- A PrEP pode devolver às mulheres controle sobre seus corpos: não depender da proteção oferecida pelos parceiros, negociar relações com mais autonomia;
- Só 8,8% dos usuários da PrEP são mulheres, um reflexo de estigma, invisibilidade e falhas nas políticas de prevenção;
- É urgente investir em profissionais sensíveis à perspectiva de gênero, educação sexual, e campanhas que rompam tabus sobre sexo, corpos e vulnerabilidade.
Quando a camisinha estourou no meio do sexo, Ana Paula Bernardo, de 57 anos, só conseguia pensar nos riscos que corria. O parceiro, um homem da sua idade, deu de ombros quando ela sugeriu um teste de HIV. “Não precisa disso”, respondeu, como se a proteção fosse, além de uma ofensa, responsabilidade reservada às mulheres.
Ana se preocupava porque conhecia o HIV de perto. O filho dela, Alexandre Putti, convive com o vírus há anos e, inclusive, produz conteúdo sobre o assunto nas redes sociais. Foi a ele que Ana recorreu pedindo dicas de prevenção após o rompimento da camisinha.
Alexandre a orientou a procurar o Centro de Testagem e Acolhimento (CTA) da cidade – as unidades estão listadas no site do Ministério da Saúde -, no interior de São Paulo. Lá, ela começou a PEP (profilaxia pós-exposição), com medicamentos que são utilizados depois de uma situação sexual de risco para evitar infecções por vírus como o HIV. Na unidade, foi acolhida pela equipe do Sistema Único de Saúde.
Pouco tempo depois, em outra relação sexual, exagerou no gel lubrificante, e o preservativo escorregou. O parceiro, um homem mais jovem, também se recusou a fazer o teste de HIV. Novamente, Ana se sentiu insegura e buscou o CTA. Como já era a sua segunda PEP em um curto espaço de tempo, a infectologista apresentou à Ana uma solução preventiva: a PrEP, que usa remédios antirretrovirais para reduzir o risco de infecções antes da exposição ao vírus, ou seja, antes de uma relação sexual insegura. Ela aceitou na hora!
Embora a medicação não substitua o uso de preservativo, “com a adesão correta, a efetividade (das terapias PrEP e PEP) chegou a 76% em estudos com mulheres”, aponta Sumire Sakabe, infectologista do Hospital Nove de Julho.
A barreira do estigma social
Ana é exceção, já que a disseminação das terapias de profilaxia esbarram em um estigma social difícil de romper. Fala-se pouco sobre prevenção de forma geral. “E a PrEP é quase desconhecida, talvez por responsabilidade nossa, provedores de saúde, que não damos a visibilidade necessária”, considera Sumire.
Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural BarOng, que há mais de 30 anos discute sexo e sexualidade de maneira descomplicada, afirma que “existe uma ideia muito enraizada de que quem usa PrEP está transando mais, se expondo mais, sendo irresponsável.”

Na prática, é justamente o contrário: para conseguir a PrEP, você tem que ir ao serviço de saúde, fazer testagem de HIV e de outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) regularmente. “Essas pessoas acabam tendo muito mais cuidado com o corpo do que aquelas que sequer sabem o que é uma IST”, destaca Marta.
Para Ana, a PrEP representou uma virada de chave na retomada do controle sobre sua vida sexual. O medicamento não apenas ofereceu proteção física, mas devolveu a ela a confiança para negociar os termos de suas relações íntimas. Hoje, ela não depende mais exclusivamente da boa vontade de parceiros para se proteger – e a autonomia, segundo especialistas, pode ser o caminho para que mais mulheres brasileiras rompam as barreiras que ainda limitam o acesso a essa ferramenta de prevenção.
“Uso para me prevenir e proteger as mulheres dos meus clientes”
Na tentativa de ampliar o acesso à informação e à prevenção, Deusa Artemis, trabalhadora sexual e estudante de Ciências Sociais, começou a usar suas redes sociais para falar sobre saúde sexual, HIV e o uso da PrEP.
Como aponta a filósofa Amia Srinivasan em “O Direito ao Sexo”, a vida sexual das mulheres está ligada a estruturas de poder que moldam a sociedade. Por muito tempo, as decisões sobre prevenção, como o uso de preservativo, ficaram concentradas nas mãos dos homens.
