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“Para as mulheres, sexo sempre foi trabalho”, diz Silvia Federici

Em entrevista, historiadora autora de "Calibã e a Bruxa" fala sobre como a caça às bruxas existe ainda hoje, é parte do sistema econômico e oprime as mulheres
por Helena Bertho
24 de setembro de 2019

O que é preciso para acabar com a opressão às mulheres? Para a historiadora Silvia Federici, precisamos de uma revolução. Depois de se dedicar a história das mulheres desde o feudalismo, ela concluiu que o controle do corpo feminino por meio da violência é uma das bases do capitalismo e que isso não vai acabar enquanto as relações econômicas seguirem as mesmas. 

Nascida na Itália e hoje com residência nos Estados Unidos, onde é professora emérita da Universidade de Hofstra, em Nova York, Silvia ajudou a fundar o Coletivo Feminista Internacional e participou do movimento por remuneração do trabalho doméstico na década de 70. Ela é autora do livro Calibã e a Bruxa (Editora Elefante), que já vendeu mais de 20 mil exemplares e está disponível para download online

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Silvia está no Brasil para o lançamento de dois livros: O Ponto Zero da Revolução (Editora Elefante) e Mulheres e Caça às Bruxas (Editora Boitempo). Em conversa com a  Revista AzMina, Federici fala sobre história, como a caça às bruxas acontece hoje em dia, a apropriação do corpo feminino pelo sistema e sobre a possibilidade de resistência. 

A historiadora Silvia Federici
Silvia Federici (Foto: Wiki Commons)

Revista AzMina: Lendo Calibã e a Bruxa, tive uma sensação de estar lendo uma nova história do mundo, muito diferente da que estudamos na escola. Porque o que você faz é uma releitura da história incluindo as mulheres. E isso me fez pensar: como podemos confiar na história que conhecemos? 

Silvia Federici:  Quem tem o poder de transmitir a história? É um senso comum dizer que a história foi escrita pelos vencedores. E uma quantidade tremenda de documentação e a voz de populações inteiras foram sufocados. Além disso, a escrita, que é o meio de comunicação, esteve nas mãos de pessoas com poder. Então precisamos ser bem cautelosos com a história oficial. E com o que aprendemos na escola, porque o sistema de educação segue dando um ponto de vista particular. Eu fui para a escola e tive vários anos na Universidade e, por muitos anos, não aprendi nada. Eu aprendi sobre o feudalismo, os reis, rainhas, batalhas e castelos. Mas nunca me ensinaram sobre as vidas dos servos, camponeses, artesãos. 

Foram os movimentos sociais dos anos 60 que permitiram falar da história a partir de baixo, a história dos camponeses, a organização do dia a dia, da reprodução. O mesmo foi com as mulheres, que estiveram ausentes da história até o movimento das mulheres.   

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AzMina: Você diz em seu livro Mulheres e Caça às Bruxas que há novas bruxas hoje. Quem são elas?

Silvia: É importante dizer que nunca existiram bruxas. Elas são uma criação. Primeiro da Inquisição, depois dos magistrados e dos poderosos na Europa. Mas aquelas que são rotuladas como bruxas hoje são primeiramente as mulheres acusadas de bruxaria na África, América Latina e Índia. As “curandeiras” acusadas de curar com poderes sobrenaturais. Essa recriação da imagem da bruxa tem a ver também com a presença, em boa parte do mundo, das seitas fundamentalistas evangélicas. Eles falam de Satã e direcionam a energia das pessoas para longe do problema econômico e sua causa, focando na ideia de que na comunidade há pessoas malvadas. É conveniente que, no momento em que essas comunidades estão empobrecendo, elas direcionem a raiva para pessoas específicas.  

Há ainda uma outra caça às bruxas, mas essas não são chamadas de bruxas. São as mulheres que estão usando sua assertividade, buscando mais poder social, as feministas. 

AzMina: Você diz que a nova caça às bruxas está muito ligada à apropriação pelo capital dos espaços de abundância natural. Considerando que a Amazônia hoje é um dos principais palcos de enfrentamento em relação aos recursos naturais, você acha que as mulheres indígenas brasileiras estão em risco? 

