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Aos 20 anos, não havia beijado e sofri pensando ter algo de “errado”

por Divã d'AzMina
8 de maio de 2018
"Você talvez não tenha as 'histórias de malandragem' que suas amigas têm, mas logo terá experiências diferentes que te vão dar lições valiosas"

Quem senta no Divã de hoje é a Augusta Conn.

“Nestes muitos anos de militância feminista, eu lutei pela igualdade sexual das mulheres, ou seja, o direito de fazer o que quiserem sem ser julgadas e estigmatizadas. Observando as meninas mais novas, percebo que nossas ações surtiram bastante efeito. Elas se sentem mais livres para controlar a própria vida, sem deixarem de se sentir normais.

No entanto, existe um tipo de menina que ainda não é representado: aquela que não tem experiências sexuais. Eu fui uma dessas meninas.

Passei o primeiro quarto de vida com um terrível complexo derivado da falta de experiência que tinha. Aos 20 anos ainda não havia beijado um garoto, apesar de estar muito ansiosa por essa experiência. Não era minha culpa. Eu falava com eles, formava vínculos, mas, por alguma razão, nunca fui percebida como uma possível ficante ou namorada.

Por muito tempo sofri, pensando que eu tinha algo errado. ‘Sou repulsiva’, ‘acho que sou chata’, ‘tenho que mudar minha aparência’ eram as mais gentis das afirmações que eu fazia a mim mesma. Demorou para construir minha auto-confiança, e não foi conhecendo homem nenhum ‘que me fez ver como sou amável’ ou alguma besteira dessas, mas sim buscando sair do poço de negatividade em que eu me encontrava e tentando perceber que eu sou uma pessoa que muitas poderiam ver como incrível.

Isso tudo foi dificultado por minhas colegas no colégio e na faculdade. Não sei se faziam isso conscientemente, mas sempre faziam parecer que eu tinha algo de errado. Já ouvi que devia sair com fulano, que namora ‘qualquer coisa’, que sicrana tinha o número de um garoto que supostamente me encontraria na praça da cidade para tirar minha ‘boca virgem’ antes de que a 8ª série tivesse início, que agora eu e beltrano (que planejava estudar para ser padre, devo adicionar) éramos os únicos que ainda não namoravam e por isso deviam ‘ser expostos em um museu (?)’.

A menina que troca de namorados várias vezes, é marcada com uma letra escarlate e é extremamente corajosa, mas podemos dizer que sua colega que ouve todas essas coisas no parágrafo acima diariamente também é uma puta (o trocadilho não foi intencional, juro) guerreira.

Ah, e daí arranjam um jeito de te chamar de puta dando a desculpa de que ‘faz escondido, só sabe esconder melhor’.

Por isso, deixe sua amiga tranquila, ok? Tanto você quanto a garota estão tentando fazer o melhor que podem nessa loucura que é a vida. E, se você sofre tudo o que eu descrevi, lembra que tudo tem um tempo certo. Você talvez não tenha as ‘histórias de malandragem’ que suas amigas têm, mas logo terá experiências diferentes que te vão dar lições valiosas que poucos têm a oportunidade de ter.”

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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