logo AzMina
20 de julho de 2020

São João está dormindo?

Esse ano Gonzaga canta tímido nas casas, não tem quadrilha e bandeirinha. Mas da janela vem o aroma de mingau da casa de alguma vizinha e eu sei que São João está lá
São João
Foto: Elói Corrêa/GOVBA

Existem datas que ficam marcadas em nossa vida afetiva e existem datas que unem nosso inconsciente com toda nossa comunidade. Na vida do Nortista / Nordestino, noites de junho têm cheiro de mingau de milho, estão vestidas com roupas de quadrilha e se comunicam através da voz de Gonzaga. Já passei São João em outras terras e para mim faltava aquele gosto, aquele tempero com gosto de Tucupi daqui do Norte e canjica do Nordeste. Eu sou bairrista, me desculpem!

Mas assim como o Círio de Nazaré é algo que me deixa emocionada todo outubro (mesmo que no resto do ano esteja à margem de tudo que a igreja prega), junho é um mês que gruda na gente. 

Primeiro, me lembra cheiro de pão, daqueles pequeninos, redondos, que minha mãe embrulhava em um papel com uma imagem de Santo Antônio. Passávamos o dia 13 naquela igreja sufocada de pedidos de amor. Engraçado pedir amor a um homem que foi toda sua vida celibatário. Às vezes, víamos casais que se formavam de um ano para o outro, e aquilo renovava a esperança. 

Em todo lugar se ouvia Luiz Gonzaga, conterrâneo de meu avô, que era seu fã e amigo. Aí era correr pra fazer a roupa do São João, quadriculada ou luxuosa, se fosse miss da quadrilha (e que sonho era sair em uma quadrilha, daquelas grandes!). Pela mão da minha irmã íamos atrás das festas, para ver apresentações daqueles grupos: “Flor do Paraíso”, “Flor Cigana”, “Roceiros de São João”. Tantos nomes, tantos jovens que se tornavam por uma noite o centro da atenção, e não era pelo que a mídia tentava impor aos jovens da periferia. Eles eram reis e rainhas naquelas noites quentes de junho.

Leia mais: Um agradecimento a todas as pessoas que curam e nos trazem o amanhã

Também havia os Pássaros, esses são a “Ópera da Amazônia”, uma expressão cultural exclusivamente Paraense que com música e dança canta a história do Uirapuru, o pássaro místico. Chegava noite de São João e íamos para casa de algum vizinho comemorar, ou ficávamos aqui na minha casa. Primeiro a ladainha para São João, uma ladainha apressada, torturante com o cheiro das comidas quentinhas, pois ladainha de São João é feita junto à comida pra ter fartura o ano inteiro. 

E a fogueiras? Ah, que lindo! Cada casa com a sua na frente e dança moleque com estalinho e aquelas bombinhas que me aterrorizavam/encantavam. Aquele São João, menino bonitinho, segurando um carneiro em suas mãos, em nada me remetia ao João Batista tendo a cabeça cortada pelo Sinistro feminino* que a beleza de Salomé carregava. Foi com espanto que “já velha” descobri que eram o mesmo João. 

Igrejas enfeitadas com festinha todo final de missa. Barraquinhas aonde você podia ganhar um beijo de uma boca com o gosto caramelado de maçã do amor. E o banho de São João? Aquele é especial, tem que ir cedo ao Ver o Peso** e ver eles erguerem o Mastro de São João. Depois ser coroado com a erva de São João, aí sim você toma o banho e fica protegido e com boa sorte até o próximo junho. 

E cada noite estrelada (pois aqui estamos no auge do verão) vai tecendo histórias em roupa quadriculada. 

Leia mais: Não somos todos Bacurau

Esse ano, Gonzaga canta tímido nas casas, não tem quadrilha nem bandeirinha. Esse ano a tristeza tenta dizer que acabaram-se as Noites de São João. Mas da janela vem um aroma de mingau da casa de alguma vizinha. A minha mão já amassa as ervas do banho que os devotos vão vir buscar. Como diz a música esse ano “São João está dormindo, não acorda não”. Mas, para o ano vamos completar “Acordai, acordai, acordai São João “. E vai ser tudo bonito de novo.

*Sinistro feminino: dentro da minha religião, é o nome que damos às forças femininas que carregam dentro de si uma energia sexual capaz de moldar suas realidades. 

**Ver o peso: maior feira aberta da América Latina, localizada na cidade de Belém do Pará. 

Rebecca Souza é feminista descolonial e mulher de etnia cigana que vive no norte do Brasil. É ativista de direitos humanos e foi eleita “Jovem Mulher Líder” pelas Nações Unidas. Foi do Grupo Assessor da Sociedade Civil da ONU Mulheres, é sacerdotisa de bruxaria tradicional e nas horas vagas se apresenta como dançarina de dança do ventre.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Jornalismo independente depende das pessoas que acreditam na importância de uma imprensa plural e livre para um país mais justo e democrático.

Apoie AzMina