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Primeira vez ‘precoce’ ou ‘tardia’: a pressão sobre a virgindade feminina

De igreja aos programas de TV, o mito da pureza sexual ainda dita regras para mulheres

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A hora certa para “a primeira vez”, o início da vida sexual, deveria ser uma escolha totalmente pessoal. Mas diversos fatores pesam sobre a virgindade de pessoas socializadas como mulher. A sociedade ainda trata a virgindade feminina como um bem a ser protegido, enquanto tende a banalizar – e até escrachar – esse momento para os homens.  

O imaginário criado pela mídia colabora para uma supervalorização desse acontecimento e cobrança para as mulheres. Para a cientista política, educadora e pesquisadora de temas sexuais Carol Bonomi filmes, novelas e séries reforçam expectativas românticas para a primeira relação sexual. Essas produções endossam ideais românticos. “São elementos construídos para dar valor à virgindade, reforçando a ideia de pureza.”

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Feminismo bem informado

Mesmo com tantos contextos e tradições sendo revistos hoje em dia, a primeira vez segue carregando um peso. E a dimensão dele depende, por exemplo, da geração, da religião, do lugar onde se vive, da cor da pele.

Celeste* perdeu a virgindade aos 33 anos, por conta da educação machista imposta pelo seu pai que a podava constantemente. Ela diz que não teve uma experiência muito positiva, mas ainda assim não foi motivo de arrependimento. Afinal, vivências negativas com o sexo podem acontecer em qualquer idade. 

Com 65 anos, Celeste é a mais velha das irmãs e, diante do rigor dos pais — aplicado sempre às três filhas, nunca aos dois homens —, entendeu que não tinha muitas opções. Ela perdeu a virgindade no primeiro namoro. Mas não fizeram sexo no início do relacionamento, foi um processo demorado. “Ele era meu vizinho e nossas famílias eram amigas, o que deu a meus pais e, consequentemente, a mim, uma certa sensação de segurança.”  

Falta orientação e sobra pressão sobre risco de gravidez

A combinação entre falta de orientação familiar, responsabilização pela prevenção da gravidez e educação atravessada pelo machismo impõe às mulheres uma carga desproporcional no início da vida sexual.

Na coluna “Prazer, consentimento e sonhos: um papo sobre sexualidade com a juventude”, escrita para AzMina, a ginecologista e mestre em ciências Halana Faria aponta que conversar sobre sexualidade com a juventude é falar de vida. “Não precisa ser um bicho de sete cabeças — e não é necessário ser especialista, apenas estar aberto ao diálogo”.

Na família de Letícia*, estudante de direito de 28 anos, esse assunto não passava de alertas sobre uma possível gestação não planejada. A estudante conta que, por não se achar interessante, nunca namorou e tem dificuldade em demonstrar ou perceber o interesse sexual de alguém. Apesar disso, ela se considera aberta a conversas sobre sexo, por isso, quem não a conhece profundamente pode até imaginar que seja uma mulher experiente no assunto. 

Para Letícia, a hesitação em perder a virgindade está diretamente ligada à época do colégio e aos traumas que o racismo deixou. A insegurança segue sendo um obstáculo. “Na adolescência, uma amiga que era negra retinta e eu sempre entrávamos nas listas das mais feias da sala, a gente revezava entre primeiro e segundo lugar, sempre”.

Leia mais: 11 coisas que você precisa saber antes da primeira vez

Maturidade emocional pode melhorar ‘primeira vez’

Marcela Mc Gowan, médica ginecologista e obstetra, afirma que ter a sua primeira vez ‘tardiamente’ não deve ser motivo de vergonha ou chacota. Quanto mais maturidade emocional e consciência corporal, menores são as chances de a primeira vez gerar dor ou desconforto, e melhor será a experiência. “A masturbação é uma ferramenta muito importante para estimular e promover prazer, ela vai ajudar a controlar a ansiedade e preparar para aproveitar a primeira vez”, afirma a médica.

Na reportagem “Por que tantas mulheres odeiam suas bucetas?”, publicada n’AzMina, a ginecologista Bruna Wunderlich conta que uma das coisas mais comuns em seus consultórios são pacientes que nunca olharam para suas genitais. “Muitas pacientes aparecem com lesões que não sabem que têm. E se eu não sei como meu corpo é, eu também não sei como ele sente. Como eu vou exercer plenamente minha sexualidade?

Segundo Bruna, a principal consequência desse desconhecimento é a vulnerabilidade em que as mulheres se colocam, achando que o natural é errado e isso é um problema grave.

Entender as influências em torno dessa decisão é crucial para não se culpar ao ter a primeira relação sexual. Como escreveu Halana Faria em sua coluna d’AzMina, “é importante partir do pressuposto que sexo é bom. É exercício de intimidade, desde que seja consentido.”

Um breve histórico da virgindade

A pesquisadora Carol Bonomi lembra que, há menos de 20 anos, o Código Penal se preocupava mais em preservar a virgindade das mulheres do que em garantir a dignidade delas.

Na legislação de 1940, o crime de estupro, denominado como “sedução”, oferecia penas mais graves ou mais brandas considerando a “virgindade física”, como se referiam ao hímen. Essa variação da punição era exclusiva quando os casos envolviam mulheres vítimas que tinham entre 14 e 18 anos. 