Silvia: Claro. Estamos todos em risco por causa da queima da Amazônia. Ainda mais as mulheres indígenas. Essa é a terra delas, sua forma de sobrevivência, a fonte de subsistência. É sua cultura. Quando você perde a terra, a água, o contato com os animais, sua vida acabou. Não é que elas perdem apenas a terra, elas perdem todo um modo de viver, todo um mundo cultural e histórico. É uma tragédia. 

AzMina: Uma das grandes bandeiras que se vê no feminismo atual é a da inserção da mulher no mercado de trabalho e também pela igualdade salarial. Mas se você considera que o problema central do machismo é a posição da mulher dentro do capitalismo, acha que essa luta faz sentido? 

Silvia: Faz todo sentido. Não há razão para o mesmo tipo de trabalho ou um tipo comparável de trabalho receba diferente. Hoje a luta não é só por salários iguais, mas por salários iguais para trabalhos comparáveis. Mas essa luta não é suficiente. Primeiro, porque não há trabalho igual. Mulheres vão para casa e ainda têm que fazer o trabalho doméstico. Pode ser que alguns homens estejam dividindo, mas fundamentalmente as estatísticas mostram que as mulheres estão fazendo as bases do trabalho reprodutivo. Então a gente não pode lidar com a posição da mulher no trabalho fora de casa, se a gente não lida com a questão do trabalho reprodutivo. A situação da mulher não é a mesma do homem. 

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AzMina: Aqui no Brasil essa questão ganha um adendo de racismo: quando as mulheres brancas conseguem se emancipar do trabalho doméstico não remunerado, isso costuma envolver uma mulher negra realizando o trabalho doméstico por uma baixa remuneração. Você também estudou essas intersecções? 

Silvia: Sim, nós temos isso [nos Estados Unidos] também. Isso é terrível, porque sempre existiram essas desigualdades. Hoje isso ganha um novo nível de desigualdade porque não só as mulheres ricas, mas também as trabalhadoras conseguem contratar uma trabalhadora doméstica por algumas horas ou dias para cuidar da casa ou das crianças. E isso cria uma nova divisão, porque quando você tem uma empregadora e uma empregada, você tem uma relação de poder. Então o movimento feminista tem que somar na luta pelo trabalho doméstico, contra a desvalorização da reprodução. 

AzMina: Você defende que o controle dos corpos femininos foi essencial para a construção do capitalismo. Então você acredita que a resistência também pode vir dos corpos femininos?

Silvia: Eu acabei de terminar um livro chamado Beyond the Periphery of the Skin [“Além da periferia da pele”, em uma tradução livre]. E essa é a resposta para a sua pergunta. O livro reúne artigos sobre essa questão de “meu corpo, meu território”, do corpo como resistência. Mas você precisa ir além do corpo. Você não pode ter controle do corpo — e eu falo de sexualidade, identidade de gênero, tudo — se você não muda a organização do trabalho e as relações de propriedade. Então me parece que o corpo é crucial, mas não é limitado à nossa composição física. Eu estou pensando numa extensão do corpo. Ele é moldado pelas relações com outras pessoas, com a natureza e as políticas econômicas. 

Um exemplo: você não pode mudar sua vida sexual sem mudar a organização do trabalho. Os tempos de trabalho e de sexo são muito compartimentados. Nós temos atividades diárias muito dessexualizadas e então, no sábado e no domingo, é hora do sexo. Então, a forma como o trabalho acontece já coloca muitos limites para nossa relação com o corpo e a sexualidade.  

AzMina: Você tem um artigo em que defende que sexo é trabalho, pode explicar?

Silvia: Para as mulheres, sexo sempre foi trabalho, é parte do trabalho doméstico. Esse é o contrato de casamento. Estamos analisando quais têm sido as expectativas sociais do trabalho da mulher em casa. 

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AzMina: Nessa lógica, prostituição seria só mais um trabalho?

Silvia: Sim. É um continuum. É por isso que sou contra esse moralismo sobre a prostituição. Bem, tantas mulheres são casadas não porque amam o homem, mas porque isso é uma solução econômica. Sua mãe falou: encontre um homem que tenha um bom emprego, segurança, você vai passar a gostar dele. Então, a ideia é que mulheres têm dependido de vender seus corpos porque nós sempre tivemos menos acesso aos recursos do que os homens. Na história do capitalismo, eles sempre tiveram mais acesso a dinheiro, empregos e formas de subsistência. Então nós tivemos que vender não só o trabalho em si, como os homens, mas também nossos corpos. 

