logo AzMina

Artistas negras assumem as rédeas de suas próprias narrativas

Na literatura, cinema e música, mulheres negras deixam de ser o objeto das produções para se tornarem elas próprias as contadoras das histórias
por Monise Cardoso
19 de novembro de 2018
Escritora Jarid Arraes com dois de seus livros. Foto: Dani Costa Russo/Divulgação

A edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2018 teve pela primeira vez um espaço para discutir exclusivamente temas relacionados à produção literária de mulheres negras como Maria Carolina de Jesus. Também neste ano, pela primeira vez, uma mulher negra disputou a cadeira de imortal na Academia Brasileira de Letras (ABL). Conceição Evaristo pleiteou uma das 40 cadeiras que hoje são ocupadas majoritariamente por homens brancos. Também pela primeira vez em toda a história do Oscar, um longa-metragem dirigido por uma mulher negra foi cotado para representar o Brasil na premiação: “O Caso do Homem Errado”, de Camila de Moraes.

Cada uma em seu tempo, com sua linha de trabalho e falando de diferentes lugares, se encontram em um ponto em comum: são mulheres negras que inverteram o status quo e se colocaram como a voz principal de suas narrativas. Uma geração cada vez maior de mulheres negras estão deixando de ser o objeto de produções artísticas para se tornarem elas próprias as contadoras das histórias, por meio da escrita, da música e do cinema.

“Somos humanas. Somos diversas. Somos visíveis. E como autoras e donas de nossas próprias histórias faremos valer a luta ancestral para que nossa palavra seja impressa, ouvida e respeitada”, diz a historiadora e professora Giovana Xavier,  feminista negra e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras da UFRJ. Em 2016, ela escreveu uma carta aberta à Flip justamente questionando a ausência de escritoras negras na feira.

Ao longo da história, pessoas negras têm tido suas histórias contadas a partir do olhar do outro – sobretudo de homens brancos. O resultado costuma ser um produto estereotipado que retrata negros e negras como empregados, escravos, bandidos, seres hipersexualizados e desconectados de subjetividades. “É o olhar do outro. Um outro que pode, sim, trabalhar conosco, mas quem deve estar à frente contando como foi e é essa trajetória tem que ser quem a vive”, diz a cineasta Camila de Moraes. “Do contrário, seguiremos caindo em estereótipos e já estamos cansados disso.”

Escritora reconhecida quando já tinha 70 anos, Conceição Evaristo diz que a literatura brasileira, desde a sua formação até a contemporaneidade, apresenta um discurso que insiste em proclamar e em instituir uma diferença negativa para a mulher negra. “A representação literária da mulher negra ainda surge ancorada nas imagens de seu passado escravo, de corpo-procriação e/ou corpo-objeto de prazer do macho senhor”, diz a escritora no artigo “Da representação à auto-apresentação da Mulher Negra na Literatura Brasileira”.

Passos que vêm de longe

Não é de hoje que mulheres negras se expressam por meio da arte. Elas sempre foram produtoras de cultura, mas barreiras sociais e econômicas as impediram muitas vezes de chegarem aos holofotes. Exemplo disso é a trajetória da escritora Maria Carolina de Jesus, que mesmo sendo um fenômeno de vendas em 1960, tendo “Quarto de Despejo” traduzido para dezenas de idiomas, morreu pobre e esquecida pela opinião pública. Sua obra vem sendo revisitada desde que se tornou leitura obrigatória dos vestibulares da Unicamp e da UFRGS, em 2017.

A historiadora Giovana Xavier é categórica ao afirmar como o racismo perpassa a história de Carolina e das autoras negras, que têm suas condições de escritoras constantemente questionadas. Ela lembra como Benjamin Moser, biógrafo da escritora Clarice Lispector, descreveu Carolina. “A narrativa do biógrafo de Clarice Lispector acerca de Carolina como uma ‘empregada doméstica’ ‘tensa e fora do lugar’ representa de forma violenta e emblemática o confinamento das Mulheres Negras às representações racistas”, afirma.

