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10 de fevereiro de 2026

Cabrochas, mulatas e passistas lidam com racismo e sexismo no mundo do samba

Walkiria Ribeiro e Mayara Santos falam de trabalho, desejo e os preconceitos que ainda marcam as experiências de mulheres negras no carnaval

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Colagem digital mostra duas mulheres negras em primeiro plano. À esquerda, uma mulher posa com a mão na cintura, usando um grande laço na cabeça e roupa com detalhes em amarelo neon. À direita, outra mulher sorri amplamente, com cabelo crespo volumoso, usando top e saia em tons de amarelo e rosa. O fundo é roxo e azul, com um arco estilizado em rosa claro atrás das personagens, criando um clima vibrante e afirmativo.

Quando eu comecei a estudar a obra de Lélia Gonzalez, me chamou a atenção a forma como ela aborda a figura da mulata em diferentes textos. Foi a primeira vez que me deparei com esse termo associado a uma categoria profissional. Até então, eu só tinha visto essa ideia vinculada às definições tradicionais que circularam no pensamento social brasileiro por meio da Medicina e da Literatura. Discursos que enfatizaram o fato do termo mulata ser derivado da palavra mula e que estabeleceram analogias entre esse animal e a prole oriunda das relações raciais entre negros e brancos. 

Nesse pensamento racista, essas mulheres eram associadas a uma conduta de desvios sexuais e eram tratadas como objetos do desejo dos homens brancos. Algum tempo depois, eu soube que as mulatas das quais Lélia falava eram um tipo de dançarinas de samba que surgiram entre as décadas de 1970 e 1980, nas boates do Rio de Janeiro

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A repercussão dos shows protagonizados por elas foi expressiva a ponto de uma casa noturna e uma “escola profissional de mulatas” realizarem cursos para a formação dessas dançarinas no Rio de Janeiro com o apoio do Senac e da Empresa de Turismo – Riotur

Como aponta a pesquisadora Sônia Maria Giacomini, uma das principais estudiosas do tema, tratava-se de trabalhadoras jovens, na faixa entre 20 e 27 anos, que exerciam funções de manicure, cabeleireiras, vendedoras de jornais, auxiliares de escritório, professoras e modelos – entre outras ocupações com baixos rendimentos naquela época. Além de dançarinas que sentiam dificuldades para circular no mundo da dança pelo fato de não serem brancas.

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Elas buscavam ascensão, mas encontraram inúmeras barreiras

Para elas, o curso de mulatas representava uma possibilidade de crescer profissionalmente, ascender à posição de atriz, ocupar cargos na televisão ou comprar a casa própria. Porém, o sucesso foi uma realidade para poucas.

De acordo com Lélia González, a mulata foi um produto criado pelo “sistema hegemônico” para exportação. Segundo a autora, essas mulheres eram manipuladas como objetos sexuais – para “o deleite dos turistas e dos representantes da burguesia nacional” – para referendar o mito da democracia racial. Para ela, a origem dessa profissão estaria na comercialização e na distorção do propósito das escolas de samba depois que foram invadidas pelas classes médias. Os “setores ditos progressistas” foram os responsáveis pela introdução de valores que culminaram nesse tipo de exploração sexual, social e econômica de jovens negras de origem pobre. 

Desde a infância, eu tenho simpatia pelo carnaval, mas apenas em 2023, eu ingressei na escola de samba Vai-Vai para desfilar na ala Força Alvinegra. Em 2025, eu me tornei passista dessa agremiação e, também, da tradicional Lavapés Pirata Negro, fundada por Madrinha Eunice. Essas experiências têm me feito refletir ainda mais sobre as posições das mulheres negras no mundo do trabalho, sobretudo, a partir desse fenômeno que aconteceu no passado recente – o projeto de profissionalização de uma categoria racial, algo quase impossível no Brasil de hoje. 

Por isso, achei interessante entrevistar passistas de São Paulo que viveram dois momentos distintos da História do Brasil para entender o ponto de vista delas sobre um tema tão complexo e sobre essa figura que ainda faz parte do mundo do samba, apesar da desconstrução do mito da democracia racial.

