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11 de outubro de 2020

Quem mandou nascer menina? Sobre o Dia da Menina e sua importância

As violências as quais as meninas são submetidas são naturalizadas e percebidas como parte inerente a sua vida

Numa roda de conversa com crianças, pergunto sobre seus sonhos, a menina de oito anos me responde: “Ah, Tia Vivi, eu queria ser professora”. Por alguns segundos vejo um leve brilho em seus olhos, de repente o brilho se acaba e ela diz: “Mas eu sei que vou trabalhar em casa de família”. 

A adolescente em uma grande capital me diz: “Meu pai já foi ministro, meu avô já foi ministro, mas como eu sou menina, ninguém espera nada de mim, ninguém se preocupa se eu posso chegar lá também”. 

Duas histórias, duas meninas com realidades socioeconômicas absolutamente diferentes mas que partilham de uma mesma marca: são meninas. O Brasil é o 4° país do mundo em número de casamentos infantis, na América Latina, está entre os cinco países com índices mais altos, são cerca de 554 mil casamentos de meninas entre 10 a 17 anos por ano no Brasil, sendo mais de 65 mil delas com idades entre 10 e 14 anos, a maior parte dos casos, são meninas que se casam ou se unem a homens mais experientes, com melhores condições econômicas e mais velhos, uma diferença média de 5 a 8 anos, mas podendo ser muito maior. São casamentos ou uniões, uma violação aos direitos humanos. 

A cada quatro horas, uma menina com menos de 13 anos é estuprada no Brasil, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. De acordo com as pesquisas realizadas pela Plan International Brasil, enquanto 11% dos meninos arrumam suas camas, 81,4% das meninas fazem isso, 76% das meninas lavam as loucas e mais de 68% das meninas cozinham. 

Uma em cada três meninas avalia que o tempo para brincar é insuficiente, e uma em cada cinco conhece uma menina em situação de violência e 70% delas não conhece ou só ouviu falar no estatuto das crianças e dos adolescentes. A maioria das meninas de até 14 anos de idade ouvidas no Maranhão falam que quando menstruaram tiveram que parar de brincar, e passaram a ficar mais em casa e cuidando da casa: viraram adultas.

Existem atualmente no Brasil 11 milhões de pessoas com idade entre 16 e 29 anos sem acesso à educação e sem oportunidades de trabalho – os chamados “sem-sem”. 27,9% das mulheres jovens estão nessa condição e a maternidade precoce é um dos fatores que estão associados a essa situação: do total de jovens de 15 a 19 anos sem estudo e sem trabalho, 59,7% já têm pelo menos um filho, 69% são negras. 

Leia mais: Ser uma menina é o primeiro desafio de ser…

Quando compreendemos as meninas em sua diversidade, percebemos que existe o risco de que algumas meninas sejam submetidas a mais violências que outras, afinal não é a mesma coisa ser pobre, ser rica, ser negra, ser branca, ser menina com deficiência e menina que não tem deficiências… Mas todas são meninas. 

A leitura desses dados traz à minha mente a imagem de um país que, reiteradamente, age como um gigante malvado e pergunta a 30 milhões de pessoas: quem mandou nascer menina? 

Esses dados, embora tão devastadores, passam despercebidos pela maioria de nós. As violências as quais as meninas são submetidas são naturalizadas e percebidas como parte inerente a sua vida, e é essa noção que o Dia da Menina vem perturbar. O Dia Internacional da Menina, 11 de outubro, estabelecido pela ONU desde 2011, é uma data que nos permite chamar a atenção de todo o conjunto da sociedade para as violências as quais as meninas são submetidas, somente porque são meninas. Explicita que, numa sociedade como a nossa, meninas e mulheres são menos valorizadas do que meninos e homens e precisamos falar sobre isso. Precisamos, enquanto conjunto da sociedade, nos desafiar a trazer essas violências para frente e fazer um real enfrentamento a essas normas sociais e conteúdos simbólicos que geram barreiras que impedem o pleno acesso das meninas a seus direitos. E devemos família, Estado e sociedade, permitir enfim que cada uma das meninas brasileiras possa se desenvolver numa existência livre de violências. 

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Cada menina no Brasil e no mundo, no entanto, cotidianamente, também vem desafiando essa realidade, existe e resiste. E resistindo mostram sua potência, criaram movimentos sociais, vêm ressignificando formas de luta e formas de ver e se relacionar com a vida: liderando movimentos mundiais pelo Clima como Greta, pelo direito à educação de meninas como Malala, pelo fim do assédio nas escolas como Luana Pantaleoni, pelo direito a serem respeitadas em sua existência negra como Mc Soffia e muitas outras mais. 

Junto com as meninas podemos construir um mundo melhor para cada uma delas e se for um mundo melhor para cada uma delas, seguramente será melhor para a sociedade toda. E no Dia da Menina, fazemos esse convite, que tal darmos esse primeiro passo? Quem se junta a esse movimento?

Sou negra, mulher, nordestina e feminista. Sou professora, trabalho há muito tempo com organizações não governamentais. É isso ai, ongueira mermo!  Sou ativista dos movimentos de mulheres negras e defensora de direitos humanos. Adoradora de paçocas e mãe de Marquinhos.

* As opiniões aqui expressas são da autora ou do autor e não necessariamente refletem as da Revista AzMina. Nosso objetivo é estimular o debate sobre as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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