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23 de fevereiro de 2023

“Essa experiência serviu para que eu nunca mais julgue pessoas que abortam”

"Podem até dizer que os hospitais devem acolher e fazer todos os procedimentos normais, como se o aborto tivesse sido espontâneo, mas a gente sabe bem que a realidade não é essa."

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Antes de abortar, pesquisei muito, li relatos de mulheres. Mesmo sabendo que cada corpo reage de uma forma diferente, precisava saber o que estava por vir. Estou contando a minha experiência para que outras pessoas tenham acesso a um depoimento real de aborto. Acho incrível que tenha aqui na internet um lugar para falar sobre um assunto tão importante, mas pouco falado. Meu agradecimento por esse espaço. 

MINHA HISTÓRIA

Me chamo Carla* e tenho 27 anos. Há mais ou menos 11 anos conheci o meu atual parceiro, que também tinha menos de 18 anos à época. Passamos um ano ficando sem ter relações e logo depois resolvi dar um passo adiante, pois achei que ia dar certo pelo fato de ele ser atencioso. Me apaixonei e começamos a namorar sério. Com o passar dos anos, começaram as brigas e traições, várias idas e vindas que totalizaram 9 anos juntos. 

Logo depois de uma traição, voltamos, e em seguida engravidei do meu primeiro filho, que tem 3 anos de idade hoje. Passei por muita coisa durante a gravidez. Foi um choque saber que esperava um filho, tínhamos um relacionamento conturbado e muito complicado. Eu não tinha contato com mães ou jeito com crianças, e ele vivia de festas e bebedeira. 

Fiquei apavorada, mas eu era contra o aborto e ele também. Meu parceiro jurou ficar do meu lado e que iríamos morar juntos logo depois que o bebê nascesse. Passei os 9 meses de gestação descobrindo mais traições, mas fechava os olhos porque ele cumpria com a parte financeira. Companheirismo e respeito, que eram o principal, faltavam no relacionamento. Depois de alguns meses tive nosso filho, o que gerou uma alegria sem fim para todos e criou uma esperança de mudança. 

RELACIONAMENTO ABUSIVO

A ilusão durou cinco meses e depois desmoronou. Resolvi voltar para a casa da minha mãe, onde vivo até hoje. Mesmo depois de separados, voltamos a ficar. Estava começando a me erguer, com um negócio próprio, tinha voltado pra academia e estava bem. Meu parceiro sabia que eu não estava tomando anticoncepcional, e fizemos coito interrompido durante meses. 

Há dois meses essa prática não funcionou como o esperado e tive que tomar a pílula do dia seguinte, que também não funcionou. Já estava desconfiada e com alguns sintomas de gravidez. Comprei um teste de farmácia e o resultado foi positivo. Fiquei sem chão, porque já sabia tudo que tinha passado e não queria estar de novo nessa situação.

Comecei a pensar sobre abortar, mas meu coração estava partido por considerar essa opção. Fiquei confusa e resolvi falar para ele o que estava acontecendo e que queria manter o feto. A reação dele foi péssima e isso me fez duvidar da minha decisão, já não sabia mais o que fazer nem o que pensar. 

Minha mãe estava desconfiada e não apoiava uma nova gravidez. Vivia de mau humor, dizendo o quanto eu iria sofrer caso engravidasse novamente. Foi aí que me veio à cabeça a possibilidade de tomar algum chá para ver se conseguiria fazer com que a minha menstruação descesse. 

Leia mais: De corpo e alma na luta: a enfermeira que batalha pelo aborto seguro há 40 anos

DÚVIDA

Lembrei de uma prima que já tinha feito aborto e liguei para ela para contar a situação. Ela disse que o “chá” não resolveria mais na minha situação e que eu teria que optar por tomar o misoprostol caso quisesse tirar o feto. Mais uma vez fiquei sem chão. Não queria acreditar que teria que tomar uma decisão tão contrária ao que eu acreditava ou lidar com todos os obstáculos da gravidez. 

Já estava apresentando muitos sintomas da gravidez. Passava a maior parte do dia sozinha e não podia contar pra ninguém o que estava acontecendo, pois caso decidisse abortar ninguém poderia saber. 

Meu companheiro não olhava na minha cara, então decidi falar para ele que queria comprar o remédio e dei meus motivos, mas ele discordou, se recusou a me dar o dinheiro e eu não tinha nenhum centavo. Continuei insistindo e ele enfim me deu R$500.

Saímos da cidade para buscar o remédio. No caminho ele foi me falando para não abortar e eu já não entendia mais o que ele queria. Depois de muita conversa, desisti de fazer, mas ele ficou puto por causa do dinheiro, que obviamente não seria devolvido, pois já tinha pago pelos remédios.

Leia mais: Compromisso com a vida das mulheres: a médica à frente do primeiro serviço de aborto legal

A TENTATIVA

Voltei para casa decidida a vender o remédio e continuar com a gestação. Passei 2 dias com os comprimidos guardados em minha bolsa e, para minha surpresa, meu companheiro logo voltou a jogar na minha cara que não queria ter mais um filho.

