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Se sou vista como estereótipo, minha roupa é uma armadura

por Rebecca Souza
1 de julho de 2019
Nossa roupa não é apenas um pano, uma pulseira. Nossas roupas são nossos antepassados sendo expulsos, nosso povo se organizando e lutando por direitos.

Adoro shorts! Entendam, moro em Belém do Pará, e sobreviver ao verão aqui significa ter roupas frescas. Durante muito tempo evitei shorts e roupas mais apertadas por problemas ligados à minha imagem corporal. Hoje em dia, porém, é muito fácil topar comigo com um shortinho de veludo, uma blusa tipo espartilho, argolas e pulseiras douradas.

Isso me lembra quantas vezes ouvi pessoas dizerem “como eu acho lindo a roupa de cigana!” ou “você pode vir na palestra vestida de cigana?”.

Então, primeiro esqueça tudo que o estereótipo construiu sobre “roupas de ciganos”. Sabe aquelas roupas coloridas, lenço de moedas, saionas? Tudo estereótipo criado por payos (não ciganos).

Cada clã tem uma vestimenta própria. Os Calons, por exemplo passariam facilmente por fãs de sertanejo, com suas calças apertadas, camisas quadriculada e chapéus. Suas mulheres usam pano de xita (aquele florido) com fitas coloridas, e em alguns lugares se vestem mesmo como irmãs da Assembleia de Deus (até pelo fato que 80% deles serem evangélicos).

Leia mais: Quantos estereótipos você já reforçou hoje?

Já assistiram a programas como “Meu Grande Casamento Cigano ” ou “Irmãs Ciganas”? Ali são Romnichals ou Viajantes Irlandeses (outros clãs ciganos). E sempre as pessoas se espantam com o jeito exagerado, curto e brilhoso das Romanis representadas, com decotes e calças que não deixam a dever pra qualquer funkeira.

Meu clã (Romi Ludar) gosta de roupas em tom escuros, e as mulheres usam longas tranças divididas. Dificilmente, no dia a dia, ando com essas vestimentas. Contudo, você vai me ver com elas em uma palestra, em eventos na ONU e até mesmo com o lenço colorido, que é outra marca nossa.

Uma vez me perguntaram: “se você quer questionar estereótipos, por qual motivo se vestir como um?”.

Não é fácil ser de uma identidade étnica em um mundo em que você somente serve se couber no olhar do outro.

Ciganas são bonitas vestidas como o payo diz que tem que ser. Islâmicas são aceitáveis sem véu, indígenas somente se viverem na floresta. Cite qualquer identidade étnica e sempre vai haver uma caixinha na qual devemos caber.

Nos vestir com essas roupas em palestras, fotos e outros momentos públicos é dizer “sou assim, essa é minha raiz e tenho orgulho dela!”. E esse nem é um truque novo.

Pense em Frida Khalo sem seus característicos vestidos e laçarotes no cabelo, que a ligavam às culturas indígenas mexicanas. Vocês acham que Frida unicamente se vestia daquele jeito para parecer bonita? Existe todo um manifesto político naquelas saias de cores quentes.

Frida Kahlo vestia roupas coloridas para reafirmar sua cultura. A pintora foi capa especial da Vogue Mexicana em 2012. (Imagem: Reprodução)

E se Frida aparecia sempre colorida reafirmado sua cultura colorida, na mesma época nos Estados Unidos outras mulheres mexicanas diziam “pode olhar, mas não toque, pois sou perigosa”.

As cholas eram (e continuam sendo) jovens da comunidade hispânica estadounidense que com seus cabelos que lembram “colmeias bufantes”, calças coladas e panos amarrados na cabeça subvertiam os românticos vestidos rodados do “American Life” da década de 50.

Leia mais: Discriminação de ciganos é coisa do passado? Infelizmente não.

Jovens Pacholos e Cholas eram acusados de não serem patriotas por terem um estilo dizendo “ok, estou no seu país, contudo minha gente não é vocês”. Se o estilo James Dean tirava o sono das mães naquela época, o estilo Chola fazia com que políticos criassem leis com regras de vestimenta. Não é à toa que uma foto ícone do movimento seja com moças Cholas em frente ao grafite de revolucionários mexicanos.

Nessa mesma linha o “Hijab Day” anualmente enche as redes sociais de jovens islâmicas ou não de hijab a cada 1 de fevereiro. E também um dos símbolos das marchas contra Trump era uma jovem negra com um hijab nas cores da bandeira dos Eua.

Sempre pontuo que usar um hijab em um país de teocracia islâmica com certeza é opressão. Contudo, quando uma jovem o usa em países islamofóbicos esse é um simbolo de resistência, maior ainda do que uma moça com seios de fora em marcha feministas.

Dentro desse mesmo tema coloque também os turbantes do renascimento do movimento Negro no Brasil, ou as pinturas corporais indígenas. Quando falamos de apropriação cultural ligada a vestimentas, é sobre isso que falamos.

Nossa roupa não é apenas um pano, uma pulseira, um jeito de pintar o olho. Nossas roupas são nossos antepassados sendo expulsos de lugares, nosso povo se organizando e lutando por direitos, nossa cultura transformada em fantasia. Nossa roupa é nossa armadura no campo de batalha, e sim, somos o que vestimos. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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