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Viajo sozinha pelo mundo para aprender a lidar com meus medos

por Divã d'AzMina
23 de agosto de 2018
Quantas vezes você deixou de ir sozinha a um lugar por medo? Quantas você vezes desviou o caminho, pois a rua parecia perigosa? O medo ainda limita nossos espaços
Foto: Arquivo pessoal

Quem senta no Divã de hoje é a Nathalia Marques.

“Há quatro anos, eu comecei a viajar sozinha. Lembro do medo, da ansiedade e da busca por dicas de outras mulheres sobre o assunto. Na época, fui surpreendida ao encontrar poucas informações. Procurava na imprensa especializada em turismo e também não encontrava nada sob a perspectiva de gênero.

Nessa busca identifiquei que a mídia convencional de turismo tratava seus leitores como se todos tivessem a experiência de viagem de um homem, branco e heterossexual. Percebi que não entendiam que viajar sozinha sendo mulher, negra ou LGTBI é outra experiência.

Nós, mulheres, quando vamos viajar sozinhas, por exemplo, nos questionamos se o destino é seguro, qual é o melhor tipo de hospedagem e por aí vai. Em meio a essa reflexão, em agosto de 2015, tive uma ideia que mudou minha vida e fez com que uma das minhas lutas fosse incentivar mais mulheres a viajarem sozinhas.

Então no dia 20 de agosto de 2015, pedi o cartão de crédito da minha prima emprestado, comprei um domínio e fundei o M pelo Mundo, um site de informações e dicas de viagem para mulheres. Este mês completamos três anos.

Atualmente, contamos com mais de 20 colaboradoras. Somos um grupo de mulheres viajantes, e nele há mulheres negras, mães, LGBTIs, que trabalham para incentivar e ajudar mulheres a viajarem.

Sozinha pelo mundo aprendemos a nos conhecer, a lidar com nossos medos e percebemos que não precisamos de alguém, muito menos da figura de um homem, para ser feliz. Sou da periferia e nunca tive uma vida fácil. Descobri que poderia viajar de forma simples e com pouca grana.

Quando uma mulher viaja sozinha está ocupando um espaço público que ao longo da história lhe foi renegado. Num passado não muito distante no Brasil, mulheres não podiam frequentar  espaços públicos sem autorização ou sem a companhia de um homem.

Quantas vezes você deixou de ir sozinha a um lugar por medo? Quantas você vezes desviou o caminho, pois a rua parecia perigosa? O medo ainda limita nossos espaços.

Mas não estamos sós, estamos com ‘nós mesmas’. E somos donas do nosso destino.”

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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