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28 de julho de 2021

Ser mestra de si mesma

Autonomia, amor-próprio e intuição são essenciais nos processos de mudança para tomar posse amorosamente da própria vida
mestra de si mesma

Pensar na possibilidade de atravessar um longo deserto pode parecer à primeira vista assustador. E é, não apenas no início como durante alguns momentos da caminhada. Estou falando sobre os nossos períodos mais introspectivos, talvez motivados por alguma crise ou situações que convidam para um olhar interior mais apurado a fim de mudar crenças, padrões comportamentais, hábitos, pensamentos e direções na vida. O tempo precisa agir no processo de mudança de todas as coisas, então, o movimento de cicatrização das nossas feridas passa antes pelo reconhecimento e conscientização de sérias questões emocionais, psicológicas e/ou físicas que podem existir desde a infância. 

Ailton Krenak, militante da causa indígena e ambiental, finaliza um de seus livros com a pergunta: “Toda vez que você vê um deserto você sai correndo? Quando aparecer um deserto, o atravesse”. Foi o que eu fiz. Sem romantizar qualquer experiência profunda de imersão em si mesma, digo que fazer da solitude uma grande amiga, aprendendo a gostar verdadeiramente da própria companhia, pode ser o início para conseguir construir uma relação saudável onde você aprende a confiar na própria intuição e não sentir mais vergonha por quem se é. 

Minha travessia por essa região desértica quase desabitada e desprovida de água da chuva e rios iniciou há dois anos. Primeiro, o dolorido e prazeroso processo de me tornar uma mulher negra. Ser criada numa família adotiva, disfuncional, cristã e majoritariamente branca me distanciou de muitas maneiras da minha ancestralidade. Despertar para a realidade de montar o quebra-cabeça da minha história, me fez perceber (dentro da terapia) o que aparentemente faltava no mapa da minha existência. Hoje, renascida, entendo que não falta nada.

Assumir a minha história me levou, na sequência, para a experiência que descrevo como “uma noite fria de total escuridão”, no meio do que mais parecia o deserto do Saara, uma paisagem sem fim. Foi nesse longo período de obscuridade que vivi lutos e poderosas transformações (a troca de pele da serpente); quando a solidão dava as caras, o feminismo negro, a terapeuta, amigos e a espiritualidade apareciam para me lembrar: “Estamos aqui com você”.

E quando a mente aquieta e tudo parece ter ficado novamente sereno, o sol volta a nascer. Nenhuma escuridão é eterna, mais um dia solar para os andarilhos do próprio destino. Dores e incômodos durante a jornada são necessários para limpar toda a sujeira da autoimagem negativa que fortalecemos através dos anos, importante não focar na culpa e trabalhar no que damos conta de resolver sem forçar o amadurecimento. Acredito no potencial de tecer nossa jornada de uma forma menos alienada e mais sensível, saindo da zona de conforto rumo à conexão com a vulnerabilidade.

Leia também: Qual preço pagamos para bancar a mulher que escolhemos ser?

Não recomendo uma ‘receita de bolo’ fixa para todas as pessoas, cada uma de nós tem a liberdade de escolher e questionar os melhores caminhos para se tornar mestra de si mesma.  Sei do valor de compartilhar afetos e experiências e me guio pela minha verdade e intuição na corajosa empreitada de me responsabilizar pela grande reviravolta na minha vida. Longe de ser uma Buda encarnada na Terra, nem tenho essa pretensão, afirmo que é possível alcançar a liberdade de estar completa e feliz na própria pele. 

Por isso, amadas leitoras, importa sim o que aconteceu com vocês. Mesmo que vocês tenham passado por situações destrutivas, trágicas, angustiantes e que em algum momento tudo pareceu insustentável e sem esperanças, saibam que vocês são valiosas, independente do que disseram ou fizeram para vocês. Você merece amar e ser amada. Você merece ser saudável. Você merece ser próspera. Você merece ser reconhecida. Você merece o sucesso. Você merece estar em paz e com alegria.

Nos tornamos oposição absoluta do que o projeto machista/sexista/misógino/racista/homofóbico predeterminou ao escolher abraçar, com cuidado e carinho, nós mesmas.

Somos mulheres que correm com leoas. 

