logo AzMina
Juliana é uma mulher negra de cabelos cacheados e longos. Ela usa uma blusa branca, colar e bracelete.
26 de junho de 2025

Negligência e racismo: por que Juliana Marins foi deixada para trás?

A morte da brasileira escancara o racismo que define quem merece ser salvo, até quando o sonho é só viajar e viver intensamente

Nós fazemos parte do Trust Project

Colagem digital com foto de Juliana Marins sorridente em destaque, usando boné e colar, em cenário com aviões, folhas e planeta ao fundo, em tons vibrantes.

Vivemos muitas coisas nos últimos dias e são muitos os sentimentos que nos tomam. Entre as diferentes guerras que acompanhamos, perdemos uma batalha e tanto: a vida de Juliana Marins foi ceifada pela negligência. Acompanhamos angustiados o desfecho de um caso que poderia ter tido outro final. Quem deveria prestar socorro à jovem negra brasileira perdida na trilha de um vulcão na Indonésia, enxergou nela alguém que poderia ficar para trás. E ela foi deixada como se sua vida não tivesse valor e não merecesse ser salva. 

Eu poderia começar uma discussão com termos acadêmicos explicando em pormenores o porquê disso acontecer, convocar Foucault, Achille Mbembe, biopoder e a necropolítica gendrada para essa conversa – como fez minha irmã Carla Akotirene em vídeo nas suas redes sociais – mas eu escolho compartilhar as primeiras impressões que tive sobre o caso. 

Não dá conta de acompanhar as notícias? Deixe que a gente te ajuda!

Feminismo bem informado

Ao ver a foto do grupo que subiu a trilha com a minha xará, vi que ela era a única não branca – talvez a única não europeia – entre os turistas e lembrei dos filmes de terror ou ação antigos, em que o único personagem negro era o que morria primeiro. De imediato me questionei sobre o absurdo que estava pensando, mas na realidade esse estereótipo de filmes velhos meio que desenha a situação. 

Leia Mais: Viajo sozinha pelo mundo para aprender a lidar com meus medos

Uma mulher negra do sul global

Mesmo ocupando um lugar que não era esperado para ela como mulher racializada vivona, vivendo e gastando seu dinheiro com seus sonhos, Juliana Marins não deixou de ser uma mulher negra do sul global. 

Não afirmo que se uma das suas colegas brancas de trilha estivesse no lugar dela o desfecho seria outro, mas acredito que haveria sim mais esforços para a preservação da vida. Assim como veríamos menos julgamentos em relação a se colocar em risco ou não. Quando o verdadeiro incômodo é por ela estar confrontando a ordem das coisas ao sair sozinha para um mochilão na Ásia. Afinal, esperam que mulheres usem cabresto em vez de buscar ser livre conhecendo o mundo.

Entre as muitas opiniões, o certo é que o racismo se fez presente mais uma vez. O que aconteceu com Juliana não foi por escolha dela. Foram terceiros que decidiram não agir, espalhar fake news e retardar o resgate. É sobre escolher quem pode viver e quem pode morrer. E quem a negligenciou decretou sua morte. 

Lembro que pessoas negras não são vistas como humanas – como explicam os teóricos e as teorias que citei rapidamente acima. Por isso, somos deixados para trás, somos os últimos na prioridade de atendimento nas emergências dos hospitais, somos as maiores vítimas de violências no geral. Precisamos apontar esses fatores para clamar por justiça para as Julianas. 

Leia Mais: Viajei sozinha pela África e senti preconceito por não trazer um homem

Pessoas negras não têm a mesma liberdade de ser viajante

Mulheres brancas (e homens também) que viajam sozinhas, sobem montanhas e prezam pela liberdade, podem e devem lamentar, se indignar e prestar condolências. Mas é fundamental ter em mente que nesse caso há um recorte racial e que pessoas negras não vivem a liberdade de ser viajante da mesma maneira que pessoas brancas. Assim como ter consciência que não é momento para se colocar no centro do debate. Não é sobre vocês, é sobre a Juliana.   

Em conversa com uma amiga branca, ela me disse que “por mais que eu queira levar para o lado do racismo, todo aventureiro está um pouco quebrado por dentro” com o ocorrido. O que obviamente é legítimo e esperado, até porque não tem quem não esteja abalado, mas não descarta o fator raça na negligência sofrida e esse não é um assunto para depois. 

A morte de Juliana Marins esfrega na nossa cara que o pacto civilizatório vigente é um fracasso. Nós precisamos trabalhar por um novo cenário em que nos seja permitido viver muito e sentir tudo – como ela fez. Essa é uma das premissas da Marcha das Mulheres Negras que acontecerá em novembro por reparação e bem viver e que foi tema de aula do doutorado um dia após a constatação da morte da minha xará. 

Comentei com colegas que a morte de Juliana me fazia enxergar a reparação e o bem viver como uma utopia distante. Afinal, a cada tragédia com uma pessoa negra a gente abre uma ferida nova. Mas logo fui lembrada pela minha professora Sandra Maria Silva que muito foi conquistado e articulado após a primeira marcha de 2015 e que nos desesperançar também é um projeto.

Já ouvi que para pessoas negras, sonhar não é opção. Juliana Marins nos mostrou o contrário. A viajante pole dancer de Niterói se torna um símbolo para nós mulheres negras e para todas as que viajam solo. É possível viver o sonho. Deixar de pensar em dias melhores seria um desrespeito a memória da Juliana, que buscou a plenitude em vida, viveu muito e sentiu tudo. 

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Faça parte dessa luta agora

Tudo que AzMina faz é gratuito e acessível para mulheres e meninas que precisam do jornalismo que luta pelos nossos direitos. Se você leu ou assistiu essa reportagem hoje, é porque nossa equipe trabalhou por semanas para produzir um conteúdo que você não vai encontrar em nenhum outro veículo, como a gente faz. Para continuar, AzMina precisa da sua doação.   

APOIE HOJE