“Somos rechaçadas toda vez que assumimos papéis que para nós não foram pensados. No mercado editorial, que segue definindo a autoria como um lugar masculino e branco. Na academia, onde nossas pesquisas são desqualificadas como militantes. No confinamento à favela, à escravidão e ao trabalho doméstico nas telenovelas, salvo exceções que mais confirmam regras do que apontam para transformações”, diz a historiadora.

Ainda assim, essas escritoras serviram de exemplo e combustível para a atual geração. “Foi por meio da publicação ‘Cadernos Negros’ que eu conheci Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro e Miriam Alves. Foi um processo de tomada de consciência que me encorajou a escrever meus primeiros artigos na internet e, logo depois, passei a publicar Literatura de Cordel e então lancei meu primeiro livro”, conta a escritora Jarid Arraes.

Mesmo tendo pai e avô poetas, durante muitos anos Jarid considerou a escrita algo inalcançável. Ela conta que durante sua infância e adolescência só teve acesso a livros escritos por autores com os quais não se identificava. “Foi o feminismo negro que me fez perceber o movimento de exclusão das mulheres negras da literatura brasileira”, afirma. Cordelista, poeta e uma das criadoras do Clube Escrita Para Mulheres, Jarid é autora dos livros “Um buraco com meu nome“, “As Lendas de Dandara” e “Heroínas Negras Brasileiras“.

Produção independente

Jarid usa de sua visibilidade para divulgar o trabalho de outras autoras negras, de mulheres do norte e do nordeste do país, pois sabe das barreiras que existem no mercado editorial. Quando tentou publicar seu primeiro livro, procurou editoras de todos os tamanhos e não encontrou espaço nem mesmo nas de literatura afrobrasileira. A saída foi publicar de maneira independente. “Meus dois primeiros livros enfrentaram muitas portas na cara. ‘As Lendas de Dandara’ sofreu racismo e também foi rejeitado porque eu não era uma autora dentro do perfil do mercado. Com o ‘Heroínas Negras Brasileiras’  enfrentei o preconceito contra a Literatura de Cordel”, conta.

O mesmo caminho foi trilhado pela cineasta Camila de Moraes, diretora do longa “O Caso do Homem Errado,” e Mariani Ferreira, produtora executiva do filme. As duas gravaram de maneira independente e cuidaram de toda a parte burocrática da exibição. “Nós já passamos por muitas situações de racismo e machismo. Vimos pessoas desqualificarem o nosso trabalho por ser apresentado por duas mulheres negras, sem aquele currículo todo poderoso e os diversos patrocínios”, conta a cineasta.

Camila é a primeira cineasta negra com um filme em circuito comercial em 30 anos. Adélia Sampaio foi a primeira, ao dirigir o filme “Amor Maldito”, exibido comercialmente no Brasil em 1984. Em “O Caso do Homem Errado”, Camila conta a história de Julio César de Melo Pinto, homem negro preso em Porto Alegre em 1987 após ser confundido com um assaltante. Ele entrou na viatura da Polícia vivo e saiu dela morto após ser executado pelos policiais. “Julio César de Melo Pinto tinha nome e sobrenome e uma família. Precisávamos tratar a história dele com respeito e dignidade. Estamos em busca de novas narrativas”, diz a cineasta.

A diretora vê na enorme lacuna de tempo que separa sua produção da produção de Adélia o racismo e o machismo escancarados do cinema. “Somos muitas produzindo e fazendo cinema, seja com curtas-metragens, longas, ficção ou documentário, estamos em todos as áreas, direção, roteiro, atrizes e atores, elétrica. Temos qualificação em todos os segmentos, mas os obstáculos são tantos que cria abismos entre nós. Mas estamos avisando que ano após ano terá uma produção negra nas salas de cinema em circuito comercial, não daremos nenhum passo atrás”, diz.

O longa entrou para a lista dos 22 filmes pré-selecionados para representar o Brasil no Oscar. “Esta é a nossa primeira produção, é independente, aborda a questão racial e mesmo assim estávamos ao lado de profissionais já consagrados no audiovisual. É uma conquista enorme ter entrado nessa lista.”

