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3 de maio de 2021

Tudo no sigilo

Pra pegar mulher gorda, só se for escondido
Arte: Nazura/ AzMina

Dei meu primeiro beijo aos 14 anos. Foi numa noite de sábado, em um bailinho da escola, com um menino do colégio vizinho. Foi tudo meio de repente, combinado pelas amigas. Eu nem tinha saído de casa preparada para beijar naquele dia, mas aconteceu. O primeiro beijo foi atrás da quadra de esportes, e foi bem ok, para falar a verdade; esquisito e excitante ao mesmo tempo, com dente batendo e a preocupação de “o que será que eu faço com a minha língua?”.

Passei o restante do final pensando naquele beijo, mas qual não foi a minha surpresa quando, ao reencontrar com o garoto na segunda-feira, ele fingiu que não me conhecia; desses que viram a cara pra gente na rua mesmo. Apesar de chateada, segui com a vida, mas só fui entender o que aquilo significava algum tempo depois, quando ao ficar com um outro cara em uma noite do pijama na casa de uma amiga, rapidamente ele espalhou para a escola toda que só tinha ficado comigo porque estava bêbado. Era mentira.

A história circulou e eu ouvi gente dizendo que, para ficar comigo, nem bêbado adiantava. Só se estivesse sob o efeito de drogas, mesmo. Doeu muito, e dói até hoje. Entendi que aquele comportamento dos garotos, aquela aversão toda de ser visto ao meu lado, era porque eu era – ainda sou – gorda, e em uma sociedade na qual as mulheres são vistas como troféus, quanto mais padronizadas elas são, mais atraentes elas se tornam.

Eu não me encaixava naquele padrão, que era social e também midiático e que, àquela altura, final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, cultuava o corpo e uma magreza inatingível a todo vapor. Mais do que isso, rechaçava os corpos das pessoas gordas sem a menor cerimônia. Alvo de piadas, associadas à tristeza, àquilo que é sujo e repulsivo. Assim corpos como o meu eram representados; assim eu era vista por quem nem me conhecia, mas me julgava daquela forma.

Leia mais: Como a mídia cria estereótipos que impulsionam a gordofobia

Os encontros escondidos tornaram-se recorrentes e os locais para esses encontros, cada vez mais perigosos. Dos fundos da quadra da escola para um morro, terrenos e até casas abandonadas. Tudo podia acontecer, e tudo acontecia, mas eu não me dava conta do tamanho do risco que eu estava correndo naquele momento. Isso porque por trás de uma pretensa liberdade sexual, o que eu queria mesmo era carinho, atenção, afeto… Mas as despedidas vinham acompanhadas das frases: “ninguém precisa saber” ou “esse será o nosso segredo”. Que dor.

Há um pacto de sigilo ao se relacionar com uma mulher gorda. Tanto que BBW, sigla para Big Beautiful Women em inglês, que em tradução livre significa Mulher Grande Bonita, está entre os termos mais pesquisados em sites pornográficos, segundo a análise anual do site Pornhub de 2019. Há um pacto também em relação ao abuso, comprovado em pesquisa científica, uma vez que a dificuldade de meninas e mulheres em negociar com seus parceiros a respeito do uso do preservativo e as condições de sua relação também é apontada em estudos sobre o tamanho dos corpos dessas meninas e mulheres, como mostra a pesquisa “Estudo do perfil antropométrico, estilo de vida e comportamento sexual de adolescentes do programa saúde na escola”, de Denise Soares Cirqueira. 

Quando se é rejeitada de maneira tão violenta em suas primeiras relações de afeto sexual, cria-se um padrão de compensação no qual quem sofre a rejeição parece estar sempre em débito. É como se quem aceitasse se relacionar com você estivesse fazendo um grande favor. Afinal “quem quer ficar com uma gorda, não é mesmo?”. Nisso, passam a ser normalizados comportamentos abusivos das mais diversas formas; fossem físicos ou psicológicos.

Leia mais: Gordura é doença?

Das relações íntimas para a vida, esse processo de compensação nos acompanha a vida toda, nos colocando em um eterno estado de sobrecarga para simplesmente conseguirmos existir nesse mundo. Para compensar o estereótipo da preguiça, exageramos no trabalho; para compensar o estereótipo da sujeira, desenvolvemos transtornos obsessivos compulsivos por limpeza, e por aí vai.

Por isso que falar sobre gordofobia é muito mais que falar sobre padrões estéticos e beleza, embora nesse aspecto esteja uma boa parte da discussão que começa a ganhar os holofotes midiáticos contemporâneos. Falar sobre gordofobia é falar sobre respeito e dignidade, sobre o direito que todes deveríamos ter a partir do momento em entra ar em nossos pulmões pela primeira vez, mas que nos é negado todos os dias porque nossos corpos não são admitidos como dignos: o direito de viver e ser.

Agnes Arruda sempre soube que era tratada diferente por causa do tamanho do seu corpo. Quando entendeu que o problema não estava nela, mas sim na gordofobia, nunca mais viu o mundo da mesma forma… E isso inclui os meios hegemônicos de comunicação. Jornalista, mestre e doutora em Comunicação, dedica-se a investigar e a denunciar a relação da gordofobia com a mídia. Hoje dá continuidade a este trabalho, extrapolando as barreiras da comunidade acadêmica, com o projeto Tamanho Grande, disponível como canal no YouTube, perfil no Instagram e também em podcast.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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