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‘Eu amo você, agora para de bater na mamãe’

por Anô[email protected]
30 de maio de 2019
Leitora conta como sofreu violência diante dos filhos e decidiu denunciar o agressor
filhos e violência doméstica
Imagem: Paul Klee

“Não é justo, não é certo que ele esteja solto em menos de 24 horas, dormindo tranquilo em casa, enquanto eu aqui passo a noite cuidando do meu corpo cheio de dor, tentando acalmar as crianças cada vez que acordam gritando, relembrando o horror que passamos.

Cada tapa, cada empurrão, cada puxão de cabelo, cada batida com a minha cabeça na parede, cada vez que apertava meu pescoço até eu sufocar. Meu olho, minha pele roxa, minha cabeça dolorida, meu rosto inchado das vezes em que me jogou contra a parede ou algum móvel.

E o estado psicológico? Como fica a cabeça das crianças quando veem a mãe apanhando de marmanjo covarde, imagina como se sentiram sendo ameaçadas de morte!

Chegamos em casa e, quando saltei do carro com meu bebê de 1 ano nos braços, ele acelerou de ré em cima de nós. Antes de entrar em casa, fui agarrada pelo pescoço e jogada contra a parede, levei vários tapas no rosto. Um louco, bêbado e desorientado me sufocando até eu amolecer e perder o ar.

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Meu filho fugiu pra procurar ajuda. Foi trazido de volta por um homem que não acreditou que a mãe estava apanhando. Esse homem entregou meu filho a quem estava enforcando e batendo na sua mãe. Meu filho foi ameaçado caso fugisse novamente.

Minha filha de três anos viveu momentos de pânico, viu tudo, ouviu muitas palavras ruins, muitas ameaças contra mim, assistindo toda aquela covardia, abraçada ao meu corpo implorando: ‘Para, não mata a mamãe, vou chamar a polícia pra prender você. Eu amo você, agora para de bater na mamãe’.

Nisso, meu filho de 8 anos fugiu de novo na esperança de encontrar alguém pra chamar a polícia, sozinho, descalço nas ruas escuras. Fico apavorada só de lembrar o perigo que correu às 3 horas da manhã.

Consegui pegar meu celular escondido e enviar mensagens pedindo ajuda. Mandei pra quase todos meus contatos implorando pra, se alguém estivesse acordado às 3h40 da madrugada, que avisasse à polícia pra nos tirar daquele inferno e fosse procurar meu menino sozinho e apavorado nas ruas.

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Algumas pessoas viram minhas mensagens e ajudaram. Foram encontrar meu filho chorando e desorientado.

Mas eu ainda estava ali com ele, não aguentava mais tanto insulto, tanta coisa sem sentido e sem motivos, tanto barulho dele arrebentando a mão nos móveis, chutando tudo e berrando que ia arrancar todos os meus dentes, me humilhando na frente das crianças e que de hoje não passava, que ele iria me matar.

Peguei meus dois bebês no colo e resolvi tentar fugir, mas quando abri o portão a viatura encostou, e logo chegou mais gente pra levar os bebês pra mim.

Perguntaram se eu queria dar queixa. Mas é lógico que sim. Não ia deixar isso passar como se não fosse nada, só mais uma briguinha de casal. Dei queixa sim e não me arrependo! Porque amor não dói, não machuca, não agride, e nem te deixa cheia de hematomas.

Então, sim, eu apanhei. Não tenho vergonha de me expor e falar que fui vítima de tamanha covardia. Eu não me envergonho do que sofri, quem fez isso comigo que deveria se envergonhar.

Para aquelas que passaram por violência doméstica, saibam que não temos culpa, ninguém merece ser agredida. Não sofram caladas, denunciem, gritem não à violência contra a mulher.”

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