logo AzMina
Flaviana Alves
16 de março de 2022

Desculpa, você não tem “perfil” para essa vaga

Você já passou por práticas racistas na admissão de um emprego? Eu sim

Tinha 22 anos quando esse episódio aconteceu. Havia passado por um processo seletivo com várias etapas, desde prova por escrito, dinâmica em grupo, entrevista individual até sair o resultado final. Fui aprovada com uma ótima pontuação. A alocação seria por ordem de classificação, logo tinha grandes chances de ficar num bom departamento.

Foi marcado um encontro para que cada candidata conhecesse o seu encarregado ou encarregada, ou seja, o chefe ou responsável pelo setor e, deste modo, pudesse ter uma conversa de apresentação. Fui com a minha melhor roupa. Uma blusa branca formal, sapatilha discreta e maquiagem leve. Lá chegando, a organizadora da reunião fez uma fala inicial e ressaltou que a alocação era de acordo com a classificação e também de acordo com o “perfil” das candidatas.

Perfil… Aquele termo ficou martelando na minha mente. Nas conversas de bastidores nós, as candidatas, comentávamos sobre os melhores departamentos, aqueles nos quais tínhamos mais chances de progressão. Notei que para esses departamentos apenas pessoas brancas foram escolhidas.

Voltei pra casa. Refleti sobre o ocorrido. Consultei a lista de aprovadas para checar a classificação dessas pessoas. Muitas delas estavam entre as últimas colocadas, mas, por se enquadrarem no “perfil”, ficaram no melhor departamento.

Detalhe: esses “melhores departamentos” costumavam ser setores da organização onde os funcionários tinham contato direto com o público. Era como se essas pessoas fossem o cartão de visitas da empresa, sabe?

Por muitos anos guardei essa história pra mim e ficava a matutar: vi ou não vi? Foi isso mesmo ou foi só impressão minha? Como naquele conto de Hebe Coimbra, onde ela fala sobre “um pacato vilarejo pelo qual passava um rio”. Um lugar de mesmices, onde situações se repetem o tempo inteiro e, mesmo se tornando corriqueiras, nos fazem nos perguntar: foi ou não foi racismo?

Leia também: Sim, a literatura é machista e racista

Hoje, atendendo mulheres negras que buscam superar inseguranças instaladas pelos racismos que viveram, posso afirmar sem titubear: sim, foi racismo.

Nos dizem que não temos a aparência desejada para o cargo. Que não nos enquadramos no perfil desejado. Que não atendemos às atribuições da vaga. Nas entrelinhas das entrevistas de emprego e dos processos seletivos, as expectativas de crescimento na carreira se reduzem para nós.

Os cargos de liderança

Segundo dados do IBGE, mulheres negras representam 2,4% nos cargos de diretoria ou gerência no Brasil. Mulheres brancas representam 5,4%. Já de acordo com estudo promovido pelo Instituto Ethos (2016), pessoas negras representam 4,7% do quadro executivo. Afunilando para o recorte de raça e gênero, a mulher negra representa apenas 0,4%. Ainda conforme o Instituto Ethos, se continuarmos nesse ritmo, somente daqui a 150 anos vamos conseguir alcançar a igualdade racial no ambiente de trabalho.

Já no processo de admissão notam-se práticas racistas por parte das empresas. Agora imagine como deve ser fazer parte do quadro de funcionários de organizações que não tem como valor genuíno a diversidade e o combate ao preconceito? Agora vá ainda mais longe e desenhe na sua mente como deve ser fazer parte da equipe de liderança de empresas assim?

Leia também: O futuro do trabalho tem espaço para as mulheres?

Estamos sendo seletivas? 

Neste mês da mulher, em que simbolicamente celebramos os avanços e conquistas da luta feminista, torna-se indispensável ampliar o olhar e atentar-se para demandas de mulheres em sua pluralidade.

Ainda existe muita disparidade e ela não é só de gênero. É de raça, classe, sexualidade e tantos outros marcadores sociais. A pergunta que deixo aqui é a seguinte:

O quanto você tem contribuído para a manutenção desse sistema desigual? Esse é um questionamento que me faço com frequência. Sou uma mulher negra, maranhense e que teve uma infância de pobreza. Hoje, faço parte de uma família nordestina que ascendeu e consegue viver com dignidade e acesso mínimo aos direitos básicos – moradia, saúde, educação, lazer (…). E tenho estado em diálogo com mulheres trans, indígenas, lésbicas, da terceira idade, com deficiência (…)

As estruturas sociais e de trabalho são patriarcais. Numa mesma proporção, as relações de sororidade podem se tornar seletivas. Para que o apoio entre mulheres fure bolhas, é preciso reflexão diária e ação constante.

Se não está incômodo, se não tem reflexão batendo na sua porta todo dia, reeducação de hábitos rolando e desconstrução de mentalidade acontecendo, então talvez eu ou você estejamos sendo seletivas.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Somos movidas por uma comunidade forte. Falta você!

AzMina ajudou a revolucionar a cobertura de gênero no jornalismo brasileiro nos últimos 6 anos. Com informação e dados, discutimos temas tabus, fazemos reportagens investigativas e criamos uma comunidade forte de pessoas comprometidas com os direitos das mulheres. Muita coisa mudou nesse meio tempo (feminicídio deixou de ser “crime passional” e “feminista” xingamento), mas as violências contra as mulheres e os retrocessos aos nossos direitos continuam aí.

Nosso trabalho é totalmente independente e gratuito, por isso precisamos do apoio de quem acredita nele. Não importa o valor, faça uma doação hoje e ajude AzMina a continuar produzindo conteúdo feminista que faz a diferença na vida das pessoas. O momento é difícil para o Brasil, mas sem a nossa cobertura, o cenário fica ainda mais tenebroso.

FAÇA PARTE AGORA