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Listamos dez artistas independentes para ficarmos de olho em 2019

por Hard Grrrls
12 de janeiro de 2019
A resistência por meio da música ganhará ainda mais importância daqui para a frente. Veja quem promete marcar este ano com produção autoral forte

Em tempos de incertezas políticas e intolerância, crise da indústria fonográfica e negligência à produção artística, a volta as origens e o lema Do It Yourself (ou Faça Você Mesma) nunca fez tanto sentido. E, assim, evidenciar a importância do ser autoral, de se unir de forma autogestionada, ter a música como autoconhecimento e resistir através dela.

Listamos aqui dez artistas que apostam na produção independente para espiarmos seus trabalhos durante esse ano de 2019.

Papisa

Papisa em “Disco em Processo” – Fotos de Lúcia Ellen

Papisa é o projeto solo da multi-instrumentista, cantora e compositora Rita Oliva. Ela traz consigo uma magia introspectiva e aura de bruxa moderna que, em novembro passado, foi exposta na série de três encontros intitulados “Disco em Processo”. Esses encontros foram uma abertura da criação do seu próximo álbum,  previsto para o primeiro semestre de 2019. Os assuntos abordados foram composição, letras, produção musical, gravação em home studio, rituais e ferramentas de autoconhecimento na criação.

Para nós, as rodas de conversa foram uma troca de saberes e trouxeram uma dinâmica de “roda-terapia” em que há suporte e incentivo mútuo à produção artística autoral.

“Mais do que nunca é o momento para gente se reunir e se fortalecer, estar lado a lado e continuar nosso aprendizado” (Rita Oliva)

Saskia

Foto de Juliana Krupahtz

Oriunda de Porto Alegre-RS, desde 2010, a cantora, compositora e produtora musical grava suas músicas no melhor estilo “Faça Você Mesma”. Adepta ao lo-fi, suas apresentações são viscerais e exploram sua voz em melodias repletas de personalidade e questionamento. Já se apresentou em festas como Cerne e Vorlat. Consciente, mulher, negra, brasileira, Saskia busca a evolução e compreensão de sua arte por parte de si mesma e do seu público em plena formação.

2019 promete ser um ano intenso para ela. Seu primeiro álbum oficial sairá no primeiro semestre numa parceria com o selo feminista Hérnia de Discos. Este álbum reúne o melhor da criação da artista desde os primórdios, em 2010, até o momento atual. Todas as faixas foram regravadas e reeditadas. Ao mesmo tempo, priorizou-se uma edição majoritariamente feminina. No segundo semestre a artista vai lançar um trabalho com músicas inéditas e participação de produção da dupla Negro Leo e Ava Rocha. Patrocinado pela Natura Musical, Saskia mergulha ainda mais em experimentações que misturam sonoridades de raiz brasileira com as batidas eletrônicas já presentes em seu trabalho.

Mariana Degani

(Foto de divulgação)

A cantora, compositora e artista visual Mariana Degani se multifaceta em ritmos e imagens. Em suas apresentações, uma enorme janela luminosa de vídeoprojeções se abre onde filmes e animações, produzidos pela artista e sincronizados com cada música, pintam a cena com narrativas visuais. Com sons e imagens, Mariana cria pontes para abordar temas atuais e propor questionamentos.

Acompanhada do multi-instrumentista Remi Chatain, ela conduz o público a uma viagem sinestésica. Seu primeiro disco FURTACOR (2016), que tem produção musical de Remi, foi lançado no Auditório Ibirapuera e a bordo da Kombi amarela AMARilda, que teve 7.000 kms percorridos em mais de 20 shows em cada giro pelo Brasil e outros países da América Latina. Também foi apresentado em festivais e salas pela França, Espanha e Portugal.

A produção de seu segundo disco se inicia com 2019 e será lançado em duas etapas: no primeiro semestre Mariana apresenta três composições audiovisuais e no segundo o disco completo. Contrapondo a fluidez em diferentes estilos e as diversas camadas do primeiro álbum, Degani constrói uma atmosfera mais árida, mistura beats e sonoridades eletrônicas a percussões e harmonias orgânicas. A voz, além de cantar a mensagem, é muitas vezes sampleada para virar textura rítmica.

