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“Para além do racismo, uso o orgasmo para lidar com as memórias de abuso que ficaram no corpo”

por Helena Bertho
20 de novembro de 2018
Com o projeto Prazer Mulher Preta, terapeuta trabalha o empoderamento sexual de mulheres negras
Kiran é criadora do projeto Prazer Mulher Preta. Foto: Reprodução/Instagram

“Toda mulher tem acesso a uma potência orgástica, só que de uma maneira limitada, porque nossas relações não permitem aprofundar”, diz a terapeuta tântrica e bailarina Deva Kiran. Ela mesma entrou em contato com toda a sua potencialidade orgástica há quatro anos, quando foi estudar o tantra. Uma formação que transformou sua vida, a partir de sua sexualidade.

De maneira simplificada, tantra é uma forma de terapia corporal, famosa pelas massagens que exploram a energia sexual do corpo.

Tanto durante seus estudos, quanto depois, atendendo em espaço focado no empoderamento sexual feminino em São Paulo, Kiran começou a se incomodar com uma coisa: não havia mulheres negras nesses espaços. Foi a partir desse incômodo que ela iniciou o projeto “Prazer Mulher Preta”.

Em entrevista à Revista AzMina, ela conta um pouco mais do projeto e porque é importante fazer também o recorte de raça quando falamos de sexualidade.

AzMina: O que é a terapia orgástica?

Deva Kiran: Ela é uma leitura agnóstica do tantra. Se a mulher não acredita em chakras e energia, isso não diminui a experiência. Porque toda mulher tem essa potência orgástica, mas de uma maneira limitada, porque nossas relações não permitem aprofundar.

A minha grande virada de chave foi entender que sexo e sexualidade são diferentes. E a sexualidade, a gente não vive ela, a gente inicia a partir do sexo. Sexo é quando envolve o outro e a sexualidade são as suas próprias descobertas.

Então a terapia orgástica é uma exploração de autoconhecimento.

O orgasmo vai subindo, tem carga, carga, então chega um clímax e vem a descarga. Que é esse momento em que ficamos sensível e normalmente paramos, descansamos. Meu trabalho atua exatamente nesse vale, para explorar isso por caminhos no seu corpo que você desconhece.

AzMina: Como surgiu o projeto Prazer Mulher Preta?

Kiran: Há quatro anos eu comecei a minha formação como terapeuta tântrica, em um centro em Minas Gerais. Eu não só fiz a formação, mas acabei morando lá e fazendo diversos trabalhos. E uma coisa que sempre observava era a ausência de pessoas pretas. 

Ano passado eu voltei a morar em São Paulo e fui trabalhar em um espaço só para mulheres. Daí começou a me incomodar. Todas as mulheres que eu atendia eram brancas. Todas, todas, todas. Me veio essa inquietação. A falha está na estrutura, porque a informação da terapia orgástica não chega nas pessoas pretas. Então eu sentei com uma amiga e decidi levar isso para as mulheres pretas, decidi fazer um workshop.

AzMina: E como ele é feito?

Kiran: Ele é dividido em duas partes. Primeiro o workshop, no qual apresentei as questões ligadas à sexualidade feminina e faço uma demonstração de massagem. A princípio, era só isso. E esse primeiro encontro mexeu muito com todas as mulheres, elas falaram que precisam ficar mais juntas, falar mais sobre prazer, porque ninguém nunca fala.

Daí surgiu a segunda etapa, que são vivências, para trabalhar mais o corpo, por meio da dança, massagem e meditação ativa. Além disso, eu fiz um acordo com o espaço onde trabalho, para que o valor da sessão seja menor para as mulheres negras. Eu digo para pagarem o quanto podem e trabalho com a sinceridade.

AzMina: Como tem sido o resultado?

Kiran: O primeiro foi em setembro, já foram cerca de 25 mulheres. Eu tenho vivido um encantamento de poder fazer parte dessa transformação e dessa mudança na vida da mulher preta. Porque o corpo da mulher preta ainda sofre registro de lá da senzala. Ainda tem muito esse lugar do corpo que é visto como objeto. E o trabalho é de tirar isso e ela saber que, por ela mesma, é muito mais potente do que através de uma outra pessoa. É um empoderamento através do prazer.

Mas para mim não tem surpresa, porque eu sou preta e eu sei o que elas estão sentindo. É uma libertação acessar isso de uma igual, que vai entender o que você está falando e sentir o que você está sentindo. Cada mulher tem um processo particular, claro, não dá para por em uma caixa. Mas tem esses pontos em comum.

AzMina: Por que é importante ter esse recorte de raça ao falar de empoderamento sexual da mulher?

Kiran: É extremamente urgente na real. Porque embora nós pretos estejamos num lugar diferente, onde agora temos fala, onde temos consciência de como tudo vai surgindo nessa falha estrutural da sociedade, a gente precisa experimentar isso. Não adianta explorar só os conceitos do racismo, quando existe uma memória no seu corpo de abuso, negação, não aceitação, exclusão. Então trazer essas memórias do corpo para uma resolução potencializa. E a potência do prazer, do orgasmo, ela é muito resolutiva.

A mente leva muito tempo para assimilar, o corpo não, ele é resolutivo.

Então quando tem essa integração e a consciência do prazer, enquanto mulher preta, é libertador e emocionante.

AzMina: A gente tem falado muito em empoderamento sexual da mulher, pois a sexualidade da mulher ainda tem muitas questões a serem encaradas. Mas quais questões você acha que são particulares ou mais problemáticas em relação à sexualidade para a mulher negra?

Kiran: Pesa muito esse lugar do corpo como um objetivo e da sensualização. Esse lugar do externo, do estar à disposição. Só que é uma disposição que é para o outro. Então você percebe que essa disposição não é para o outro, é para você. Isso, para mim, é quando fecha a experiência. Traz um enraizamento e a conexão com a ancestralidade.

A mulher preta tem uma ancestralidade muito forte, é muita luta envolvida .

E é importante chegar num momento que é de amor, de cuidado e restauração. Com amor próprio você se liberta. Não se coloca mais em condições que não sejam favoráveis para você.

AzMina: Por que você acha que a mulher negra não tem tanto acesso a espaços como o da terapia tântrica?

Deva: Não é só no tantra. Eu caminhei por alguns lugares, heike, ayahuasca… Todos ainda são lugares só do branco. Não porque só os brancos têm acesso. Eu não posso pensar que toda pessoa preta não pode pagar, não seria correta. É porque a falha na nossa sociedade com o preto ainda é estrutural. A gente ainda precisa falar: não sou objeto, não sou submissão, não sou frágil, não sou feio.

Mas essa estrutura está sendo reconstruída e eu prefiro não ficar falando do lugar da violência, das negações, dos traumas. Eu prefiro falar do lugar de restauração. Uma amiga me falou: “isso que você está fazendo é política”. Porque pra mim é efetivo essas mulheres terem acesso a essa informação. Se eu, enquanto mulher preta, tive acesso a essa ferramenta, eu quero que todas minhas irmãs pretas tenham acesso. Porque transformou minha vida.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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