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Literatura na quarentena: que tal ler mais mulheres?

por Bruna Escaleira
8 de junho de 2020
Ao lutarmos por outros mundos possíveis, é a literatura escrita por mulheres que lida com a missão de criar outras realidades

por Raíça Augusto*

Há três anos, comecei a ler o terceiro livro da série Minha luta, do autor norueguês Karl Ove Knausgard. Os dois primeiros volumes tinham me intrigado por conta do gênero autobiografia, mas algo não andava bem no decorrer da minha leitura dessa sequência. Larguei o livro pela metade e abri Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. A personagem Ifemelu me acompanhou pelo processo de descoberta desta autora nigeriana e, ao finalizar a obra, fiz uma autoproposta de só ler mulheres ao longo daquele ano. 2017 acabou, mas a leitura praticamente exclusiva de mulheres me acompanha até hoje. 

Fiz toda essa introdução para divulgar um presente de quarentena: o curso online e gratuito “A escrita literária e a emancipação feminina” do Instituto IPIA – Comunidade de Pensamento do Rio de Janeiro. Como moradora de São Paulo, não havia tido a chance de participar dos encontros. Porém, com a convicção de que feminismo é política e de que as reflexões a partir do debate da literatura não devem estacionar durante o isolamento social, o IPIA disponibilizou gratuitamente as seis aulas desse curso que alia feminismo e escrita de mulheres. 

A pergunta inicial feita pela professora Viviana Ribeiro é centrada na questão “por que ler mulheres?” ou “por que ler exclusivamente mulheres?”. A partir desse mote, abre-se o diálogo com as autoras Virginia Woolf, Ana Cristina Cesar, Siri Hustvedt, Elena Ferrante, Chimamanda Ngozi Adichie e Conceição Evaristo. 

Cada encontro tem, em média, duas horas de duração e nos guia pelo entendimento de que, na medida em que as mulheres foram proibidas de existir e de realizar qualquer atividade na esfera pública, toda a tradição literária é um reflexo dessa exclusão. Ao lutarmos por outros mundos possíveis, é a literatura escrita por mulheres que lida com a missão de criar outras realidades, outras personagens em situações diferentes daquelas que nos colocaram os autores homens tradicionalmente estudados dentro dos espaços acadêmicos.

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A condução da professora é primorosa, pois, ao trilhar uma leitura da crítica escrita pelas autoras citadas acima e de suas obras ficcionais, revela a potência política de cada uma. Afinal, se elas criaram e ainda criam experiências inovadoras na arte, é aberta a possibilidade de refletirmos tais experiências na vida. Para além da reparação histórica, visto que sempre fomos apartadas da escrita pública, a reflexão voltada para a obra dessas escritoras manifesta como o mundo pode mimetizar a arte – daí a importância de que seja dado cada vez mais lugar dentro das nossas estantes às autoras.

Curiosamente, no final do terceiro encontro do curso, o autor norueguês que me fez praticamente desistir da literatura escrita pelos homens foi citado. Viviana Ribeiro revelou, sem saber, o motivo, inconsciente até aquele momento, do meu abandono da série. A professora cita a crítica de Siri Hustvedt sobre a obra de Knausgard: um dos grandes interesses causado pelos seis volumes da série Minha luta foi justamente o fato dele ser um homem escrevendo sobre a dificuldade de ser um escritor e realizar as mesmas tarefas que normalmente são associadas às mulheres, como trabalhar em casa, arrumar o espaço doméstico e cuidar dos filhos. Se fosse uma mulher a autora desses seis longos livros, a obra seria considerada banal, mais do mesmo, um relato como outro qualquer. 

O jornal El País, em 2017, publicou uma matéria sobre o autor com o seguinte título: Karl Ove: “Minha luta é escrever ao mesmo tempo que viver a vida cotidiana”. Não é difícil observar, já nesse trecho curto de sua fala, que as circunstâncias de trabalho expostas por Knausgard são as mesmas que regulam o dia a dia das mulheres, como identifica Hustvedt em um dos ensaios que compõem o livro A Woman Looking at Men Looking at Women. Ao narrar sobre o cuidado, o carinho e, ao mesmo tempo, a irritação com os filhos e os problemas na relação conjugal, o autor expõe a dificuldade coletiva de perceber, dentro do sistema patriarcal, as condições adversas que envolvem o desenvolvimento de um trabalho, qualquer que seja, artístico ou não. Não ter com quem dividir as tarefas domésticas e o cotidiano das crianças, por exemplo, é o que a maioria das mulheres escritoras enfrentaram e ainda enfrentam como barreira para a publicação de seus trabalhos. 

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Ao repensarmos o ofício artístico e nossa responsabilidade como consumidoras de arte, de cultura, faz-se essencial lembrar que os objetos artísticos produzem afetos, na medida em que interferem na nossa percepção de mundo. Afinal, importa quem assina a obra? E aqui, a resposta é clara: importa, e muito, uma vez que nossa recepção sensível está condicionada ao gênero da autoria.

O curso fica disponível gratuitamente até 27 de junho neste link.

*Raíça Augusto é professora de literatura, atriz, sagitariana e apaixonada pela literatura escrita por mulheres. É graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Atualmente, sua pesquisa de mestrado é realizada na Escola Superior de Artes Célia Helena e tem como foco a escrita de uma dramaturgia performativa feminista. É integrante do grupo vocal Vozeiral e da Cia Temporã de teatro.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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