Desde que começou a trabalhar com sexo, em 2022, Deusa entendeu que precisava assumir o controle sobre os métodos de prevenção, sem depender do parceiro. Foi também essa falta de cuidado masculina que fez ela pensar nas outras mulheres envolvidas na situação. “A maioria dos clientes são casados. A gente acaba se preocupando não só com a própria saúde, mas com a das esposas deles também”, defende.

Deusa conta que muitos querem transar sem camisinha e nem se importam, e quando está em situação vulnerável a profissional acaba aceitando. “Esse mesmo homem sai com outras garotas de programa, depois volta para casa. Então, a gente precisa se proteger – por nós, por eles, por quem está com eles (em casa). Porque eles não vão fazer isso”, comenta.
Essa percepção foi o que levou Deusa a produzir conteúdo nas redes. “Comecei por raiva. Os homens consomem nossos serviços, mas julgam as mulheres que trabalham com isso, e as mulheres, muitas vezes, nem sabem que têm o direito de se proteger”, defende.
Números revelam desigualdade de gênero na prevenção
O Painel de Monitoramento da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), de 2025, do Ministério da Saúde, mostra que o Brasil tem pouco mais de 124 mil usuários ativos (que fazem uso dessa terapia de prevenção constantemente). Desses, 91,2% são homens – entre gays, heterossexuais e homens trans. Apenas 8,8% são mulheres, sendo 6,1% cis e 2,7% trans.
Apesar da ampliação do acesso, a série histórica mostra que a participação feminina na profilaxia estagnou ou caiu, revelando uma falha estrutural na forma como políticas de prevenção dialogam com o corpo e os direitos das mulheres. A exceção registrada no ano de 2024 – quando mais mulheres aderiram à PrEP – mostra que o cenário pode mudar, mas exige ações direcionadas.
A ginecologista e sexóloga Milena Brandão acredita que a baixa adesão entre mulheres cis heterossexuais tem relação com uma percepção distorcida do risco. “Existe a ideia de que o HIV afeta principalmente homens que fazem sexo com homens, travestis e mulheres trans. Esse pensamento faz com que muitas mulheres cis heterossexuais negligenciem medidas de prevenção.”
Milena também indica uma crença comum: a de que o risco está associado a ter múltiplos parceiros ou a não usar camisinha – o que não se aplicaria a mulheres em relacionamentos considerados estáveis. “Muitas acreditam que estão seguras por estarem em relações monogâmicas. Mas, nem sempre os parceiros são [monogâmicos também]”, defende.
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“Eu vi teu marido numa sauna, dessas só de homem”
Foi justamente a sensação de segurança, baseada na ideia de exclusividade, que fez com que Carla* demorasse a perceber o que estava acontecendo dentro do próprio casamento. Ela e Eduardo* se descobriram juntos: do primeiro beijo à primeira relação sexual. Pouco tempo casaram, em 2018. “Foi tudo maravilhoso”, diz a dona de casa. Mas, em uma tarde de setembro de 2022, uma amiga da mãe dela, da igreja que frequentavam, falou: ‘Não quero me meter… mas eu vi teu marido numa sauna, dessas só de homem. E não foi a primeira vez’.
“Na hora, travei.” Após o choque inicial, Carla começou a gargalhar. Achava que tudo não passava de uma piada de mau gosto. “Eu não queria acreditar. Fiquei com raiva dela. Neguei para mim mesma.” À noite, quando o marido voltou do trabalho, Carla o confrontou. Ele disse que era coisa antiga, que não tinha mais nada a ver, que foi só curiosidade. “Chorou, me abraçou, pediu perdão. E eu… eu amo ele. A gente tá tentando engravidar. Estou nessa esperança de ser mãe. Então, decidi continuar”.
Não sabendo se o marido usa camisinha, Carla começou a pesquisar online maneiras de se proteger por conta própria. Foi quando encontrou a PrEP. “Até mesmo quem é casada pode tomar, porque, né… nem sempre a monogamia é de verdade”, pondera. No posto de saúde ela falou para a enfermeira que estava em relacionamento fixo, mas o parceiro tinha comportamento de risco e que não usavam preservativo porque queria engravidar. “Ela foi um anjo. Me acolheu, não me julgou”, lembra.