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Passistas viveram momentos distintos

A seguir, compartilho um pouco das perspectivas de Walkiria Ribeiro: atriz, ex-rainha de bateria e destaque das escolas de samba Vai-Vai, Peruche e Mangueira, princesa do carnaval de São Paulo (1997) e rainha do milênio (2000). E de Mayara Santos: professora de samba e empresária que atua há 34 anos em escolas de samba de São Paulo e ocupou posições de passista, musa, rainha de bateria, princesa do carnaval de São Paulo (2014) e diretora artística. 

Há 40 anos, Walkiria Ribeiro participa do carnaval paulistano e considera o mundo do samba um elemento fundamental para a sua formação enquanto artista e mulher negra. 

“Quando eu descobri que o primeiro palco que pisei era uma escola de samba, eu entendi que eu era artista. Dali para frente, tive que pensar sobre quais eram os palcos que eu queria pisar.”

Ao relembrar as vivências com outras mulheres maduras quando era passista, ela ressaltou que as cabrochas representavam uma possibilidade de ser livre diante de uma série de interdições sexistas que existiam na época. “As pessoas que não são do carnaval, às vezes pensam que é tudo uma putaria, festa profana e que as mulheres só querem mostrar o corpo, mas depende do ponto de vista que você vê. Esse corpo estava inserido em um contexto. Na avenida nós podíamos estar de biquíni. Isso era um lugar de protagonismo, de liberdade, sabe?”

Walkiria foi dançarina em casas noturnas e realizou shows fora do país como mulata. Quando questionada sobre isso, ela afirmou que ser mulata profissional tinha certo status. Afinal, representava uma possibilidade de projeção na carreira, de alcançar certa visibilidade e obter melhores rendimentos em um contexto histórico no qual as possibilidades de emprego para as mulheres negras eram piores do que na atualidade.

Retrato de uma mulher negra sorrindo amplamente, com a boca aberta e expressão de alegria. Ela olha levemente para cima, com as mãos erguidas próximas à cabeça. Usa cabelo trançado preso no alto, maquiagem marcante e batom escuro. Veste um blazer em tom neutro e vários colares dourados sobrepostos, incluindo uma gargantilha larga metálica. O fundo é escuro, criando contraste com a iluminação do rosto. A imagem é emoldurada por tons de roxo e rosa. No canto inferior direito, lê-se “Créditos: Rodrigo Lopes
Walkiria Ribeiro participa do carnaval paulistano há 40 anos – Foto: Rodrigo Lopes

Ao longo dessa conversa, ela apontou a desvalorização das passistas como um fator que prejudica a trajetória das mulheres dentro do samba. Principalmente, quando elas não são mais jovens e querem continuar participando do carnaval. Para ela, o etarismo é um problema que dificulta a permanência delas nesse espaço.

Esqueceram das passistas?

Ser passista exige cuidado com a saúde, investimento financeiro, treino e tempo – esforços grandes que, geralmente, são pouco reconhecidos. Ainda que o carnaval esteja se profissionalizando, é recorrente ouvir das sambistas que as cabrochas não recebem a valorização devida. E que isso se agravou ainda mais em um contexto de comercialização do carnaval e venda das posições de destaque nas escolas de samba.

“O samba ficou por último. O carnaval se comercializou e se profissionalizou. Hoje nós temos grandes intérpretes ganhando salário o ano inteiro. E a passista? Esqueceram? Aí a hora que ela quer ganhar uma grana, que quer usar da vivência como ferramenta de trabalho, as pessoas dizem: “ah, mas aí ela tá dando aula pra branco?”. De novo, as mulheres e o samba estão ficando em segundo plano. Eu acho que precisamos pensar em algumas mudanças nesse sentido”, analisa Walkiria.

Mesmo se orgulhando do período em que trabalhou como mulata profissional, ela reconhece que o acesso à informação foi importante para que as pessoas entendessem o sentido pejorativo dessa ideia. E, também, acredita que os resquícios da escravidão e o racismo são as bases da hipersexualização de homens e mulheres negras, não a cultura do samba.

Tornando-se feminista

Ao falar sobre a sua trajetória, Mayara Santos destaca que as vivências na comunidade negra foram fundamentais para a formação dela, assim como o fato de sua família ter tido acesso à educação. Graduada em Marketing, ela destacou que sua maior pretensão profissional sempre foi ser empresária na área da cultura.

Nascida quase 10 anos depois de Walkiria, Mayara cresceu em um contexto de profundas mudanças sociais no Brasil, marcado pela ampliação de oportunidades para a população negra por meio da criação de políticas sociais, como as cotas raciais. Apesar disso, ela relatou que trabalhou como mulata do samba — estereótipo que, hoje, ela considera “invasivo”.

