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9 de setembro de 2019

O Brasil está acabando com a minha paciência

Para os políticos que censuram livros e apostilas, todo nosso sofrimento é colateral de um plano de poder
Cena do quadrinho Vingadores: A Cruzada das Crianças, que o prefeito do Rio tentou censurar. Imagem: Reprodução

Vendo o cenário desesperador de desinformação que se escancarou nas últimas eleições, fiz uma promessa pessoal e profissional de tentar dialogar. Nada de ironia, nada de agressividade, nada de sarcasmo, mas sim um respiro profundo antes de apresentar informações para quem está se afogando em meio às mentiras. 

Mas, honestamente, acho que minha paciência está acabando. 

Porque a sensação real é de estar em uma canoa cheia de furos, com uma canequinha tentando tirar a água. A canequinha é o diálogo. A água representa todos os absurdos que andam circulando por aí. E a canoa é nosso país, a educação, o futuro das crianças brasileiras, claramente afundando. 

Tem muitos assuntos em que isso poderia se aplicar. Mas aqui eu falo de gênero e sexualidade. E esses assuntos são alguns dos favoritos dos nossos grandes desinformadores, os políticos, para espalhar desinformação, ódio e preconceito. 

Eles amam falar na tal “ideologia de gênero”, que ninguém sabe bem o que é, mas que abarca qualquer esforço de educar jovens e crianças sobre educação sexual, respeito à diversidade e feminismo. Amam trazer esse assunto porque sabem que isso mobiliza as paixões da população. Vai além do racional – pega nas crenças, pega nas repressões, pega na dificuldade em aceitar o diferente. 

Só na semana passada, vimos três políticos querendo ganhar audiência com isso. 

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O presidente Jair Bolsonaro, depois de ver sua aprovação cair em uma pesquisa do Datafolha, resolveu recuperar um pouco da paixão dos seus eleitores mais fervorosos pegando em um ponto que os move: a homofobia. “Determinei ao @MEC_Comunicacao, visando princípio da proteção integral da CRIANÇA, previsto na Constituição, preparar PL que proíba ideologia de gênero no ensino fundamental”, escreveu nosso presidente no Twitter

Pronto, polêmica criada, ânimos mexidos, ele volta às manchetes. E agora, com algo que move o povo: quer proteger as crianças desse fantasma que ninguém sabe bem o que é, mas que mete medo, a ideologia de gênero. 

Aí vem o governador de São Paulo João Dória. Ele quer concorrer à presidência. Ele sacou a jogada do Bolsonaro e vai surfar na onda: manda recolher apostilas das escolas públicas que tinha conteúdo de “ideologia de gênero”. 

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Apostila que Dória mandou recolher explica o que é identidade de gênero. Foto: Reprodução

Para entender, essas apostilas ensinavam meninas e meninos a prevenir a gravidez. Mostravam como usar camisinha, por exemplo. O  material também falava sobre diversidade. Explicava o que é orientação sexual e identidade de gênero e falando que não existem formas normais ou certas de se relacionar. Ou seja, ensinando tolerância e respeito.

No dia seguinte, quem quis atiçar as paixões foi o prefeito do Rio. Marcelo Crivella mandou censurar uma HQ disponível na Bienal do Livro por ser um livro infantil com “pornografia”. A tal pornografia, no caso, era o desenho de um beijo gay. Sinceramente, a gente vê coisas mais “pornográficas” em publicidade de roupa. Depois ele ainda mandou retirar todos os livros com temática LGBT da feira. (Ainda bem que a organização, as editoras e o público não baixaram a cabeça para tamanho disparate). 

Tem dias que me pergunto se esses políticos são hipócritas ou só burros mesmo (homofóbicos já está claro que são). 

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Acredito mais que sejam hipócritas. Bolsonaro sabe muito bem que ninguém aprende a ser gay ou trans numa apostila de escola. Dória sabe disso também e sabe que os adolescentes não vão transar mais porque a apostila ensina a por camisinha. Assim como Crivella tem total ciência de que o máximo que crianças vão aprender com uma HQ com personagens gays é a respeitar gays. 

Eles sabem disso tudo. Eles sabem que suas ações não vão diminuir o número de gays ou de adolescentes sexualmente ativos. Acho inclusive que sabem que o que podem conseguir com isso é outra coisa: mais ódio a gays, mais violência homofóbica e também menos proteção no sexo entre adolescentes. 

E pouco se importam com essas consequências, porque são efeito colateral do que querem. Querem mais ânimos inflamados, mais paixões despertas, para desviar as atenções do racional, para que a população seja movida por esse impulso que mistura medo e ódio e não preste atenção nos números, no sucateamento do país que está sendo feito enquanto quadrinho de beijo gay é censurado. 

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Para eles, a morte da população LGBTQI+ é colateral. A gravidez das meninas é colateral. As mortes de mulheres abortando é colateral. Todo nosso sofrimento é colateral de um plano de poder para afundar o Brasil. 

E eu pergunto: como manter a paciência para o diálogo nesse cenário? Como achar que vale à pena ficar falando com calma sobre contracepção, respeito, diversidade, tolerância? 

A canoa está afundando e eu só queria atirar a caneca na testa dos remadores que ficam empurrando a água para dentro. 

Helena é jornalista formada pela USP e com pós-graduação em roteiro pela FAAP. Já atuou em diversos veículos, como UOL, M de Mulher, Veja São Paulo e a Revista Sou Mais Eu. Especializada em cobertura de gênero, direitos humanos, diversidade e sexualidade, é editora chefe da Revista AzMina e também escreve a coluna quinzenal sobre sexo.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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