logo AzMina
18 de novembro de 2025

Ação política das mulheres negras em marcha: legado e futuro

Ao longo da história, os feminismos negros transformam a luta por direitos e pela democracia no Brasil

Nós fazemos parte do Trust Project

Menina negra ao centro, sorrindo levemente, com tranças longas e blusa azul com listras finas; braços cruzados sobre o peito, postura confiante. Atrás dela, em colagem P&B, várias mulheres negras erguem os punhos e falam em megafones, formando um semicírculo que a envolve. Fundo rosa texturizado, sem elementos escritos. A composição destaca liderança e potência coletiva: a menina em cor viva à frente e as mulheres em preto-e-branco ao fundo sugerem continuidade entre infância, luta e futuro.

A ação política das mulheres negras tem percorrido um longo caminho e dado belos frutos no decorrer da história. Forjada em práticas e princípios elaborados por mulheres africanas e afrodescendentes, ela expressa os esforços coletivos e individuais pela busca da dignidade e do direito de serem reconhecidas como plenamente humanas. Essa força política se manifesta em diferentes tempos, contextos e formas de ação, mostrando a complexidade e a potência dos diferentes projetos das mulheres para o mundo. 

Como historiadora, tenho me dedicado ao estudo dessas experiências no contexto brasileiro durante o período escravista e no imediato pós-abolição. São numerosas as ações, orientadas ou não por ideias feministas, por meio das quais podemos conhecer esse legado e os desafios específicos que as mulheres negras enfrentam na política e numa sociedade que foi fundada sob violência, estruturas de exploração e dominação do escravismo. 

Não dá conta de acompanhar as notícias? Deixe que a gente te ajuda!

Feminismo bem informado

A luta histórica pelo direito à educação é um desses aspectos. Quantas de nós tivemos mães que sequer conseguiram estudar ou participar de movimentos políticos organizados, mas se dedicaram com afinco para garantir o nosso acesso aos estudos com a intenção de romper o ciclo do subemprego e da pobreza? Se observarmos experiências que aconteceram no passado, como a da família Cesarino no século 19, veremos que as estratégias das mulheres negras daquela época não eram muito diferentes das que vivenciamos hoje em nossas famílias e comunidades.

Esses episódios nos mostram como as experiências dessas mulheres são fundamentais para a construção de um campo coletivo de saberes no qual produzimos estratégias de sobrevivência para vivermos como mulheres negras. Também nos ensinam que, apesar disso, não existe um ponto de vista homogêneo, muito menos um modelo de ser e agir enquanto negra — o que implica em diferentes posicionamentos quanto às formas com que lidamos com a nossa condição social e histórica. 

Como Patrícia Hill Collins, eu acredito que “as mulheres negras não são super-heroínas destemidas capazes de conquistar o mundo, nem vítimas oprimidas que precisam ser salvas”. Mas, sim, pessoas capazes de reinventar o cotidiano em diferentes condições a partir do enfrentamento dos desafios impostos pelo racismo, pelo sexismo e pela exploração de classe. E de produzir uma sabedoria coletiva sobre modos de viver e imaginar outras sociedades. O feminismo negro é um desses projetos que têm como base a luta pela liberdade, dignidade e justiça social.

Leia Mais: Jornalismo por e para mulheres negras: elas querem bem viver, não só sobreviver

O papel do feminismo negro na História recente

Apesar da organização e das ações políticas de mulheres negras existirem desde muito antes, a década de 1970 foi um período importante para o fortalecimento do feminismo negro no Brasil, sobretudo por conta da atuação de ativistas como Lélia González. Não foram poucas as vezes que eu ouvi Sueli Carneiro dizer, por exemplo, que foi a Lélia quem “inventou” o que conhecemos hoje como feminismo negro. 

Lélia foi responsável por analisar, produzir e sistematizar questões importantes para a compreensão da situação da mulher negra brasileira. E, ao apontar os problemas da visão universal sobre a experiência das mulheres, chamou a atenção para as especificidades que definiam as vivências das mulheres negras. Expoente de uma geração que reinventou a forma de pensar a condição feminina e a questão racial no Brasil, a militante e intelectual negra teve um papel fundamental para a ampliação da atuação das mulheres negras nas décadas seguintes.