Nesse momento me decidi. Chorei muito porque se as coisas fossem diferentes, talvez eu nunca tivesse pensado em fazer um aborto. Contei à minha mãe que estava grávida e que já estava com os comprimidos em mão. O que eu mais queria era que ela me pedisse para não abortar, mas isso não aconteceu. Eu estava com seis semanas de gestação. 

Eram quatro comprimidos no envelope e eu estava há 12 horas sem comer. Minha prima me orientou como tomar os comprimidos. Assim eu fiz. Ela também me disse que tinha que deitar com o bumbum o mais levantado possível por pelo menos três horas. 

Passadas as três horas, não estava sentindo nada. Liguei para minha prima e ela me indicou que ficasse mais três horas em repouso, sem comer e sem beber nada. Já eram aproximadamente 21h quando ela me disse para tirar os travesseiros do quadril, mas ainda não podia fazer xixi, nem comer ou sair da posição que estava deitada.

Leia mais: Que seja lei aqui também! As lições que podemos aprender com a legalização do aborto na Argentina

AS PRIMEIRAS 24 HORAS

Acordei com frio às 5h e achei que meu filho tinha feito xixi em mim, mas percebi que ele estava de fralda. Quando acendi a luz do quarto, vi que líquido amniótico e um pouco de sangue tinham sujado a minha calcinha, mas era quase imperceptível. Fiquei nervosa pensando que não deveria ter saído só aquilo de sangue, apesar do pouco tempo de gestação. 

Não sabia o que poderia ter acontecido, afinal não estava sentindo absolutamente nada. Peguei o celular para pesquisar sobre e nenhum relato batia com o que eu estava passando, em todos os casos de aborto que via na internet as mulheres sentiam cólica, dor e o sangramento delas era maior. Entrei em desespero, porém não contei para ninguém o que estava acontecendo.

Não podia buscar ajuda médica porque o aborto não é legalizado e fiquei com medo da repercussão, por isso decidi ficar quieta e me acalmar. Podem até dizer que os hospitais devem acolher e fazer todos os procedimentos normais, como se o aborto tivesse sido espontâneo, mas a gente sabe bem que a realidade não é essa. 

Passei o resto do dia sem sangrar e só dois dias depois veio muito sangue. Logo em seguida o meu parceiro resolveu me pedir desculpas, dizendo que me amava e que iríamos ter e criar os dois filhos. Tive que arrumar um jeito de simular um aborto espontâneo. 

Leia mais: Aborto: 9 mitos que podem ficar no passado

DOR E AFLIÇÃO

Nos próximos dias, não tive tanto sangramento, mas era contínuo e o líquido saia com um cheiro horrível. Não parecia normal. Minha prima, que me auxiliava, agora mal me respondia. Criei coragem e fui ao hospital. Fui atendida pela médica de plantão, que não teve um pingo de empatia e me perguntou se eu havia tomado algo. Obviamente, falei que não. Ela fez o exame de toque três vezes e nunca um atendimento doeu tanto na minha vida. Fiquei toda suja de sangue, mas ela simplesmente não ligou e me pediu para ir fazer alguns exames.

Voltei para casa ainda sangrando um pouco. No dia seguinte, iria ser internada para fazer a curetagem, pois disseram que ainda tinham alguns restos ovulares em meu útero. Estava muito nervosa. Havia pesquisado e sabia que precisava de anestesia para a curetagem. Também li que o pós era dolorido e que corria risco de perfuração no útero, caso o médico cometesse algum erro. 

Eu queria ter mais filhos. Só não queria engravidar no momento pelos meus problemas conjugais, familiares e financeiros. Passei por outro exame de toque. O médico da vez optou por não fazer a curetagem e me liberar, receitando alguns medicamentos. Ele disse que pelo tanto que eu já tinha sangrado, talvez não fosse mais necessário. 

Voltei à clínica um tempo depois e fiz mais uma ultra, que constatou que não havia mais restos ovulares no meu útero, porém o médico disse que eu iria continuar sangrando um pouco por mais uns dias. Não precisei fazer curetagem e ao todo foram 22 dias de sangramento, desespero, aflição e arrependimento. 

Leia mais: 90% dos abortos atendidos pelo SUS são feitos com procedimento ultrapassado

MINHA EXPERIÊNCIA

Essa experiência serviu para que eu nunca mais julgue pessoas que abortam, cada um tem seus motivos. Esse relato serve para quem tem dúvidas e nunca abortou, mas tem que tomar uma decisão. Quero te dizer que você não está sozinha. 

As consequências de tentar um aborto em um país em que a prática é considerada crime são complicadas. Procure uma rede de apoio, alguém que te oriente e esteja com você. Se informe e esteja preparada. 

Tive uma péssima experiência e não recomendo de forma alguma fazer como eu fiz – sem saber de nada, tendo que pedir orientação a uma terceira pessoa e escondendo de todo mundo. Se sinta abraçada. 

Este depoimento foi enviado por email.

Saiba quando é permitido fazer um aborto dentro da lei no Brasil e veja o mapa dos hospitais que realizam o procedimento.

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* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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