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Não fechei as portas porque não vamos voltar ao navio negreiro nessa pandemia

por Cristiane Guterres
15 de abril de 2020
Fechar as portas do meu restaurante em meio a crise seria deixar à própria sorte um time de mulheres que fazem a diferença nas periferias em que moram
Cris no Atrium, restaurante de sua família (Foto: arquivo pessoal)

Quando a crise gerada pelo coronavírus (Covid19) apertou e o governador de São Paulo João Dória decretou a quarentena oficial eu me senti bastante pressionada por pessoas próximas, amigos e conhecidos, a fechar as portas do restaurante que comando. Uma empresa pequena com 17 anos de existência, 11 funcionários diretos e 6 indiretos. 

Ouvi inúmeras declarações, principalmente da classe média branca, dizendo que eu deveria fechar e amargar as dificuldades, pois estávamos todos no mesmo barco. E cada vez que ouço esta frase, o único barco que me vem à cabeça é um navio negreiro.

Brancos e negros, ricos e pobres, todos no mesmo barco, mas nós sabemos exatamente de que maneira cada um viaja dentro da embarcação. A maioria negra sendo transportada de maneira dolorosa como mercadoria no convés, enquanto os europeus se refestelam confortáveis em suas cabines. Este é o barco. Nós brasileiros estamos neste “mesmo” barco. E todos nós sabemos quem ocupará as cabines e quem será esmagado no convés. 

Esta gente que insistia pra que eu fechasse o restaurante parecia não entender que para uma empresária como eu, fechar as portas é morrer, sucumbir, dobrar-se, envergar-se até falir. Sem faturamento não tem salários e sem salários eu coloco mais 18 pessoas no convés do barco para serem devoradas pela incerteza do mercado atual.

Neste “mesmo” barco em que nos colocaram quem viaja no convés é obrigado a dar sua vida pelo sustento de quem viaja na cabine. Isto sem falar no fato de que os profissionais essenciais como médicos, enfermeiros, policiais também precisam se alimentar. As pessoas precisam comer.

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Tenho clientes que moram em lofts onde não tem fogão, só microondas. Clientes idosos que não têm fogão, pois já apresentam sintomas de esquecimento pela idade ou por doença neuro-degenerativa. Existem inúmeros motivos do porque um restaurante também é um serviço essencial.

Eu não fechei as portas. Quando eu e minha família começamos este negócio, quase duas décadas atrás, nós não começamos pra fazer dinheiro, mas sim pra fazer a diferença. O Atrium Restaurante é uma empresa que tem em seu time de colaboradores uma maioria de mulheres, moradoras das periferias da cidade, quase todas chefes de família.

Nós sempre acreditamos na força da mulher e sabemos o quão grande é o impacto gerado na sociedade quando investimos numa equipe como esta. Fechar as portas em meio a crise seria deixar à própria sorte este time de mulheres que tem feito a diferença nas periferias onde moram com a independência financeira conquistada e a possibilidade de desenvolvimento pessoal que o Atrium oferece a elas.

 Decidi que continuar era imprescindível e nós reinventamos a empresa em cinco dias. Fechei as portas do salão. Deixei em casa metade da equipe para diminuir o número de pessoas circulando na cidade e dentro do restaurante. Afastamos as colaboradoras que estavam no grupo de risco ou que apresentavam familiares mais sensíveis à contaminação morando na mesma casa.

Reescrevemos nosso modelo de negócio, investimos no delivery, estabelecemos parcerias com profissionais também bastante atingidos pela crise, como os motoristas de uber, e rezamos. Rezamos muito. Rezei para todos os orixás. Pra mim, a espiritualidade é um componente indispensável ainda mais num cenário de incertezas como este. 

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Tem sido doloroso esse processo de reinvenção diária. Eu já não sou mais a mesma empresária de três semanas atrás. Nunca fez tanto sentido pra mim a frase “viva um dia de cada vez”. As respostas para os meus principais medos ficam cada vez mais escassas e as decisões e escolhas a serem tomadas crescem o tempo todo.

Hoje, o que a empresa tem conseguido faturar não paga os custos fixos, mas tem prolongado a entrada na reserva de emergência. 

Diante das incertezas, não sei quanto tempo conseguiremos sobreviver com um faturamento baixo e as tímidas medidas de apoio do governo. Aliás, esta ausência governamental tem dificultado para as empresas, empregados, profissionais liberais, todos os brasileiros. A única certeza que tenho é que fiz a escolha certa e que meus valores e meus propósitos continuam intactos, ainda que eu esteja vivendo só por hoje. 

Comida e amor a gente garante.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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