AzMina: Você acredita que pode haver uma mudança dentro do sistema capitalista?

Silvia: Não, eu acho que precisamos de uma revolução. Mas uma revolução não vai acontecer de um dia para o outro. É longo processo de luta, mas precisamos que os movimentos olhem para além do capitalismo. 

AzMina: Então você não acredita na luta por meio da política ou mudanças nas leis?

Silvia: Uma questão essencial é entender a diferença entre as reformas que nos permitem lutar com mais poder e as que nos fazem recuar. É absurdo imaginar que vamos dizer não para toda reforma, que vamos fazer uma mudança revolucionária. Pelo outro lado, é preciso ficar de olho, porque é comum que sejam propostas reformas que enfraquecem a luta, porque privilegiam um grupo de pessoas e criam novas divisões. 

AzMina: Você destaca muito as opressões que as mulheres sofrem devido a seu papel de reprodução da força de trabalho, focando bastante na questão biológica.

Silvia: Não, não foco na biologia. 

AzMina: Mas fala como o poder de reproduzir, gerar novos trabalhadores foi a base da opressão das mulheres. 

Silvia: Mas isso não é só biologia. Não estou dizendo que não existe uma biologia, mas o que chamamos de biológico, ou natural, sempre foi mediado por relações culturais, políticas e sociais. Não existe biologia pura, isso tem uma história também. 

AzMina: E para você qual o espaço de luta para as mulheres trans dentro do feminismo? 

Silvia: Quando falamos “mulheres”, estamos falando de todas as mulheres. É uma discussão muito ampla, porque temos várias questões diferentes aqui. Uma delas, talvez a mais importante, é se a categoria “mulher”, como uma categoria analítica e política, é ainda viável. Porque nós temos feministas famosas nos Estados Unidos, como a Donna Haraway e Judith Butler, que lutam para construir um feminismo sem mulheres. O que elas querem é um feminismo que não seja atrelado a uma identidade de sujeito, um feminismo que seja puramente opositivo. Eu discordo disso. 

Porque isso significa ignorar toda a história de lutas que as mulheres tiveram. Eu não acredito que “mulher” seja uma categoria biológica. Para mim, “mulher” significa uma posição particular na organização de trabalho, uma posição particular na divisão sexual do trabalho e uma forma particular de exploração. Eu quero trazer luz para a forma como o capitalismo usa as diferenças entre homens e mulheres para criar todo um trabalho estrutural. Você não pode lutar sem falar disso. 

Mulheres podem ser muito diferentes, mas nas plantations [sistema agrícola baseado em uma monocultura de exportação mediante a utilização de latifúndios e mão-de-obra escrava] as mulheres foram exploradas de forma muito diferente dos homens. A luta dos escravos não é só a luta dos homens. Elas foram forçadas a produzir novos escravos, elas lutaram para não dar à luz, para ter contracepção, para não deixar seus filhos serem escravizados, para enfrentar estupros. Então como falar em oposição sem falar sobre as experiências de exploração e luta das mulheres? Vamos dizer que isso não conta para nada? Não conta para nenhuma solidariedade? Não nos deu coragem e conhecimento? Eu não acho. 

E quando eu vejo milhares de mulheres nas ruas na Argentina, elas falam como mulheres. Elas podem ser mulheres trans ou lésbicas, mas eu não as vejo deixando de se identificar como mulheres. Em um nível de massa, vá dizer às mulheres que sua experiência é insignificante. Eu não vejo isso. E eu não vejo Judith Butler criando um movimento de massa. Mas é importante que a gente reconheça que toda a questão de gênero sempre foi muito fluída e diversa do que nos fizeram acreditar. Veja a questão das pessoas intersexo, que é muito importante, por exemplo. Eu acho que é importante brigar contra a obrigação de ser um homem ou uma mulher, etc. Mas ainda assim, se você não muda quem controla os recursos do mundo, você pode se chamar do que quiser, se você for despossuído, você não vai poder mudar. Então a luta tem que ser mais ampla. 

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