
Desde nova, eu sabia que queria trabalhar com futebol. Já passei pela fase de querer ser atleta, mas não sou craque. O jornalismo veio em seguida, sem nem imaginar o tamanho da responsabilidade e dos finais de semana perdidos. E às vezes eu mesma me pergunto: por quê?
Um lado meu é apaixonado pela adrenalina, pelas boas histórias e a identificação que move todo tipo de gente aos estádios — lugar que eu cresci frequentando com a minha mãe. O outro entendeu que o futebol é uma gigantesca máquina de transformação social, mas também é o espelho do que a gente ainda enfrenta na sociedade, no nosso país e no dia a dia: o preconceito, o descaso e a desigualdade.
A minha história como repórter no jornalismo esportivo começa por aí, na paixão e nas inquietações, mas também na insegurança de saber se isso era pra mim. Não foi a prática que me deixou pensativa, mas uma inadequação oriunda do racismo que insiste em perseguir mulheres negras desde cedo.
Mesmo sendo de uma geração com referências pretas nas telas, eu não tinha nada a ver com a maioria das mulheres que cresci assistindo. Do meu cabelo ao jeito de falar. Além disso, o jornalismo esportivo ainda é majoritariamente composto por homens e pessoas brancas.
Às vezes me pegava em rodas com pessoas com uma vivência totalmente diferente da minha. Eu não falava inglês, não havia saído do país, não tinha ido aos Estados Unidos e não tinha garantia financeira se tudo desse errado.
Leia Mais: O futebol não pode estar acima de pautas inegociáveis
Não podia abrir mão de mim
Confesso que essa sensação seguiu comigo durante os meus primeiros anos trabalhando, até eu entender que também era sobre não abrir mão de mim. O processo de me ver amadurecendo num espaço diferente da minha realidade me confirmou como pessoa.
Foi uma caminhada construída por muito trabalho (muito mesmo), mas também do encontro com pessoas que acreditaram em mim, seja por um freela, pela chance de fazer algo pela primeira vez, pelas dicas e até pela escuta nos dias exaustivos. Não fiz tudo sozinha.
As amizades femininas no caminho foram fundamentais. Sim, é possível criar laços num ambiente que insiste em impor a narrativa que só pode existir uma. Hoje, em São Paulo, existe um grupo com mais de 400 mulheres que trabalham diretamente com esportes. E um grupo no WhatsApp que serve de tudo, até encontros com churrasco, música e, claro, esporte.
Ainda assim, vivo atravessada por várias questões o tempo todo. O olhar de diferença ainda existe. O posicionamento que é transformado em agressividade também. Surgem perfis em redes sociais de gente sem rosto tentando diminuir o trabalho de jornalistas negras. Várias conquistas ainda são feitas na marra, e haja amigos e terapia para lidar com isso.
Só que também tem o outro lado (e que ainda me deixa bobinha): nós somos a possibilidade. Receber mensagens de garotas jovens que se enxergam em mim, assim como já me vi em outras repórteres, não tem preço. Me fez entender dia após dia que sim, a vida que eu vivo é pra mim também!
Leia Mais: Pessoas trans, o esporte também é um lugar para nós
A luta do futebol feminino no meu dia a dia
Não posso deixar de falar sobre o futebol feminino, que também faz parte do meu dia a dia. No Brasil, o futebol de mulheres ainda exige insistência. Insistir para existir, para permanecer e para ser levado a sério. Seria mais fácil se os obstáculos passassem apenas pela dificuldade de encaixar pautas nos grandes veículos, no entanto é mais do que isso.
As jogadoras enfrentam um calendário sucateado, a falta de estrutura de clubes milionários que não tratam o futebol feminino como prioridade. As barreiras passam também pela ausência de planejamento a longo prazo e pela constante sensação de que tudo precisa ser provado de novo, ano após ano.
Mas essa insistência, que passa por jornalistas, atletas, comissões técnicas, staff e tantas outras pessoas que dedicam a vida à modalidade, tem dado resultado. Ainda que em um ritmo mais lento do que deveria, os avanços são nítidos. Temos mais jogos transmitidos, aumento nas premiações, crescimento do debate sobre técnica, tática e desempenho, além de clubes que passaram a olhar para a modalidade com mais seriedade.
O cenário ainda está longe do ideal perto do potencial que o Brasil tem, mas já vemos exemplos como Palmeiras, São Paulo e Cruzeiro caminhando lado a lado com Corinthians e Ferroviária, clubes que se fortaleceram justamente por entender que continuidade importa.
Com todas as dificuldades, não tem como não sentir um orgulho enorme da trajetória das mulheres nesse esporte. Da proibição à invisibilidade enfrentadas pelas pioneiras, passando por anos de abandono institucional, hoje estamos ocupando espaços que nos foram negados por décadas. Agora estamos aguardando a Copa do Mundo de 2027, que vai acontecer no Brasil, em um cenário nacional muito diferente daquele que deixamos para trás.
Eu amo o que faço. E preciso fazer o que faço ao lado de tantas outras pessoas com os mesmos ideais. É só assim, na luta coletiva, que vamos garantir um futebol diferente e, sobretudo, justo, para quem joga, quem assiste e quem conta as histórias.
*Texto revisado com uso de IA
