ou comprado a preço de joia em loja de marca…

Eles estão por todo lado na folia. Eu, inclusive, já usei nesse pré-Carnaval, achando que estava sendo a transgressora do rolê. Mas será?

Quando recebi esse vídeo (infelizmente não achei legendado), que fala sobre mamilos e o que eles podem significar, me caiu a ficha de que usar os tais pasties para curtir a folia, com as tetas livres, mas nem tanto assim, ao invés de ser um ato de rebeldia, pode estar sendo só mais uma forma de dar voz a censura.

Explico, mas para isso vamos precisar rever algumas ideias.

Movimento não é novidade

Toda essa questão começa com um questionamento: por que homens podem ficar sem camisa e mulheres não? Por que nossos peitos são sempre olhados de forma sexual, enquanto os deles são só mais uma parte do corpo?

Leia mais: Carnaval é hora de lutar por direitos?

A proibição do topless feminino é um reflexo da objetificação que nossos corpos sofrem.

Isso não é novidade. Tanto que mostrar os peitos como forma de questionar o machismo é feito há anos e anos. Inclusive, muitos países entenderam o absurdo disso e estão liberando as mulheres curtirem uma praia com os mamilos à mostra. O Brasil, claro, não é parte desse grupo.

Mas essa questão voltou à tona com as redes sociais. É que o Facebook, Instagram e outras decidiram criar um algoritmo que detecta mamilos femininos (isso sempre me intriga) e censura automaticamente as fotos publicadas. Isso também não é novidade, na verdade: em 2015, AzMina abraçou a campanha #MamilosLivres e conseguimos até driblar o Facebook com mosaicos de fotos.

Mostrar os seios requer coragem

Já passou da hora de mamilos deixarem de ser polêmicos, mas não. Cada vez que uma celebridade posa com os seus à mostra, a população entra em polvorosa. Seja por meio da censura nas redes ou dos comentários maldosos.

Então, mulheres brasileiras continuam mostrando seus seios como forma de protesto, de dizer “meu corpo é meu e o seu olhar assediador não vai definir o que eu visto, o que mostro ou o calor que passo”.

Mas até mesmo para nós, feministas, muita coisa vem entranhada e mostrar os seios não é fácil. Dá vergonha, dá medo de assédio, dá medo de violência e dá medo dos comentários que podemos ouvir. Exige coragem, afinal, mamilos ainda são polêmicos por aqui. Por isso, os tais adesivos foram se tornando populares. Em tese, mostramos os peitos sem nos expor demais.

Censura das redes para as ruas

Mas já reparou como é que o Facebook censura os peitos femininos? É que na verdade ele não censura os peitos, né? Só os mamilos é que são problemáticos. Tanto que, para driblar a censura, o truque é colocar um emoticon, um xis ou uma distorção em cima deles. Pronto, tá liberado.

Por quê?

Já ouvi dizer que isso é feito para evitar a publicação de “pornografia sem autorização”. Bem, vou falar por mim, mas imagino que geral concorde: se publicassem uma foto minha de lingerie ou pelada com um sol no lugar dos mamilos, sem meu consentimento, seria tão ruim quanto.

Leia mais: Qual a diferença entre paquera e assédio?

No fim, a sensação que fico é de que quando uso os adesivos, eu estou me submetendo ao que os rapazes do Vale do Silício dizem que é aceitável mostrar do corpo feminino. Estou levando para a rua a censura das redes sociais.

Isso não quer dizer que mulheres não devam usar os enfeites para seus peitos. Eles são lindos! Só me dei conta de que se o intuito é questionar a forma como a sociedade olha para nossos corpos, os objetifica e censura, então o negócio é ir com tudo de fora mesmo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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