Produção musical

Mesmo na música, onde a presença de artistas negros é mais consolidada, o mesmo não se vê na produção musical como um todo. “Querem artistas negros nos palcos, mas não nos querem nos cargos de decisão”, diz Ciça Pereira, dona da Zeferina Produções, que já trabalhou com artistas como Luedji Luna e As Bahias e a Cozinha Mineira. Ciça conta que a falta de um sobrenome de peso no meio musical faz toda diferença. “Como se trata de um mercado que atua em rede, poucos são os acessos que temos.”

Ciça vê a sua vivência como mulher negra atravessar o fazer da produtora o tempo inteiro: dos artistas com quem trabalha aos profissionais que aciona. Consciente das barreiras do mercado, percebe o abismo existente entre o número de mulheres negras produtoras e o número dessas profissionais em atuação. “Acredito que por meio de nossas ações em coletivo possamos mudar esse paradigma. Sinto que a falta de acesso às informações e de contato nos prejudica bastante, além do racismo.” Ela própria começou a atuar no meio musical por meio de um projeto de lei de incentivo que viabilizou sua primeira participação na gravação de um disco.  

Essa atuação pelo coletivo é característica da cultura e do movimento negro. E se vê refletida nas produções culturais. “Sempre penso em projetos traçando esse perfil de raça, o que não necessariamente precisa só estar no resultado final, na tela, mas também no processo, na distribuição de cargos na equipe”, diz a cineasta Karoline Maia, integrante do Coletivo Pujança.

O mercado cinematográfico brasileiro é uma indústria protagonizada por homens brancos, segundo um estudo de diversidade de gênero e raça realizado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). Divulgado no início deste ano com base nos 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição no ano de 2016, o levantamento mostra que foram de homens brancos a direção de 75,4% dos longas, tendo mulheres brancas assinado a direção de 19,7% dos filmes, enquanto apenas 2,1% foram dirigidos por homens negros. Nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra.

Há um efeito cascata quando há diversidade nas produções. Segundo o estudo da Ancine, quando o diretor de um filme é negro, a chance de o roteirista também ser negro aumenta em 43,1% e as chances de haver mais atores e atrizes negras em 65,8%. Quando o roteirista é um homem ou uma mulher negra, as chances de mais atores negros aumentam em 52,5%. “É urgente pensar e agir para que pessoas negras estejam em mais cargos de decisão em produções audiovisuais e de conteúdo”, diz Karoline.

Co-diretora das webséries “Cultura das Bordas” e “Nossa História Invisível” e do documentário “Do Amor à Cura”, ela agora se dedica ao documentário “Aqui Não Entra Luz”, cuja proposta é traçar um paralelo histórico entre a senzala e o quarto de empregada – uma história bastante pessoal para Karoline, que já ouviu de uma chefe, uma mulher branca, que deveria dormir no quarto de empregada.

Artistas para conhecer

Nossas entrevistadas indicaram suas inspirações:

Jarid Arraes

“O homem azul do deserto”, de Cidinha da Silva

Karoline Maia

Karina Evans, que dirigiu alguns clipes do Drake

“Café com Canela”, dirigida por Glenda Nicácio e Ary Rosa

Camila de Moraes

Vera Lopes, atriz e sua mãe

Ciça Pereira

Luedji Luna

Luciane Dom

Arima Ederra

Ayo

AzMina recomenda:

Fizemos uma playlist com algumas das nossas cantoras e compositoras favoritas. Siga o perfil da Revista AzMina no Spotify:

Apoie AzMina

A Revista AzMina alcança cada vez mais gente e já ganhou mais prêmios do que poderíamos sonhar em tão pouco tempo. A gente acredita que o acesso a  informação de qualidade muda o mundo. Por isso, nunca cobraremos pelo conteúdo. Mas o jornalismo investigativo que fazemos demanda tempo, dinheiro e trabalho duro – então você deve imaginar por que estamos pedindo sua ajuda.

Quando você apoia iniciativas como a nossa, você faz com que gente que não pode pagar pela informação continue tendo acesso a ela. Porque jornalismo independente não existe: ele depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e independente para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina

AzMina é uma resposta feminista à desigualdade e ao preconceito