Atualmente, os crimes contra a dignidade sexual são tipificados pelas Leis 12.015/2009 e 13.718/2018, que atualizam o Código Penal com novas definições e punições. Entre as mudanças, destaca-se a inclusão do estupro de vulnerável, da importunação sexual e do assédio, com penas específicas para cada tipo de violação.

Até janeiro de 2003, não ser virgem era motivo para a anulação de casamentos em nosso Código Civil. Homens que se casavam e descobriam que as esposas já tinham feito sexo antes, tinham a possibilidade de “devolver suas mulheres” em um prazo de 10 dias após o casamento, invalidando a cerimônia.

Os crimes contra a dignidade sexual ganharam essa nomenclatura apenas em 2009, antes disso eles eram considerados “crimes contra os costumes”. Esse termo defendia uma proteção ao comportamento sexual de um ponto de vista moralista da sociedade e não uma preocupação com a integridade física e mental. 

Mulheres seguem esperando

A antropóloga Luiza Terassi Hortelan, em entrevista para o podcast ‘É tudo culpa da cultura’, comentou que em muitas igrejas evangélicas, o sexo é condicionado a um relacionamento consolidado. Além disso, teria ligação direta com Deus, já que o discurso de muitos pastores e fiéis dessa linha é de que a atividade sexual tem como princípio a reprodução e formação de família. 

Um dos exemplos é o movimento “eu escolhi esperar”, campanha cristã que orienta solteiros a esperar até o casamento para ter relações sexuais. Eles também reforçam a ideia de que é necessário encontrar “o par perfeito” para perder a virgindade. Mulheres que não casaram costumam ficar fora de cultos que podem tratar de relações e assuntos matrimoniais. 

Por outro lado, não faltam homens que retornaram à igreja após vivenciar experiências sexuais. Na juventude, época de descoberta sexual, muitos deles acabam deixando de frequentar a religião pela curiosidade no assunto. “Quando chega a adolescência, muitos meninos se afastam, a sociedade exige que ele comprove a virilidade e a igreja exige que ele espere em Deus”, completa Luiza.

Embora a defesa do sexo após o casamento ainda seja disseminada, alguns segmentos evangélicos demonstram abertura para flexibilizar certas regras. Há igrejas mais tolerantes em relação à aparência — como o uso de tatuagens, piercings e diferentes estilos de vestimenta — e que também adotam uma linguagem mais contemporânea para comunicar a palavra da Bíblia.

Leia mais: “Não existe sexo sem adaptação sendo você uma pessoa com ou sem deficiência”

Cuidados fundamentais 

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde realizada em 2019, a idade média para a primeira relação sexual no Brasil é por volta dos 17 anos. Entre os homens, a média foi de um pouco mais de 16 anos, inferior à registrada para as mulheres: 18 anos. A idade inicial também varia conforme a renda, ficando em 16 anos na população com rendimento de até 1/4 do salário mínimo. Entre as pessoas com rendimento maior a 5 salários mínimos, a média sobe para 18 anos.

O sexo deve ser feito com responsabilidade, consentimento e tendo consciência dos riscos. A reportagem 11 coisas que você precisa saber antes da primeira vez, publicada por AzMina em parceria com o movimento Ela Decide, fortalece questões importantes, como: usar camisinha, poder mudar de ideia a qualquer momento e a importância de decidir o momento de transar sem interferências externas.

No Brasil, a gravidez na adolescência é a consequência que mais causa preocupação. Conforme dados de 2020 divulgados pelo Ministério da Saúde, cada vez menos vemos gravidez na adolescência no país, porém mais 380 mil partos foram realizados em adolescentes no mesmo ano, o que corresponde a 14% dos nascimentos no Brasil. Os números ainda alarmam em comparação à taxa mundial estimada em 46 nascimentos por cada mil meninas.

Crianças transformadas em mães

As estatísticas de gravidez precoce apontam um dado que precisa de ainda mais atenção. A cada hora, 2 bebês brasileiros nascem de mães com idade entre 10 e 14 anos, segundo o Sistema de Informação de Nascidos Vivos do Governo Federal. E conforme o Código Penal brasileiro, qualquer relação sexual com crianças e adolescentes com menos de 14 anos configura estupro de vulnerável – o que dá a essa menina o direito ao aborto legal, mas muitas vezes a lei não é cumprida e ela não tem acesso ao procedimento.

Para além de evitar uma possível gravidez, a responsabilidade no ato sexual também exige atenção para as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s), antes conhecidas como Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST’s). 

Em uma década, mais de 52 mil jovens de 15 a 24 anos vivendo com HIV desenvolveram Aids no Brasil, segundo dados do Boletim Epidemiológico de HIV e Aids do Ministério da Saúde, divulgado em 2023. O levantamento incluiu homens e mulheres e serve de alerta sobre a necessidade da prevenção e do diagnóstico precoce entre a juventude.

A ginecologista Marcela Mc Gowan sinaliza a importância de ter o acompanhamento de profissionais da saúde para um começo saudável no sexo. “Idealmente, todo mundo deveria ter a possibilidade de conversar com uma ginecologista para receber orientações seguras antes de começar a vida sexual.” Segundo ela, esse é um dos caminhos para entender seu corpo e escolher os melhores métodos de prevenção. 

Leia mais: “Minha virgindade não tem nada a ver com meu hímen”

*Nomes fictícios

** Edição: Jane Fernandes, Joana Suarez e Aymê Brito /// Artes: Giulia Santos

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