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18 de julho de 2019

Vamos escutar – e rebater – os argumentos dos machistas

Vamos seguir explicando o feminismo, sem pressupor que aqueles que pensam diferente são monstros ou despreparados

Vocês lembram em que momento a bolha de vocês pareceu ficar cada vez menor ou furou? Pra mim foi nas eleições de 2018. AzMina vinha fazendo pautas cada vez mais aprofundadas e especiais sobre feminismo, enquanto os apoiadores de Bolsonaro acusavam (falsamente) feministas de mijarem nas ruas durante protestos e de promoverem “ideologia de gênero”

Naquele momento, a gente começou a perceber que não bastava aprofundar o debate sobre gênero, homofobia ou direitos humanos e achar que estávamos avançando enquanto a maior parte da sociedade ainda acha que feminismo é o oposto de machismo. Era preciso voltar a explicar as questões mais básicas e centrais do feminismo, dialogar com quem pensa diferente e fazer esforços cada vez maiores para não falar apenas para “convertidas”.

Como a gente prometeu ao fim do difícil ano de 2018, “se nossos líderes estão apregoando absurdos sobre uma ‘ideologia de gênero’, ou que mulher nasce apenas para ser mãe, precisamos chegar à população que acredita nessas ideias para ter um diálogo mais aberto e apresentar novos argumentos e perspectivas”. E pra isso, a gente pediu o apoio (inclusive financeiro) das nossas leitoras.

Finalmente AzMina tem uma pequena equipe dedicada integralmente ao projeto. E finalmente estamos conseguindo aceitar a grande maioria dos convites de entrevista, palestras e ações. Muitas vezes, aceitar um convite para um programa de entrevistas como os da TV Aparecida implica um dia inteiro de deslocamentos e atrasos nos outros tantos projetos que temos em andamento, como o cuidado diário com o jornalismo, as redes sociais, o app PenhaS e a constante luta por financiamento. Mas a gente vai, porque sabe que dessa maneira vai conversar com homens e mulheres que têm dúvidas ou preconceitos sobre a luta pelos direitos das mulheres.

Veja também: E o direito dos homens? – AzMina responde comentários de internet

Foi pensando nisso que a gente participou de um programa na TV Gazeta sobre termos que reforçam o preconceito contra mulheres (pode chamar de politicamente incorreto), falou na TV Globo e no SBT sobre o PenhaS e tem dado cada vez mais entrevistas para jornais como a Folha e o Estadão.  

Um desses convites foi para participar de um vídeo do canal Spotniks, conversando com um ativista pelos direitos dos homens. Caras como ele acham que o feminismo é um câncer, que as mulheres têm mais direitos que os homens porque podem abortar em caso de estupro e que a lei Maria da Penha é um privilégio. (Desculpem não vou linkar o texto no site deles que fala isso, porque não vamos dar a eles mais audiência do que o necessário para que vocês saibam que estes homens existem e que cada vez mais este movimento conquista novos adeptos). 

O Spotniks é um canal jornalístico com mais de 500 mil inscritos, com viés liberal e eu já imaginava que a maioria dos comentários no vídeo seriam desfavoráveis para nós. Quando o vídeo saiu, eu acabei cedendo à tentação de ler os comentários. Já havia sido doloroso fazer o vídeo, já havia sido difícil sentar por mais de uma hora em um estúdio quente e desconfortável com um homem que culpava as mulheres por quase todos os seus sofrimentos. Ler os comentários foi ainda pior.

Estar de frente com um homem que discordava das premissas mais básicas de questões que eu considerava óbvias e superadas, como a simples pergunta “é mais difícil ser homem ou mulher na nossa sociedade” me fez ter certeza que estamos ainda explicando o básico quando se trata de gênero.

Ainda precisamos explicar questões como: o gênero biológico ou seus hormônios não definem quem você é; feminista pode ser feminina (seja lá o que isso significa pra você); mulheres não têm vocação natural ou obrigação de serem mães. E, principalmente, que feminismo não é o oposto de machismo, porque o machismo violenta, oprime e subjuga as mulheres enquanto o feminismo apenas quer direitos e oportunidades iguais para todos e todas

A lista poderia seguir infinitamente e, enquanto o machismo existir, nós vamos seguir falando e insistindo e explicando o óbvio. Vamos fazer isso com reportagens, dados, estatísticas, campanhas, vídeos. Mas vamos também fazer cada vez mais com diálogo, escuta e parcerias. Sem pressupor que aqueles que pensam diferente são monstros ou despreparados (quem nunca pensou isso conversando com um machista vai?). 

Se o machismo nos impõe um jeito certo de ser mulher, nós oferecemos diversidade. Se os machistas não nos deixam falar, nós estamos dispostas a escutar e rebater um a um seus argumentos.

Carolina é jornalista formada pela USP. Em São Paulo e em Brasília, cobriu economia, política e judiciário para o jornal Valor Econômico. É diretora executiva da Revista AzMina, além repórter, fazedora de playlists e sofredora por antecipação.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Quem está na cola do machismo mesmo?

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