Importantíssimo reforçar que a PrEP não é garantia de prevenção ao HIV. A médica Milena explica que o uso do método de barreira como preservativos (camisinha) é obrigatório mesmo em pessoas que utilizam a PrEP, pois existem outras ISTs. Inclusive, usuários de profilaxia estão entre os indicados prioritários para vacinas importantes, como a do HPV.
“No Brasil, a gente simplesmente não fala de sexualidade de forma geral”, defende Marta McBritton. Especialista no assunto, ela observa que nas consultas médicas, se a mulher não for uma muito bem resolvida, nem pergunta como se proteger das ISTs.”.
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Pânico moral desde o início da epidemia de HIV
A PrEP foi incorporada ao SUS em 2017, na modalidade oral, com uso diário de comprimidos contendo tenofovir e entricitabina. A distribuição gratuita foi iniciada no ano seguinte, com o projeto PrEP Brasil, e inicialmente direcionada a populações consideradas prioritárias: homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas trans e profissionais do sexo.
Hoje, qualquer pessoa pode solicitar a PrEP, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou situação conjugal. O critério principal é estar em situação de vulnerabilidade para infecção por HIV – o que inclui desde trabalhadoras sexuais até mulheres como Ana Paula e Carla, com vida sexual ativa.
Mas a disseminação da estratégia de prevenção esbarrou – e ainda esbarra – em resistências sociais que ecoam desde o início da epidemia de HIV no Brasil, com os primeiros casos registrados em 1982. Entre 1983 e 1986, à medida que a doença se espalhava pelas capitais, algo além do vírus se disseminava: o pânico moral.
“Eu fui trabalhar com HIV justamente porque, quando a epidemia surgiu, ela teve um impacto muito forte sobre a liberdade sexual que as mulheres começavam a viver”, conta Marta McBritton, presidente do BarOng. “O HIV virou pretexto para o controle. Um controle moral sobre os corpos”, analisa.
O machismo está no serviço de saúde, na mídia, nas escolas. Para a ativista, o preconceito em relação à PrEP é só uma continuação disso: “Quanto mais as pessoas conhecerem seus corpos e souberem como lidar com eles, mais capacidade terão de dominar todas as tecnologias de prevenção e cuidado.”
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Educação sexual para autonomia feminina
Aumentar a adesão feminina à PrEP exige estratégias que vão além da disponibilização do medicamento. A primeira delas: educação sexual, para que mulheres entendam o funcionamento dos próprios corpos. Só assim, vida sexual ativa não será sinônimo de tabu.
Marta define que, para falar de sexualidade, a mulher “precisa conhecer o próprio corpo, os direitos sexuais e reprodutivos. Precisa olhar sua vagina no espelho, saber seu cheiro, seu toque.”
Além disso, é urgente capacitar profissionais de saúde para atendimento com perspectiva de gênero, respeitando a diversidade que abarca a palavra mulheres. “Você vai ao ginecologista e, dependendo da sua idade, o foco vai ser ou a menopausa, ou a gravidez”, pontua Marta.
Por fim, campanhas capazes de romper a culpa associada ao cuidado sexual, enfrentada por mulheres de diferentes classes, idades e orientações. “O homem está sempre com o ‘bigulim’ na mão, ele ajeita o pinto na rua, na calça jeans, na frente de todo mundo. E a gente precisa ficar de perna cruzada, recatada”, questiona Marta.
Os dados ajudam a entender esse cenário: de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (2021), apenas 22,8 % da população usa preservativo em todas as relações sexuais – e esse percentual cai para 20,9 % entre as mulheres. Destas, 59 % afirmaram não ter usado preventivo nenhuma vez no ano passado, e 73,4 % justificaram a falta de uso pela confiança no parceiro.
“Se a mulher não se vê como uma vulnerável em contrair uma infecção de transmissão sexual, ela não vai se prevenir, vai negligenciar a sua própria saúde, e isso vai aumentar a incidência da doença em mulheres que estarão mais expostas”, conclui a ginecologista Milena Brandão.
*nomes preservados a pedido das entrevistadas.
**Edição: Jane Fernandes, Joana Suarez /// Artes: Lays Cantanhêde