Em um mapeamento publicado nos anos 2000, Edna Roland identificou 18 coletivos de mulheres negras em atuação no Brasil entre 1980 e 1990. Ela destacou diversas iniciativas e atividades promovidas por e para mulheres negras no interior de organizações como o Movimento Negro Unificado, Unegro, Agentes de Pastoral Negros, Casa Dandara, Soweto, Centro Solano Trindade, Centro de Defesa do Negro do Pará, entre outras. 

Nesse período, também aconteceram dois encontros nacionais de mulheres negras, em 1988 e 1991, além do centenário da abolição da escravidão, que incitou uma série de discussões importantes sobre a situação da mulher negra no Brasil, como o Tribunal Winnie Mandela em 1989.

A década de 1990 também foi marcada pela ampliação da atuação do movimento negro em âmbito internacional, protagonizada pelo movimento de mulheres negras, sobretudo feministas negras. Essa atuação foi fundamental para que o Brasil ratificasse os primeiros acordos de combate às desigualdades de raça e gênero — ações que abriram caminhos para a formulação das políticas públicas de combate ao racismo no início dos anos 2000.  

Por meio dessas movimentações, as mulheres negras enegreceram o feminismo e reposicionaram o debate sobre a questão racial. Para nós, mais jovens, resta buscar formas eficazes de dar continuidade a essas lutas, realizar conquistas e nos preocupar com o futuro do feminismo negro, em um contexto de profundas mudanças políticas, econômicas e sociais. 

Leia Mais: Marcha das Mulheres Negras 2025: como chegar, onde ficar e como participar

Os retrocessos estão sempre à espreita

Apesar de estarmos vivendo um momento inédito na História do Brasil no que diz respeito ao tratamento da questão racial e de gênero, os retrocessos também são muitos. E muitos problemas centrais para a vida das mulheres negras continuam longe de serem resolvidos, como a questão do genocídio. No dia 28 de outubro de 2025, o governo do Rio de Janeiro realizou uma chacina com 121 pessoas mortas, a maioria jovem negro. As moradoras e os moradores do complexo da Penha e do Alemão fizeram buscas na mata e levaram os corpos dos mortos para a Praça São Lucas, onde familiares fizeram o reconhecimento de parentes. Algumas pessoas estavam com sinais de tortura e decapitadas. Uma reportagem apontou que o resgate dos corpos foi liderado por mulheres à procura de irmãos, companheiros ou filhos.

Mulher deitada de lado, encolhida, chora com o rosto apoiado no braço. Duas mãos a consolam nas costas e no braço. Ao redor, vários lençóis coloridos estendidos/alinhados no chão cobrem corpos mortos, formando faixas de vermelho, amarelo, branco e verde.
A chacina do Rio de Janeiro de 2025 foi a maior da história – Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O modo como o capitalismo neoliberal incide negativamente sobre a formação dos nossos valores éticos e morais e na nossa organização política é preocupante. E é lamentável a forma como determinados grupos e ativistas têm se posicionado e, por vezes, reproduzido a crença de que o empoderamento das mulheres negras pode acontecer sem o enfrentamento direto das estruturas que sustentam as desigualdades de raça, gênero e classe. No mesmo país que executa pessoas negras e pobres, ainda existe quem acredite que “a favela venceu”.

O Manifesto Econômico da Marcha das Mulheres Negras de 2025 evidencia a profundidade e a persistência dos problemas que continuam a atingir a maioria das mulheres negras no país e mostra como as dimensões da exploração racial e de gênero foram atualizadas. O endividamento, a pobreza, a informalidade no mercado de trabalho e as jornadas exaustivas, a falta de proteção social, o desemprego e a violência do Estado que acometem as mulheres negras são alguns dos temas que a Marcha Nacional levará para Brasília no dia 25 de novembro de 2025. 

Pautada na importância da reparação e do bem-viver, a Marcha é mais do que um ato, pois sintetiza um importante projeto que as mulheres negras têm construído para o Brasil. E reforça a necessidade de mantermos a radicalidade como princípio orientador das nossas ações políticas, uma vez que o sistema não amenizou — e tampouco pretende amenizar — os seus impactos.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Faça parte dessa luta agora

Tudo que AzMina faz é gratuito e acessível para mulheres e meninas que precisam do jornalismo que luta pelos nossos direitos. Se você leu ou assistiu essa reportagem hoje, é porque nossa equipe trabalhou por semanas para produzir um conteúdo que você não vai encontrar em nenhum outro veículo, como a gente faz. Para continuar, AzMina precisa da sua doação.   

APOIE HOJE