A seguir, um breve compilado das colunas já publicadas por aqui e que refletem sobre a caminhada para se tornar mestre de si mesma. 

Autoestima

Audre Lorde dizia algo extremamente valioso, “Se eu mesma não me definir, eu seria esmagada nas fantasias de outras pessoas e comida viva”. Essa frase deveria estar pregada num canto de fácil visão pra gente não perder o hábito, ou começar pelo menos, de se questionar os “porquês” e “para quê” de determinadas práticas e condicionamentos em nossas vidas. Ações essas que, se examinarmos com mais afinco, poderemos notar a influência em distintos campos, como profissional, saúde emocional e relacionamentos afetivos. 

Uma autoestima equilibrada não é linear e nem perfeita. Compreendo como um exercício, ou ritual, que escolhemos diariamente abraçar e investir nosso tempo e energia, sabendo que para construir uma base sólida de amor interior (como prefere bell hooks ao se referir à amor-próprio), é imprescindível profundidade no processo dolorido e transformador do autoconhecimento. Reconhecer nossos traumas, faltas e vazios e a partir daí optar em se tornar uma mulher inteira, não mais fragmentada ou uma metade à procura de outras metades, pode nos aproximar da liberdade, de boas escolhas alinhadas com o que sentimos e a integridade da mente, do corpo e do ser.  

Uma mulher que, em primeiro lugar, nutre um genuíno amor-próprio e se considera feliz ao acessar sua beleza e essência, é uma mulher revolucionária. “Creio que esse caos representa uma reflexão de seu interior, da falta de cuidado consigo própria. A partir do momento que acreditarmos, de preferência desde crianças, que nossa saúde emocional é importante, poderemos suprir nossas outras necessidades”, enfatiza bell.  

Necessário pontuar que a rejeição pode até acontecer do lado de fora, porém se não nos abandonamos, acolhemos nossas demandas e cessamos padrões de autossabotagem, temos mais força interior contra as opressões e podemos nos doar com energia e vigor em práticas coletivas. Antes de exigir que os outros nos ouçam, precisamos ouvir nós mesmas e descobrir nossa identidade.  

Leia o texto: Autoestima das mulheres negras: precisamos nos amar e descobrir nossa identidade

Se colocar como prioridade e protagonista da sua narrativa não é egoísmo. É escolha assertiva de quem está consciente nesse mundo pouco desperto em que vivemos.

Minha sugestão é levantar as nossas cabeças com orgulho e construir uma base de autoamor firme. Não é a titulação da academia que vai me dizer se sou boa ou não. Não é o diploma, não é o cargo alto na empresa que me define, não é um alto número de seguidores que valida a minha existência.  Que a gente não dependa do que está fora, entretanto perceba que isso é uma consequência natural da lapidação, autorrespeito e confiança que estabelecemos conosco durante a jornada. 

O preço de se bancar 

Nem sempre é dentro de casa que aprendemos sobre o valor do amor-próprio. Em outros espaços tampouco. Nos tornamos adultos com dificuldades de lidar com as emoções, resistentes aos novos caminhos que se apresentam além das narrativas hegemônicas que ditam o que é certo e errado. 

Mais comum do que se imagina, a dependência emocional numa relação afetiva sexual (familiar ou de amizade) aprisiona a possibilidade de explorar nossas diversas potências, de caminhar com as próprias “pernas” ao transformar o outro em muleta.

Ter orgulho de si mesma é resultado de uma construção que pode envolver muito trabalho, doses de solitude e um mergulho interior intenso na busca de quem realmente somos para ocupar o posto de protagonista da própria narrativa. Aceitar que nossas individualidades muitas vezes fogem da normalidade imposta pelos padrões sociais estabelecidos, é como acender um refletor de LED no nosso caminho. Se o normal é atacar o que soa diferente e estar fechado para romper (e trabalhar) os padrões internos destrutivos, ser anormal é elogio. Podemos carregar algumas feridas da infância e adolescência que podem ter origem justamente no lugar onde poderíamos acessar o amor. Seguir um caminho autêntico pede muita coragem e fé em si mesma para acreditar que merecemos o melhor.

bell hooks nos lembra a necessidade de reconhecer que sempre fomos ensinados a reprimir emoções e engolir o choro. Criar uma nova consciência com possibilidades de segurança para expor sentimentos, fragilidades, diferenças e afetos é desafiador, corajoso e anormal. Na sabedoria de hooks, “a arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de conhecer e nos afirmar”. 

