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Descansar deveria ser um direito de todos

por Cristiane Guterres
29 de julho de 2020
Pensei que este perfil de mulher de sucesso me colocava numa obrigação de ser excelente e eu acreditava que excelentes nunca dormem.

Alecrim, cebola, abóbora, água mineral, suco de uva, iogurte, queijo, abacaxi, chocolate, incensos, vibrador, cristais: quartzo rosa, ametista, esmeralda, velas e óleos essenciais.

Parece minha lista de compras, mas na verdade é minha lista de itens para uma fuga bem orquestrada de três dias em nome da minha sobrevivência mental e espiritual. 

Consegui uma casa emprestada com amigos. Aluguei um carro e estou fugindo. Pretendo passar os próximos três dias sem ser localizada por aplicativos de mensagem ou rede social. Num lugar onde eu possa me esconder de todos menos de mim. 

Uma das coisas que mais me dão prazer na vida é viajar. De preferência para lugares onde eu possa alugar um carro e ser dona do meu destino a qualquer hora. Amo dirigir na estrada. Sempre sonho com narrativas bem hollywoodianas de vento na cara, som alto no rádio, óculos escuros e um lenço dançando ao vento sobre o meu pescoço como nos filmes dos anos 80. Acorda menina! A realidade não é essa. De verdadeiro nesta viagem carrego a vontade e o desejo de estar comigo. 

A minha maior necessidade atual é estar sozinha para tomar grandes decisões. Desde que iniciamos o período de isolamento social  venho trabalhando como nunca em minha vida. Tendo que fazer escolhas que impactam na vida de várias pessoas e me jogando em diversas atividades remuneradas para que eu consiga no final do mês juntar os recebidos desta com aquela e pagar os boletos. 

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Parar em meio a este caos é privilégio de poucos. Eu sei o quão valiosa é esta oportunidade de respirar por três dias numa casa inteira só pra mim. E o quanto esta vantagem me coloca em um patamar à frente da maioria das mulheres brasileiras que são o grupo de pessoas mais atingidas pelas dificuldades geradas pela pandemia de Covid-19.  

Descansar deveria ser um direito de todos. Ainda mais nós mulheres que cumprimos dupla ou tripla jornada. Inúmeras vezes eu achei que estava perdendo tempo e dinheiro descansando. Pensei, por muito tempo, que este perfil de mulher de sucesso me colocava numa obrigação de ser excelente e eu acreditava que excelentes nunca dormem. 

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Lembra desta frase que foi muito compartilhada nas redes? “Trabalhe enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam, e então, viva o que eles sonham.”

Tudo balela, deve ter sido escrita por algum riquinho que nasceu com a bunda pra lua numa tentativa de tornar palatável a meritocracia. 

Não caia nesta, descanse! Respire e inspire. Olhe pra você. Encontre cinco, dez quinze minutos por dia só pra você. Nem que seja no banho. Mas não deixe de se desligar do mundo externo para se ligar a você mesma. 

Tenho feito muita meditação nos momentos em que paro. Tem sido uma grande aliada desde que minha vida se transformou há um ano quando perdi minha mãe. Desde então fui em busca de terapias e alternativas que pudessem me auxiliar a passar por este momento de perda e, principalmente, sem ter que investir muito dinheiro. Tenho me encontrado na meditação e na aromoterapia. A cada dia me sinto mais conectada comigo, tenho mais facilidade para entender sobre meu corpo e ganhei mais tranquilidade para viver este meu último ciclo e transformar dor e reflexão em progresso.

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Pode parecer um absurdo eu dizer o quanto é importante meditar, acreditar e respirar quando a maioria de nós sai de casa na madrugada pra trabalhar e estamos expostas a uma rotina de agressões do começo ao fim do dia. Do transporte para o trabalho à relação familiar. Mas acredite, cinco minutos diários podem te transformar. E que não seja a meditação, mas que seja ouvir no escuro a sua música favorita, que seja uma oração, que sejam poucos minutos de reflexão e descoberta para a pessoa mais importante do universo, você.   

Eu aprendi a ficar sozinha em muito momentos da minha vida para aprender que não vale a pena ceder a qualquer companhia. Eu percebi que ou eu aprendia o quão era bom estar comigo ou eu iria sempre ceder a relacionamentos não saudáveis só pra construir uma história romântica aos olhos da sociedade. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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