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Sou gay e falo alto: eu vou sobreviver

por Divã d'AzMina
25 de outubro de 2018
'Não faz sentido para mim. Nós somos feitos de festa, de cor, de alegria, de brilho e de amor, e eles nos matam'
Quem senta no Divã hoje é a Ma Troggian. Foto: Divulgação/Jay S. Ali

“Em 2017, ao entrar no estúdio do meu produtor no Brooklyn, eu tinha apenas uma certeza: de que minha nova música seria um manifesto contra a homofobia no Brasil. Eu morava em Nova York há três anos, mas a opressão contra a comunidade LGBTQ+ na minha terra natal bateu seu recorde. 445 mortos. O país que mais nos mata no mundo.

No estúdio, eu trabalhei ao lado de dois produtores americanos. Bassy Bob (indicado a mais de 30 Grammys) e John. A gente passava a maior parte do tempo se divertindo e criando os elementos da música. Mas a energia pesava quando eu começava a cantar a letra.

There is glitter in my head
Lady Gaga is in my bed,
Oh they tried to shut us down
Bitch, we are gay and we are proud.

E continuava…

If they put me in that chair
If they fuck me till I am dead
I am not givin’ up my crown,
Bitch, I am gay and I am loud
I will survive.

Em uma tradução livre: ‘Eu penso em glitter/ a Lady Gaga está na minha cama/ eles tentam nos calar/ nós somos gays e temos orgulho/ Se eles me prenderem naquela cadeira/  E me comerem até eu morrer/ eu não vou desistir da minha coroa/ eu sou gay e eu falo alto/ Eu vou sobreviver’.

Usando diversas referências do universo e da cultura gay (da qual como mulher queer eu pertenço desde que nasci), eu não conseguia encontrar palavras menos revoltadas. Não faz sentido para mim.

Nós somos feitos de festa, de cor, de alegria, de brilho e de amor, e eles nos matam.

O Bob ficava tenso. Ele me perguntava se eu não preferia compor algo mais feliz. Mais “Brasil”. Eu dizia: isso é Brasil. O Brasil que o estrangeiro não conhece. O Brasil homofóbico, racista e machista.

A música ficou pronta, e demos o nome de ‘I Want Ur Luv’. Eu me reuni com outra amiga, fizemos uma versão acústica e tocamos pelos bares mais underground de Nova York. Sempre faço questão de falar sobre o que está acontecendo no Brasil. E digo que a música foi meu reflexo a violência cometida contra nós. A galera chora, canta junto. É lindo.

Daí veio o clipe. Reuni meus amigos gay, queer e bi, e filmamos num porão. A experiência foi renovadora. Um grupo de pessoas dividindo nossas histórias e refletindo sobre a importância do que estávamos fazendo. Alguns de nós brasileiros, outros americanos, austríacos… Gente de todas as partes do mundo. Mas todos familiarizados com o tema.

Agora, quase um ano depois, eu estou no Brasil, vivendo o momento histórico do #EleNão. A correção de cor está quase acabando e logo será a hora de lançar o clipe. Nunca achei que essa experiência seria tão assustadora. Depois de crescer em uma família liberal e morar em Nova York – onde até as árvores são gays – eu não pensei que fosse viver o medo imposto de ser quem eu sou.

Eu nunca pensei que enviar esse manifesto ao mundo fosse exigir de mim coragem.

É um movimento que partiu de mim, mas não é só sobre mim. A causa é maior. É um problema grave que precisamos consertar. O preconceito. Uma das inúmeras formas limitantes, criada pelo homem que mantém o poder, de nos controlar.

‘I Want Ur Luv’ me deixa muito orgulhosa. E me ensinou que eu não posso desassociar minha arte da minha condição social. Todos nascemos políticos, mas eu assumi um comprometimento com a minha posição nesse mundo. E entendi que minha política é feita também por meio da minha expressão artística.

Fica ligada, que o clique sai no fim de outubro. Até lá, ouça I Want Ur Luv by MA no Spotify e, sempre, celebre a beleza de ser quem você é.”

Quem senta no Divã hoje é Ma Troggian.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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