Analisar a caminhada envolve olhar para trás, mas com a energia no presente. O que me tornei? O que faço hoje com as experiências adquiridas? Quais são os melhores caminhos para o agora?

Pedir desculpas por ser você

O peso das instituições família & religião ainda moldam o comportamento, e até direcionam (ou impõem) caminhos específicos, de muitas pessoas. Estamos longe do que seria uma sociedade equilibrada emocionalmente e que aceita a escolha do próximo como algo intrínseco ao seu direito de existir e viver da forma que bem entender. Sem precisar dar satisfação ou ser submetido ao jugo moralista e repressor que tais núcleos costumeiramente se pautam. Construir uma boa base emocional na vida adulta para que a gente tenha mínimas condições de lidar saudavelmente com nossas emoções, amores e adversidades é, na minha compreensão, o básico necessário para acessar o amadurecimento e, talvez, as condições para bancar nossas escolhas reais. 

Aprendemos ainda na infância a anular a nossa subjetividade, desenvolvendo apego e controle para caber numa ideia atrapalhada de perfeição ou mesmo ʽo mundo ideal (nascer, crescer, casar, procriar, morrer)’ almejando a aceitação do outro. Anos depois, algumas conseguem arregaçar as mangas e com muito trabalho, e terapia, nos (re)descobrimos como protagonistas de nossas histórias. 

Quantas vezes nos sentimos inadequadas, infelizes e culpadas em variadas situações do cotidiano? Nos distanciamos, às vezes nem mesmo sabemos quem realmente somos, da nossa essência através das máscaras sociais (boazinha/salvadora/fodona) tentando nos encaixar em estereótipos, relações e espaços que nada tem a ver com a gente, e no fundo até sabemos que aquilo não faz sentido. Sufocamos nossas emoções e como consequência, a ginecologia emocional está aí para explicar, o corpo sente e podemos desencadear sérias questões psicológicas (depressão/fadiga crônica/síndrome do pânico/crises de ansiedade) e físicas.  

Fácil? Não. Dá pra tentar? Sim.  Por mais solitário que seja o caminho do autoconhecimento, e precisamos dessa solitude, lembre-se que não estamos sozinhas. Rede de apoio, profissionais especializados e bons (seletos) amigos podem auxiliar. 

Para teórica bell hooks amor significa ação, então, nada melhor do que calibrar o nosso amor interior com práticas que possibilitem estar em paz e cada vez mais alimentadas de nós mesmas.  Não precisamos pedir desculpas por nada.  

Temos tanto pavor da morte, e da tristeza de conviver com a saudade, porém nos anestesiamos por diferentes razões. Celebrar a vida em vida, com presença, é algo que nunca deveríamos esquecer. 

Leia o texto: Quantas vezes você já pediu desculpas por ser você?

Ter orgulho, paciência e carinho, primeiro, com a gente, requer um preço a se pagar. 

bell hooks ensina que  sem amor, nossos esforços para libertar a nós mesmas e nossa comunidade mundial da opressão e exploração estão condenados. “Enquanto nos recusarmos a abordar plenamente o lugar do amor nas lutas por libertação, não seremos capazes de criar uma cultura de conversão na qual haja um coletivo afastando-se de uma ética de dominação”, diz. 

A gente nunca vai estar só se nos encararmos como uma boa, fiel e segura companhia.

O amor é um ato revolucionário, é político. Que nunca nos falte essa energia vital para ser quem a gente é e para amar quem a gente quiser. 

Feminista decolonial, jornalista e ativista, Júlia sabe a importância de se afirmar como uma mulher negra. Consciência política também é se apropriar da própria narrativa, acolhendo ancestralidade e se abrindo para várias possibilidades, individuais e coletivas, no contexto de negritude. Seguidora leal dos ensinamentos de bell hooks e Lélia Gonzalez, a paulistana acredita que o mundo pode ser um lugar mais aprazível quando estamos munidas de amor-próprio, senso crítico, música e vontade diária de caminhar na contramão do pensamento patriarcal e capitalista.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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