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21 de dezembro de 2020

Como você consegue dar conta de tudo?

A pergunta na verdade é como eu conseguia dar conta de tudo. Desde que me tornei mãe a cena de mulher realizadora está mudando

Uma das perguntas que eu mais ouço é: como você consegue dar conta de tudo?

Empresária, jornalista, colunista, apresentadora, escritora, podcaster… Ufa! Até eu me cansei só de lembrar o que eu faço. A pergunta na verdade é como eu conseguia dar conta de tudo. Sim, o verbo precisa ser conjugado no passado porque desde que me tornei mãe a cena de mulher realizadora no campo profissional está mudando.

A começar por esta coluna, acredito eu que está atrasada há uns quatro meses. Não é falta de criatividade para escrever, é falta de tempo mesmo. Desde que meu filho chegou estou reorganizando minha rotina diária de trabalho. Para mim, que trabalho criando, é imprescindível uma rotina organizada que permita disciplina para desenvolver as diversas atividades que amo e me sustentam, mas a chegada de um filho bagunça tudo e coloca em xeque qualquer organização.

Me tornei mãe por via adoção de um menino que na época tinha 15 anos e agora, um ano depois, fez 16. Nossa relação foi o maior presente que eu poderia ter recebido. É preciso muita coragem para se disponibilizar a amar um adolescente em plena atividade efervescente hormonal. Eu tenho consciência disso. Por mais que, para mim, a construção desta relação tenha se consolidado de maneira natural, eu sei que no mundo são poucas as pessoas que topam este desafio que o amor me proporcionou.

Eu sou mãe solo e ser mãe solo é muito foda! Nem vou me desculpar do palavrão porque não haveria outra palavra que expressasse o trabalho que dá cuidar e educar um ser humano. Eu sei que dou conta, mas eu preciso dizer que é um job surreal. Seja como no meu caso, em que eu escolhi criar meu filho sozinha, ou seja no caso de mulheres que são abandonadas pelos companheiros na atividade, muitas vezes estando ainda no relacionamento. É muito foda!

Tem o médico, o dentista, a escola, as angústias, a festa de aniversário, os presentes, a polícia no caso de um jovem preto, a namorada, o medo de que a namorada fique grávida. Leva na psicóloga, no trabalho, na casa do amigo, no shopping. Compra roupa, cueca, celular, mochila, tênis e camiseta. O menino quer ter um cachorro. Não filho você num vai ter nem uma lagartixa. O menino quer ir no baile da 17, não filho você sozinho num vai nem na esquina.

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Esta listinha é só pra começar, porque no meu caso tem a assistente social, a psicóloga os profissionais do abrigo, o juiz e a advogada, todo mundo quer saber se eu estou cuidando direitinho do menino. O tempo todo tem alguém questionando se eu vou conseguir e na maioria das vezes este alguém sou eu mesma.

Esta semana levei bronca da professora porque o menino não fez a lição. Onde você estava que não viu que o seu filho não fez a lição? A minha vontade era responder pra ela que eu tinha tacado um foda-se em tudo e estava gozando num motel barato com uma pessoa desconhecida, mas na verdade eu estava mesmo era trabalhando até altas horas porque a conta do dentista este mês extrapolou meu orçamento.

Não farei o papel da mulher moderna que dá conta de tudo e ainda é gostosa no final do dia nem que seja pra ela mesma. Eu sou um ser humano, eu erro, eu falho eu esqueço.

Nesse role todo de desventuras em série de uma mãe solo desesperada com as novas funções eu sou a mãe que se joga no tapete pra fazer cosquinhas até a barriga doer. Sou a mãe que fica abraçada enquanto o filho chora porque alguém disse algo que o feriu. Sou a mãe que entra na frente do filho num enquadro policial como aconteceu recentemente.

Sou a que dá bronca e depois chora e se vê consolada pelo próprio filho. Eu sou a que no fim do dia descobre que não deu conta de fazer todas as atividades do dia, mas vai deitar na cama tranquila ciente de que a principal atividade foi cumprida, eu amei e me deixei ser amada.

Leonina, jornalista, empresária, amorosa, Cris Guterres, é dona de um sorriso encantador e de uma imensa vontade de mudar o mundo com a sua voz. Seu perfil no Instagram é @crisguterres
* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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