“Estamos cantando, tocando, produzindo e compondo mais do que nunca… Ocupando lindamente espaços que nos foram e ainda são negados. E cada vez mais juntas, nessa ressignificação do que é ser mulher. Revolução pura.” (Mariana Degani)

Anti-corpos

(Foto de divulgação)

Anti-Corpos é uma banda lésbica feminista de hardcore hoje radicada na Alemanha. Formada em 2003, Praia Grande-SP, por duas amigas de 13 anos, a banda teve sua história contada aqui. Elas anunciaram uma turnê brasileira em março de 2019 com uma nova formação: Adriessa no vocal, Marina no baixo, Andrzej na guitarra e Helena na bateria. Além disso, participam da coletânea “À Beira do Caos – Tributo Bulimia” (uma homenagem à extinta banda de Brasília), idealizada pelo coletivo Maria Bonita Fest que conta com um financiamento coletivo para tornar real essa coletânea (colabore)!

Marcelle Equivocada

(Foto de divulgação)

Marcelle é uma “cantautora” sergipana radicada em São Paulo desde 2010. Fluida, cada fase da carreira leva consigo o nome do trabalho atual. “Equivocada” é o nome de seu segundo álbum, lançado em 2017, cuja sonoridade traz um balaio completo de referências visuais que permeiam o imaginário da cantora. Com esse trabalho, Marcelle se apresentou em diversos palcos como Sesc, Festival Sonora, na Semana Internacional de Música de São Paulo (SIM-SP), Audio Rebel e Escritório (ambos no RJ).

Em 2019, lança o “Disco Nexo” seu terceiro álbum solo. Segundo Marcelle, esse trabalho terá uma vertente mais eletrônica e pop que o “Equivocada” e encerra em definitivo esta fase.

“A partir do novo ano eu devo ‘mudar de personalidade’ e virar marcelledisco.nexa” (Marcelle)

Gali

Fotos de Maria Moreira

GALI é o novo nome artístico da cantora e compositora Camila Garófalo.  Nessa sua nova fase, ela resgata suas raízes do interior de São Paulo inspirada pela viola caipira. Misturada com o que aprendeu em dez anos radicada na capital paulista, cria outras possibilidades dentro da nova música brasileira. Militante da causa LGBTQAI+, aborda em suas letras a temática da mulher lésbica e de sua desconstrução dentro da questão de identidade de gênero. O Festival Psicodalia (PR) será palco para uma de suas primeiras apresentações com o novo disco, a ser lançado pelo selo SÊLA em 2019.

“A importância da música para a resistência feminista é continuar sendo resistência feminista para a música” (Gali)

Cosmogonia

(Foto de divulgação)

Cosmogonia é uma das bandas pioneiras do Movimento Riot Grrrl no Brasil, formada em 1993, em Osasco-SP. Entre 1998 e 2006, gravou alguns singles, participou de coletâneas e se apresentou em diversos festivais de hardcore pelo Brasil, inclusive nos saudosos festivais da Hard Grrrls no Hangar 110. Dividiu palco com Bulimia, Dominatrix, Biggs, NX Zero, CPM22, Inocentes entre outros expoentes da música independente.

Em 2017, depois de 12 anos de hiato, três integrantes se reencontram e decidem reviver a banda. Karol assumiu o posto de baixista e acompanhou a banda durante todo o ano de 2018. De volta com força total, se apresentaram em festivais como Oxigênio, Warriors Festival e Fuzz Fest, também marcaram presença nos atos políticos como no Primeiro Ato do Hardcore Contra o Fascismo.

A formação atual conta com Gabi nos vocais, Maria Esther na guitarra, Dani na bateria e Fernando no baixo, mantendo o intuito de transmitir o feminismo e o empoderamento feminino com muita musicalidade. Um single está em pós produção, gravado nos estúdios do Family Mob, através da Experiência Family Mob, está em pós produção e deve ser lançado até em fevereiro. Para o ano de 2019, a banda pretende lançar um EP.

