
O Brasil tem passado por transformações importantes na organização do mercado de trabalho e na relação das pessoas com o emprego. A expansão do teletrabalho e das ocupações mediadas por plataformas digitais nos últimos 10 anos alterou significativamente as condições em que as atividades laborais são exercidas no período pós-pandemia.
Nesse novo contexto, observa-se a redução das taxas de desemprego. Dados recentes divulgados pelo IBGE apontam a diminuição da informalidade, mas a quantidade de trabalhadores e trabalhadoras informais segue elevada, como destacam Kimberly Assis e Andre dos Santos em texto publicado na Revista Exame.
Além disso, os pesquisadores apontam a existência de uma sobreposição de desigualdades regionais e raciais na forma que a informalidade opera no país, de modo que os estados da região nordeste e norte são os mais prejudicados pelo fenômeno. Dados apresentados por eles indicam que a população negra é a mais vulnerável à informalidade em todos os estados, com exceção do Mato Grosso do Sul. E, quando comparadas às mulheres brancas, as mulheres negras estão em posição mais desfavorável, sobretudo na região norte do país.
Mesmo diante dessa conjuntura, os indicadores econômicos parecem apontar para um cenário de crescimento, mas sem gerar melhoria das condições de vida da população. Ao contrário, muitas pessoas seguem se endividando para garantir o acesso a itens básicos, como alimentação e outras necessidades cotidianas.
Alguns economistas têm apontado que falta mão de obra em alguns setores. No entanto, os dados também evidenciam a baixa qualidade dessas oportunidades, sugerindo que a escassez de mão de obra em determinadas áreas pode estar relacionada à recusa das trabalhadoras e dos trabalhadores a postos que oferecem baixos salários e condições precárias. Por isso, muitas pessoas acabam optando por atividades que oferecem rendimentos um pouco maiores e mais flexibilidade de jornada, como acontece no trabalho por aplicativos.
Não é por acaso que o debate sobre o fim da escala 6×1, sem redução salarial, está no centro da agenda pública. Pesquisas indicam que oito em cada dez brasileiros com até 40 anos são favoráveis à redução da jornada de trabalho.
Entre 2015 e 2024, o percentual de pessoas que trabalham 44 horas semanais aumentou de cerca de 40% para 46,1%, um patamar elevado em relação à série histórica. A jornada 6×1 incide de forma desigual na população: é mais frequente entre pessoas negras, com menor escolaridade e inseridas nos segmentos de menor remuneração. Hoje, 74% dos trabalhadores com carteira assinada cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. E os estudos apontam que quase metade desse grupo é composto por mulheres.
Leia Mais: Trabalho doméstico análogo à escravidão aumenta no Brasil e atinge mais mulheres negras
Mulheres negras lidando com esses impactos e se posicionando politicamente
Não é de hoje que o trabalho e suas implicações mobilizam o pensamento e a ação política de mulheres negras no Brasil. A persistência das desigualdades nesse campo nos faz permanecer atentas aos seus impactos em nossas vidas e engajadas na produção de reflexões e debates sobre o tema.
De acordo com os dados do DIEESE, as mulheres negras são responsáveis por cerca de 30% dos lares do país (o equivalente a 24 milhões de famílias), de modo que acumulam o sustento dos lares com o trabalho de cuidado, realizado dentro e fora de casa. Elas seguem entre as profissionais mais desvalorizadas, com o rendimento médio 53% inferior ao dos homens brancos, o que representa uma diferença anual de aproximadamente R$ 30.800, podendo chegar a R$ 58 mil entre pessoas com ensino superior. Sem contar as diferenças salariais e de ocupação que ainda existem entre as mulheres negras e brancas.
Essa desigualdade também se manifesta nas oportunidades de inserção e ascensão profissional. Enquanto uma em cada 46 mulheres negras ocupa cargos de direção ou gerência, entre os homens brancos essa proporção é de um para 17, aponta o DIEESE. Além disso, quase metade delas (49%) recebe no máximo um salário mínimo, 39% está na informalidade e uma em cada seis está concentrada em ocupações como o trabalho doméstico e a limpeza.
Leia Mais: Raça é tema escanteado em proposições sobre gênero no Congresso
A luta por direitos e a persistência da precarização
A taxa de desocupação entre mulheres negras registrada pelo DIEESE, por sua vez, é o dobro da observada entre homens brancos, evidenciando como gênero e raça se articulam na produção de uma estrutura persistente de precarização e racialização da pobreza.
Ao mesmo tempo, são essas as mulheres que protagonizam importantes lutas por direitos no país. A deputada federal Erika Hilton, mulher negra e trans, é uma das vozes principais no debate contemporâneo sobre trabalho, cidadania e justiça social. Um debate que tem impulsionado discussões fundamentais no cenário político.
Esse protagonismo revela não só o papel central das mulheres negras na sociedade brasileira, mas, também, a atuação na disputa por melhores condições de vida em um contexto de destruição dos direitos sociais.
Leia Mais: Ganhadeiras: a força e os desafios das mulheres negras no comércio brasileiro
Refletindo sobre mulheres negras e suas experiências no mundo do trabalho
Ao longo do último ano, ocupei este espaço na revista AzMina para refletir sobre experiências e trajetórias de trabalhadoras negras em diversos momentos da História do Brasil. Me propus a isso por pensar que a relação das mulheres negras com o trabalho (a começar pela escravidão) é o ponto irradiador da reflexão e ação política que têm sido construída por nós. Espero ter plantado essa semente nas ideias de quem teve acesso aos meus textos.
Durante o período que estive por aqui, escrevi sobrea minha própria história e a de minha mãe; o protagonismo político de mulheres negras; trabalhadoras domésticas; ganhadeiras e comerciantes. Também falei sobre as “mulatas profissionais”, mulheres corajosas que optaram em lidar com o racismo e o sexismo de forma pouco convencional para buscar um posicionamento melhor na indústria cultural. O percurso e a pesquisa para a construção desses textos foi um processo muito instigante, uma oportunidade e tanto para dialogar com outras mulheres.
Com esta coluna, encerro minha trajetória neste espaço, mas não o compromisso com esse debate. Continuarei pesquisando, escrevendo e ensinando sobre as desigualdades que estruturam o mercado de trabalho no Brasil, com a convicção de que não serão superadas sem o enfrentamento das discriminações de gênero, raça e classe. Certa também de que falar sobre trabalho é um exercício fundamental para não se deixar levar pelas ilusões do capitalismo (e dos algoritmos).
Obrigada e até breve!