“Me incomoda muito a ideia desse nome ter sido dado por um homem branco, italiano, que era um abusador, um apropriador da cultura preta. Então, só o fato de ser assim… Quando eu realmente entendi… Eu entendi isso muito nova, com 15 anos. Eu já não uso mais o termo, eu uso cabrocha, musas, passistas, dançarinas de samba. Eu começo a usar essas outras palavras, porque essa questão já me incomodava. Está sempre naquela ideia do corpo exposto, peito de fora”, explica Mayara, que afirma ter se tornado feminista e ativista sem perceber. 

Mayara conta que quando foi para a Rússia, em 2009, com um grupo de passistas, as dançarinas tiveram que apresentar um catálogo para o cliente com dois tipos de fotos: uma com fantasia e a outra com os seios à mostra. “Se eu vou sambar, por que eu tenho que mostrar as minhas mamas? Na época, com 19 anos: ‘ah, é contrato, tudo bem… essa foto não vai ser exposta’. Mas, hoje, eu jamais faria isso.”

Representantes do samba x corpos abusados

A mudança de olhar sobre o assunto aconteceu “com letramento, com educação e com as conversas com os mais velhos; você entende que isso foi um estereótipo que criaram sobre nós. Então, para eu realmente ser denominada uma mulata, eu preciso ter seios pequenos, cintura fina e o quadril largo? Aí eu sou uma verdadeira mulata? Se eu sou muito retinta, eu não sou mulata? Então, é contraditório.”

Retrato de uma mulher negra em close, olhando diretamente para a câmera. Ela tem cabelo crespo preso no alto da cabeça, com um adorno metálico em forma de arco e dentes que lembra um pente. Usa maquiagem suave, batom em tom rosado e um piercing delicado que liga o nariz ao lábio por uma corrente fina. Veste roupa colorida com estampa vibrante. O fundo é claro, emoldurado por tons de roxo e rosa. No canto inferior esquerdo, lê-se “Créditos: Alex Pires”.
Mayara Santos já foi passista, rainha de bateria e princesa do carnaval de São Paulo – Foto: Alex Pires

Como Walkiria, Mayara também apontou a desvalorização das passistas no mundo do samba como um desafio para as trajetórias das mulheres negras no carnaval.“Nós somos, no caso, a figura mais emblemática e que mais representa essa cultura. Mas, ao mesmo tempo, são essas mesmas mulheres que tiveram os corpos abusados. Isso caminha lado a lado. Do mesmo jeito que é importante, porque é o personagem mais emblemático do samba mundialmente, nós também somos diminuídas, também somos abusadas e também somos deixadas de lado em todos os aspectos.”

Mayara ressalta o racismo expresso no fato de que“quando precisa vangloriar e subir essa mulher para outro patamar, eles colocam outras mulheres, brancas, alegando serem mulheres que estão mais próximas dos padrões exigidos e tudo mais. Então, ao mesmo tempo que construímos, nós também somos excluídas.” E completa: “Uma passista vira presidente de uma escola de samba? Uma passista vira diretora-geral de alguma coisa? É muito difícil até mesmo nos dias de hoje.

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Problemas antigos e desafios atuais

As experiências e perspectivas dessas duas grandes sambistas nos ajudam a entender o quão complexas são a história das relações raciais no Brasil e a situação da mulher negra na nossa sociedade. Reconhecer os avanços e pensar de forma crítica é fundamental, mas isso não nos exime de encarar como as mulheres negras são impactadas negativamente pelas desigualdades nesse universo. Além disso, as declarações delas revelam dimensões importantes da vida de pessoas negras, como valores e formas de sociabilidade, entre outros fatores que nos permitem compreender o que elas fizeram a partir de seus contextos.

As diferenças geracionais entre Mayara e Walkiria evidenciam mudanças no acesso à informação, à educação e na ampliação de oportunidades para pessoas negras. Contudo, também revelam a persistência de hierarquias raciais e de gênero com as quais as mulheres negras têm que lidar no mundo do samba. A desconstrução da mulata foi o começo de um longo caminho de lutas que ainda atravessará muitos carnavais.

*Artes: Lory Costa

**Texto revisado com uso de IA

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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