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16 de dezembro de 2025

Por que ainda é tão difícil para mulheres viajarem sozinhas no Brasil

Barreiras simbólicas, econômicas e sociais ainda restringem a nossa liberdade de circular pelo mundo

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Colagem sobre mapa em tons azul-verde. No centro, um globo terrestre serve de base para uma mulher sentada, sorrindo, ao lado de duas malas roxas com rodinhas. À esquerda, uma mão em P&B ergue um passaporte laranja com cartão de embarque. À direita, um cofrinho rosa recebe moedas flutuantes. A imagem sugere viagem planejada e finanças para turismo.

“Quando uma mulher viaja, algo poderoso acontece”, é uma frase que a gente usa muito no Mulheres e a Cidade. Nela cabe um gesto de autonomia grandioso, que atravessa anos de proibição, resgata o direito de tomarmos nossas próprias decisões e alcança territórios de reinvenção de nós mesmas. 

Recentemente, promovemos um encontro presencial com a nossa comunidade e o tema da conversa foi justamente esse: o desejo de viajar sozinha. Reunimos mulheres de diversas faixas etárias e estratos sociais e as vontades e medos delas eram os mesmos. Mais do que buscar paisagens que as inspirem e as retirem por um tempo das jornadas diárias exaustivas, elas sonham em exercitar a liberdade de fazer o que quiserem – inclusive nada. Porém, entre os impeditivos, lideram o medo da violência, o julgamento social e as barreiras financeiras. 

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Feminismo bem informado

Os relatos reforçam dados da pesquisa “Os sonhos delas: o que povoa o imaginário das mulheres brasileiras?”, realizada em 2025 pelo Lab Think Olga, em parceria com o projeto “Sonhe Como Uma Garota”. O estudo investigou mulheres de todas as classes sociais e regiões do Brasil, na faixa etária de 18 a 80+, e revelou que viajar é o sonho mais comum entre as brasileiras. A pesquisa mostrou também que 88% das participantes acreditam que sonharam mais alto do que suas mães e avós. Esse número é o ponto de partida para entendermos porque ainda é tão difícil viajar sozinha.

Uma volta no tempo

A autora Sónia Serrano, no livro “Mulheres Viajantes”, resgata trajetórias apagadas pela história e mostra como ao longo dos séculos os deslocamentos femininos foram restringidos por normas sociais, religiosas e jurídicas, que associavam mobilidade à masculinidade e confinavam as mulheres ao espaço doméstico. Mesmo quando algumas conseguiam romper essas barreiras, o faziam sob vigilância intensa e, muitas vezes, usando disfarces. 

No Brasil, esse passado não é tão distante assim. Até 1962, a mulher casada precisava da autorização do marido para exercer diversos atos da vida civil, inclusive se deslocar. Foi apenas com o Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/1962) que essas restrições foram removidas: deixamos de depender da autorização do marido para trabalhar, herdar bens, assinar documentos ou viajar. Mesmo assim, viajar sozinha ainda é um direito difícil de exercer, por conta de todas as barreiras, desde as simbólicas às amedrontadoras. 

A ideia de que o espaço doméstico é o lugar adequado para mulheres segue operando de maneira estruturante. Sabemos que elas ainda dedicam mais horas ao cuidado familiar do que os homens. Essa responsabilização feminina pela casa, pelos filhos e pelo bem-estar de todos também faz com que viagens solo sejam vistas como “desvio” ou “egoísmo” em determinados contextos. É um julgamento social que molda subjetividades e gera culpa. É como se as antigas restrições legais permanecessem, mas agora de maneira informal. 

Leia Mais: Viajo sozinha pelo mundo para aprender a lidar com meus medos

Um sonho atravessado por raça e classe

A falta de dinheiro também afeta diretamente o desejo de viajar das brasileiras. Segundo o estudo do Think Olga, cerca de 70% das mulheres afirmam já ter desistido de um sonho por falta de recursos financeiros. Elas seguem ganhando menos que os homens. E as mulheres negras ocupam de forma predominante postos de trabalho mais precarizados, com menor remuneração, menos direitos trabalhistas e jornadas mais longas. 

Esse cenário reduz não só a capacidade financeira de planejar uma viagem, mas também a disponibilidade de tempo livre para fazê-la. Mulheres com renda mais baixa também dependem de redes de apoio para cuidar de filhos, familiares e da casa. Para muitas, viajar é um luxo distante não apenas pelo valor financeiro da viagem em si, mas pela ausência de condições materiais e sociais básicas para deixar a rotina.

Metade das mães solo brasileiras não consegue fazer sequer uma viagem a lazer por ano, aponta a pesquisa “Tendências de Turismo – Verão 2025″, conduzida pelo Ministério do Turismo em parceria com a Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados. Essa informação evidencia como a desigualdade de gênero se soma às desigualdades econômicas e raciais: mães solo são majoritariamente mulheres negras.

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Medos que nos cercam, caminhos que abrimos

O medo da violência é outra barreira para mulheres que sonham em viajar sozinhas. Casos como o assassinato da cicloviajante venezuelana Julieta Hernandez, em 2023, e os infinitos relatos de assédio que ganham repercussão na imprensa reforçam essa sensação coletiva de ameaça. Sentimos na pele, todos os dias, na rua e no transporte público, o quanto uma mulher sozinha vira alvo. Mas não podemos esquecer das milhares de histórias positivas que amigas nos contam e desconhecidas compartilham, além das experiências seguras que nós mesmas já tivemos.

Embora a violência seja real e precise ser enfrentada com respostas robustas do poder público e da sociedade, o receio excessivo também funciona como um mecanismo de controle social, enfraquecendo a nossa coragem para desbravar novos territórios. O desafio é equilibrar a atenção aos riscos com estratégias concretas de proteção, sem alimentar narrativas de que o mundo não é lugar para mulheres desacompanhadas. Viajar sozinha não é imprudência. Se vamos juntas, vamos mais longe.

É por isso que recebemos com entusiasmo a notícia de que o Ministério do Turismo (MTur) está construindo o “Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas”. Um material que promete reunir dicas práticas sobre planejamento, saúde, segurança, direitos e empoderamento, em linguagem acessível e com recursos interativos. Desenvolvido em parceria com a UNESCO, o projeto integra uma agenda de turismo responsável e com perspectiva de gênero, alinhada ao memorando de entendimento firmado com a ONU Mulheres. 

Além das iniciativas do poder público, as redes de apoio formadas na internet e fora dela têm desempenhado um papel importante. Estamos falando de livros, perfis de Instagram, newsletters e canais no YouTube que oferecem desde planilhas para planejamento financeiro até orientações logísticas e incentivo emocional para quem deseja dar o primeiro passo. Esse ecossistema online e offline amplia o nosso acesso à informação e contribui para tornar o sonho possível, especialmente para mulheres que não têm referências próximas de outras viajantes.

Para uma mulher, viajar sozinha é mais do que ampliar horizontes e exercitar a autodescoberta. É desafiar normas sociais que restringem o lazer e reforçam papéis rígidos de gênero. É ocupar espaços historicamente negados e, de certa forma, carregar junto aquelas que, no passado, sonharam em viajar e foram impedidas. Diante de tantos obstáculos, decidir viajar é um ato de coragem. E também uma reivindicação: o mundo também é nosso.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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