Luna França

Foto de Bia Trabachin

A música está em sua vida desde o berço, nascida numa família musical, já acompanhava nos backing vocals de seu pai, Dudu França, desde os 15. Iniciou sua carreia como cantora de Bossa Nova e Jazz pelas noites paulistanas quando André Whoong, amigo de infância, a convidou para tocar teclado no projeto dele. Mesmo não se considerando instrumentista, ela aceitou o desafio. De 2015 para cá, estudou muito, se posicionou como tal e, desde então, já dividiu palco com Rafael Castro, Tiê, Papisa entre outras bandas. Iniciou seu processo de composição nesse meio tempo e em 2017, num projeto Duo com Rafael Castro, se apresentou no Teatro do Centro da Terra pela primeira vez tocando suas músicas autorais. Isso a encorajou: “Sempre tive muita vergonha de mostrar as minhas músicas”, revela Luna. Hoje, está em coprodução de seu EP ao lado de André Whoong, a ideia é lançá-lo no primeiro semestre de 2019.

“Esse trabalho tem sido uma descoberta: primeiro a cantora, depois a instrumentista e agora compositora e produtora musical.” (Luna França)

Transe

Foto de Victória Dessaune

Transe é um duo capixaba do casal de compositores Francesca Pera e Fernando Zorzal. Com influências que vão da música popular brasileira ao rock, o duo estreou em janeiro de 2018 no Festival de Verão do Balaio Hostel (Trancoso-BA). Suas músicas falam sobre o cotidiano da vida moderna: urgência da vida urbana, novos moldes para a família, um corpo sempre em construção. Em outubro de 2018, com Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens) no comando da produção musical, o duo iniciou as sessões de gravação de seu primeiro disco. Há diversos convidados ilustres do circuito musical atual participando dessa produção, como os bateristas Henrique Paoli (André Prando, Melanina MCs) e Natália Arrivabene (Xá da Índia, My Magical Glowing Lens), além de três baixistas Yasmin Nariyoshi (As Alquimistas, Gabriela Brown), Jackson Silva (André Prando) e Manel Fogo (Fepaschoal, Xá da Índia).

Malka

Foto de Nu Abe

Malka é luta e poesia em forma de mulher! Multi-instrumentista (inclusive foi a primeira musicista trans a se apresentar na Sala São Paulo), produtora musical, professora de canto e proprietária do estúdio 3dB Áudio. Lançou  em 2018 dois singles: “Pimenta”, que, apesar de ser uma música de protesto, nos revela a força, autoestima e amizade compartilhada entre a comunidade trans, nas imagens captadas por Nu Abe aqui em São Paulo; e “Olhos negros”, um clipe que conta com participação de Aretha Sadick e mostra o amor entre duas trans. Podemos aguardar novos singles e quem sabe um álbum completo.

“Eu ando me perguntando o quanto esse formato antigo de disco e EP ainda funciona, hoje eu vejo 2019 com uma outra cara… Mais um lance que tem a ver com single e clipe, como a maior parte das artistas estão fazendo por ai” (Malka)

Faixa Bônus: Trava Bizness

Primeira gravadora focada em artistas trans, onde todo o trabalho é desenvolvido de forma independente por corpos transvestigêneres, buscando por meio da música fortalecimento, autonomia, resistência e visibilidade dessa comunidade. A gravadora desenvolve o trabalho de produção musical, consultoria e distribuição, além de produção de conteúdo audiovisual.

Idealizada pela Malka, atualmente a gravadora produz artistas como Kiara, DJ residente da festa Batekoo, a dupla PamkaPauli, que nasceu dos slams Marginália e Batalha Dominação, Veni, do grupo performático queer Animalia, Dallas Guebara, revelação pelo festival Mix Brasil 2018, e conta com Nu Abe na produção de imagens e videoclipes.

 


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