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29 de outubro de 2020

“Meu filho foi tirado de mim ao nascer e ainda sonho encontrá-lo”

“Temos ordens de isolar a criança, a mãe não pode ter contato com o bebê”. Essas palavras soam na minha cabeça até hoje

“Venho de uma família disfuncional de Curitiba, no Paraná, e com um histórico de violência, abusos, maus tratos e humilhações. Aos 19 anos fiquei grávida e, por medo, escondi a minha gravidez como foi possível. Consegui manter segredo até os oito meses da gestação, quando fui descoberta pela minha mãe.

Ela foi a única que soube da gravidez e deixou claro que me rejeitava e também não aceitava o que eu estava vivendo. “Você me dá asco” foi uma das primeiras coisas que ela me disse quando descobriu. 

O passo seguinte foi me enviar para a casa de uma parteira em outra cidade que realizava abortos, para que se livrasse do problema. Lá fui obrigada a tomar uns comprimidos que induziram o meu corpo a um parto prematuro. 

Foram mais de 12 horas de dor até que Maria, “a parteira”, desistiu e acabou por me levar ao hospital. Cheguei ao hospital Hipólito Amélia Alves de Araújo no dia 22 de outubro, onde fui atendida, sofri com as contratações até o dia seguinte. 

No dia 23 de outubro de 1991,  por volta das 13 horas, nasceu meu filho. 

Ao nascer escutei uma das enfermeiras dizer: “Temos ordens de isolar a criança, a mãe não pode ter contato com o bebê”. 

Essas palavras soam na minha cabeça até hoje. 

Após o parto, fui levada a um dos quartos do hospital onde, mais tarde, outra enfermeira veio me ver. Ela me viu chorando e falou comigo e tive a oportunidade de contar o que estava acontecendo. Ela saiu do quarto e voltou poucos minutos depois, com o meu filho. Finalmente pude segurar o meu bebê!

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Não sei se por desespero ou por instinto, comecei a revisar ele inteiro, ele era perfeito e estava saudável. O abracei, beijei, cheirei e fiquei com ele alí como se não houvesse mais ninguém no mundo. Mas o momento não durou muito. 

Algum tempo depois, minha progenitora entrou no quarto, olhou para mim e para o meu filho e disse: “É a tua cara quando você era um bebê e olha isso, ele faz o mesmo biquinho que você fazia. “ 

Neste momento, pensei que ela fosse mudar de ideia e que o instinto maternal falaria mais alto e teria o seu apoio. Mas eu me enganei. Ela chamou as enfermeiras e mandou que levassem a criança de volta ao berçário. Disse que ela não queria um neto bastardo e se foi. 

Fiquei no hospital o tempo requerido e com ajuda daquela enfermeira estive com o meu bebê a maior parte do tempo possível. 

Recebi alta, Maria, “a parteira”, veio por mim e pelo meu filho. Nos levou a sua casa e uma vez lá, eu pude segurá-lo. Algumas horas depois, chegou um casal. Eu estava sentada com meu filho em braços, quando ela me disse que aquelas pessoas me levariam de volta a Curitiba, onde vivia com a minha família. 

Quando estava por sair, o casal me segurou e Maria arrancou meu filho dos meus braços, com pontos por causa do parto, magra e anêmica, eu que só tenho 1,58 cm de altura não era páreo contra aqueles três adultos. Me jogaram dentro do carro e nunca mais vi meu filho. 

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Ao cumprir 21 anos, saí de casa e fui morar em São Paulo, pois Maria, enquanto tirava meu filho de mim, disse que ele seria adotado por uma família no interior de São Paulo. 

Fui sem pistas, sem informações, sem nada. Não tenho ideia do que passava por minha cabeça. Jamais encontrei nada. Mesmo anos mais tarde, quando voltei à cidade de Maria, não a encontrei. 

Em 2014, finalmente criei coragem e contei para meus dois irmãos menores minha história. Eles não sabiam de nada até então. O menor dos dois conseguiu descobrir que Maria havia falecido. Minha progenitora faleceu em 2018.

Levaram com elas o segredo do verdadeiro paradeiro do meu primogênito. 

Em 2003, tive outro filho, com quem vivo no Chile, para onde nos mudamos depois do meu divórcio em 2007. Luka, o meu caçula, sabe da existência do irmão e compartilha comigo o desejo e a esperança de encontrá-lo. Ele se preocupa  e quer encontrar o irmão logo, pois convive com uma mãe quebrantada. 

Toda essa dor me marcou, hoje sofro com transtornos de ansiedade,  pânico e depressão severa. 

Ainda assim, luto para encontrar meu menino. Hoje aos 48 anos minha única e última esperança  é um exame de DNA.”

Quem senta no Divã é Daniele Malsa Porfirio.


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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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