Você já ouviu falar na rainha negra que governou um quilombo seguindo um modelo de parlamento no século XVIII? A história oficial costuma apagar as mulheres que lideraram a resistência contra a escravidão. Uma dessas heroínas é Tereza de Benguela, que comandou o Quilombo do Quariterê e se tornou símbolo de força e liberdade.
Entre 1750 e 1770, Tereza assumiu o comando da comunidade que abrigava mais de uma centena de negros e indígenas escravizados que fugiam em busca de liberdade. O espaço funcionava tal como um Estado independente localizado no Vale do Guaporé, no atual estado de Mato Grosso. O Quariterê tinha organização política, econômica e militar própria
Tereza criou uma casa de conselho para debates políticos. Os “deputados” da comunidade se reuniam toda semana para decidir estratégias econômicas e defesas militares sob a liderança da rainha. As decisões eram tomadas no coletivo, e Tereza ficava encarregada de coordenar a disciplina rigorosa para garantir a segurança de todos contra os ataques inimigos.
Ainda no reinado de Tereza de Benguela, o quilombo viveu uma fase de fartura agrícola. A comunidade plantava milho, feijão, mandioca, algodão e outros itens de subsistência. Os quilombolas dominavam a arte do tear e vendiam tecidos nas vilas vizinhas em troca de armas.
A segurança do local dependia de uma estratégia militar inteligente. Os guerreiros faziam emboscadas e roubavam as armas das tropas coloniais. O grupo dominava a técnica da forja e derretia o metal do inimigo, transformando o ferro das armas em ferramentas de trabalho para a comunidade.
O apagamento histórico
Em 1770, as forças da Coroa Portuguesa descobriram e destruíram o quilombo. Os documentos oficiais da época chamaram Tereza de “ditadora impiedosa”, mas historiadores modernos apontam que essa narrativa não tem sustentação, ressaltando que foram produzidas por agentes da ordem escravista . O Estado colonial propagou histórias de crueldade para esconder a própria vulnerabilidade militar.
As tentativas de invalidação da história de Tereza vão além do legado, chegando a informações básicas. Não sabemos ao certo o local de nascimento dela ou a sua idade, por exemplo. Esse apagamento sistemático de saberes, identidades e origens de lideranças históricas negras recebe o nome de epistemicídio.
Porém, a tentativa de apagar a memória da rainha falhou. O legado de Tereza de Benguela inspira o movimento feminista negro e lideranças comunitárias no Brasil e no mundo até hoje. A Lei 12.987 instituiu o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra: um momento de organização política de mulheres negras por todo o país. A data celebra a resistência histórica das mulheres negras contra o racismo e o machismo.
A história de Tereza de Benguela evidencia a luta que mulheres negras sempre construíram, seja com estratégias de governo, resistência ou emancipação. Ou tudo junto e misturado!
*Edição: Jane Fernandes// Arte: Lory Costa
**Texto revisado com uso de IA